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 POLÍTICA 30/05/2001
CAPA

A guerra dos atabaques - continuação

Ricardo Miranda e Ricardo Stuckert (fotos) – Salvador

O pai-de-santo PC garante que seu terreiro não faz política: “Somos voltados para a parte religiosa”

“Não precisamos de senhor, não somos mais escravos, nem vamos permitir que a Bahia continue sendo uma senzala. A negrada veio pra rua pra dizer que não quer mais ACM”, fez coro Olívia Santana, 34 anos, da coordenação da Unegro (União de Negros pela Igualdade), uma das dezenas de movimentos negros que saiu às ruas de Salvador na noite de terça-feira 22 para pedir a cassação de Antônio Carlos Magalhães. Também queriam responder aos manifestos que têm circulado com o apoio de entidades negras a ACM. “João Jorge do Olodum e Vovô do Ilê Ayê fazem parte de um grupo que acredita que somente se consegue alguma coisa na Bahia puxando o saco do senador. Esquecem que o movimento negro é muito maior do que eles”, diz Olívia. Os 300 militantes do MNU (Movimento Negro Unificado), Unegro, Niger Okan e outros grupos reunidos na Coordenação Nacional de Entidades Negras (Conen) fizeram uma passeata, ao som de hinos afro, caminhando da Praça da Piedade até o Pelourinho para levar até a entrada da Igreja do Rosário dos Pretos 81 velas vermelhas (cor de Xangô, orixá da Justiça) representando os 81 senadores da República. Ali receberam o apoio de pessoas como o desempregado Antônio Carlos de Abreu, 50 anos, que desabou sobre os joelhos para implorar a Ogum e a Santo Antônio que ACM perdesse o mandato. “Já fiz promessa, pedi a Deus e ao diabo para Antônio Carlos ser cassado”, contou. Alessandra Rodrigues dos Santos, 11 anos, aderiu ao ato por um motivo bem diferente. “Não devia ter esse apagão, ninguém vai poder brincar, nem ver novela”, desabafou, sinceramente magoada.

Duelo – De tempos em tempos, surgem novos apoios “voluntários” a ACM na Bahia. O mais recente foi de reitores de universidades particulares, prontamente rebatido pelos estudantes destas instituições. A renúncia anunciada de ACM, marcada para esta quarta-feira 30, transforma de vez a Bahia em palco importante para 2002. Entusiasmado pelas manifestações cada vez mais numerosas na terra do carlismo, Luiz Inácio Lula da Silva, eterno candidato do PT à Presidência, já pensa em participar do próximo ato, na quinta-feira 31. Já sem mandato, ACM vai desembarcar no mesmo dia em Salvador para uma festa que já está sendo preparada pelo PFL, com o apoio de sete trios elétricos. Vai lançar sua candidatura ao governo da Bahia, coisa que já ensaiou na sexta-feira 18 em Feira de Santana, quando garantiu que o povo o aclamaria nas urnas de novo. “Os baianos me fizeram segurar e sustentar esta luta que vai até 2002, quando vamos vencer o Senado e o governo do Estado”, tentou profetizar ACM. Mas os atabaques continuam tocando. E quanto mais são ouvidos, mais parecem anunciar novos tempos para a Bahia.

“A Bahia vive uma ditadura disfarçada”
Neta de Dorival Caymmi, Juliana discursa contra ACM: artista junto ao povo

Com um barrigão de seis meses de gravidez, cansada da viagem de São Paulo até Salvador, a carioca Juliana, 25 anos, subiu com dificuldade os 11 degraus do carro de som, agarrou o microfone e soltou a voz para uma multidão de 15 mil pessoas, no Farol da Barra. Ela se confundia com os manifestantes que se revezavam discursando, cantando, lendo poesias e fazendo repentes contra Antônio Carlos Magalhães. Só que Juliana é neta de Dorival e filha de Danilo Caymmi, família de músicos e compositores que é a mais pura tradução da própria Bahia.

ISTOÉ – Por que você está aqui?
Juliana Caymmi – Fui convidada por amigos do PT e do MST e não poderia faltar neste momento histórico. Vim não como cantora, mas como cidadã que quer o fim do que há de mais podre na política baiana.

ISTOÉ – Como você viu o apoio de alguns artistas a ACM?
Juliana Caymmi – Não posso julgar os artistas que fizeram isso, mas sabemos que quem não entra no esquema carlista sofre boicote. A Bahia vive uma ditadura disfarçada, mas o artista não pode virar as costas para o povo.

 

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