CAPA
A guerra dos atabaques - continuação
Ricardo
Miranda e Ricardo Stuckert
(fotos) – Salvador
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O pai-de-santo PC garante que seu terreiro não faz política:
“Somos voltados para a parte religiosa” |
Não precisamos de senhor, não somos mais escravos,
nem vamos permitir que a Bahia continue sendo uma senzala. A negrada
veio pra rua pra dizer que não quer mais ACM, fez coro
Olívia Santana, 34 anos, da coordenação da
Unegro (União de Negros pela Igualdade), uma das dezenas
de movimentos negros que saiu às ruas de Salvador na noite
de terça-feira 22 para pedir a cassação de
Antônio Carlos Magalhães. Também queriam responder
aos manifestos que têm circulado com o apoio de entidades
negras a ACM. João Jorge do Olodum e Vovô do
Ilê Ayê fazem parte de um grupo que acredita que somente
se consegue alguma coisa na Bahia puxando o saco do senador. Esquecem
que o movimento negro é muito maior do que eles, diz
Olívia. Os 300 militantes do MNU (Movimento Negro Unificado),
Unegro, Niger Okan e outros grupos reunidos na Coordenação
Nacional de Entidades Negras (Conen) fizeram uma passeata, ao som
de hinos afro, caminhando da Praça da Piedade até
o Pelourinho para levar até a entrada da Igreja do Rosário
dos Pretos 81 velas vermelhas (cor de Xangô, orixá
da Justiça) representando os 81 senadores da República.
Ali receberam o apoio de pessoas como o desempregado Antônio
Carlos de Abreu, 50 anos, que desabou sobre os joelhos para implorar
a Ogum e a Santo Antônio que ACM perdesse o mandato. Já
fiz promessa, pedi a Deus e ao diabo para Antônio Carlos ser
cassado, contou. Alessandra Rodrigues dos Santos, 11 anos,
aderiu ao ato por um motivo bem diferente. Não devia
ter esse apagão, ninguém vai poder brincar, nem ver
novela, desabafou, sinceramente magoada.
Duelo De tempos em tempos, surgem novos apoios voluntários
a ACM na Bahia. O mais recente foi de reitores de universidades
particulares, prontamente rebatido pelos estudantes destas instituições.
A renúncia anunciada de ACM, marcada para esta quarta-feira
30, transforma de vez a Bahia em palco importante para 2002. Entusiasmado
pelas manifestações cada vez mais numerosas na terra
do carlismo, Luiz Inácio Lula da Silva, eterno candidato
do PT à Presidência, já pensa em participar
do próximo ato, na quinta-feira 31. Já sem mandato,
ACM vai desembarcar no mesmo dia em Salvador para uma festa que
já está sendo preparada pelo PFL, com o apoio de sete
trios elétricos. Vai lançar sua candidatura ao governo
da Bahia, coisa que já ensaiou na sexta-feira 18 em Feira
de Santana, quando garantiu que o povo o aclamaria nas urnas de
novo. Os baianos me fizeram segurar e sustentar esta luta
que vai até 2002, quando vamos vencer o Senado e o governo
do Estado, tentou profetizar ACM. Mas os atabaques continuam
tocando. E quanto mais são ouvidos, mais parecem anunciar
novos tempos para a Bahia. 
| “A
Bahia vive uma ditadura disfarçada” |
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Neta de Dorival Caymmi, Juliana discursa contra ACM: artista
junto ao povo |
Com um barrigão de seis meses de gravidez, cansada
da viagem de São Paulo até Salvador, a carioca
Juliana, 25 anos, subiu com dificuldade os 11 degraus do carro
de som, agarrou o microfone e soltou a voz para uma multidão
de 15 mil pessoas, no Farol da Barra. Ela se confundia com
os manifestantes que se revezavam discursando, cantando, lendo
poesias e fazendo repentes contra Antônio Carlos Magalhães.
Só que Juliana é neta de Dorival e filha de
Danilo Caymmi, família de músicos e compositores
que é a mais pura tradução da própria
Bahia.
ISTOÉ Por que você está
aqui?
Juliana Caymmi Fui convidada por amigos
do PT e do MST e não poderia faltar neste momento histórico.
Vim não como cantora, mas como cidadã que quer
o fim do que há de mais podre na política baiana.
ISTOÉ Como você viu o apoio de
alguns artistas a ACM?
Juliana Caymmi Não posso julgar
os artistas que fizeram isso, mas sabemos que quem não
entra no esquema carlista sofre boicote. A Bahia vive uma
ditadura disfarçada, mas o artista não pode
virar as costas para o povo.
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