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 POLÍTICA 30/05/2001
CAPA continua...

A guerra dos atabaques
Terreiros de candomblé da Bahia são forçados a trabalhar por Antônio Carlos Magalhães. Quem resiste sofre ameaças


Leia também: Ajuste de contas

Ricardo Miranda e Ricardo Stuckert (fotos) – Salvador

Os tambores estão batendo pela cassação de ACM: terreiros de oposição ficam sem ajuda oficial

Na capital do candomblé, uma guerra de atabaques agita os quase seis mil terreiros da Bahia, transformados em um barulhento termômetro do ocaso de Antônio Carlos Magalhães. Senador com hora marcada para renunciar, pronto para fugir da cassação e da perda dos direitos políticos, Antônio Carlos tenta forjar uma Bahia unida em sua defesa, passando por cima dos chamados “terreiros de oposição”. Comandando 80% dos terreiros da cidade, e controlada com rédea curta pelo carlismo, a Confederação Nacional da Religião Afro-Brasileira tem pressionado os terreiros a batucar em favor de Antônio Carlos Magalhães. Mais do que isso: a “federação” do candomblé, como é conhecido esse cartório que exige alvarás para o funcionamento de terreiros e diplomas para a atuação de pais e mães-de-santo, coletou para um manifesto contra a cassação de ACM a assinatura de 280 centros, entre eles um dos maiores da Bahia, o terreiro Gantois – que atravessa um período de sucessão desde a morte de Mãe Menininha e de sua filha, Mãe Creusa. Líderes dos “terreiros de oposição”, centros que não se vinculam ao governo carlista e apóiam a cassação de ACM, contam que vivem diariamente o medo de serem fechados. “Existe uma caça às bruxas nos terreiros independentes”, conta Gilberto Leal, do Centro de Estudos das Populações Afro-Indo-Americanas da Universidade Estadual da Bahia. Quem não tem do que reclamar são os criadores da Feira de São Joaquim, uma das maiores da cidade, vendendo como nunca seus bodes – animal usado para alimentar Exu em trabalhos contra a cassação de Antônio Carlos.

“Baiana de esquerda sofre”, conta uma mãe-de-santo em seu pequeno terreiro, cercada de quadros de santos e orixás, a síntese do sincretismo baiano. Ela tem sido visitada por um ‘caboclo’ que insiste em lhe dizer para tomar todo o cuidado com ACM. “Para os amigos, tudo. Para os inimigos, a lei”, diz um pai-de-santo que não consegue ajuda da Prefeitura de Salvador para seu terreiro cheio de goteiras depois que passou a fazer “lavagens” para políticos de oposição. Ele também não assinou o manifesto pró-ACM. “É uma chantagem. O terreiro que se rende a Antônio Carlos recebe ajuda. Os pais e mães-de-santo independentes, que não se submetem, ficam na pobreza”, diz a deputada estadual Alice Portugal (PCdoB), uma das líderes da oposição ao carlismo na Assembléia Legislativa.

Sem partido – Um dos pais-de-santo mais ouvidos em Salvador, Sivanilton Mata, o PC, 37 anos, os últimos nove como babalorixá do Ylé Oxumaré, conta que não assinou o manifesto porque é contra o envolvimento do candomblé com política. “Meu terreiro não faz política partidária, somos voltados para a parte religiosa”, diz PC. Localizados em casas e barracos nos bairros pobres de Salvador, onde se concentra a população negra, os terreiros dependem muitas vezes de ajuda do município para sobreviver. Mas o barulho feito pelos terreiros que não aderiram ao carlismo é minimizado pelo “babá” Aristides Mascarenhas, do terreiro Iê Axé Opô Ajagunã, que tem pedido aos orixás que preservem o mandato de ACM. “Os tambores contra Antônio Carlos são minoria. A grande maioria dos terreiros toca por ele”, acredita Aristides, que preside a “federação” e diz ter uma dívida com Antônio Carlos, que doou o prédio no Pelourinho que serve de sede para a entidade. “Tem terreiro que já foi muito beneficiado pelo governo”, reconhece.

Enquanto os tambores ecoam nas noites de Salvador, caem, uma a uma, as tentativas de ACM de mostrar que a Bahia está unida na defesa de seu mandato. O governo carlista bem que tenta pressionar artistas, grupos e blocos, que dependem do Carnaval oficial e de programas bancados pelo Estado, a assinar manifestos de apoio a seu mandato. Mas não consegue impedir a multiplicação de atos espontâneos como o de Juliana Caymmi, 25 anos, neta de Dorival Caymmi, que na quarta-feira 23 se somou a 15 mil manifestantes no Farol da Barra em um dos maiores atos públicos contra ACM. “Nós somos o último Estado da Federação a se libertar. A queda de Antônio Carlos é o início da alforria baiana”, compara o jornalista Samuel Celestino, 56 anos, um dos mais respeitados comentaristas políticos do Estado, que assina há 13 anos uma coluna no jornal A Tarde.

Leia mais nas próximas páginas:

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