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 POLÍTICA 30/05/2001
Governo II continua...

Governo desliga a Justiça
Planalto afronta Código de Defesa do Consumidor para conter ações, é pressionado a recuar e estuda decretar feriado para economizar energia


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Juliana Vilas e Madi Rodrigues

Ricardo Stuckert
Supremo Tribunal Federal está com a iluminação reduzida

A trapalhada do governo ao editar a medida provisória que recria o Ministério do Apagão e revoga o Código de Defesa do Consumidor foi tanta que a Câmara de Gestão da Crise já admitia na sexta-feira 25 rever a anulação das determinações do código durante o racionamento. Pressionado pela repercussão negativa que uniu a população, juristas e diversos setores do Judiciário, o ministro do blecaute, Pedro Parente, se mostrou disposto a pôr o assunto em pauta. O advogado geral da união, Gilmar Mendes, optou por um discurso conciliador ao afirmar que “não há ponto fechado, o direito de ir à Justiça continua íntegro”. A intenção palaciana desde o início foi de desligar da tomada a Justiça, que já se pronunciava contra as imposições do racionamento. Parente admitiu, na quinta-feira 24, que o governo estuda a posibilidade de decretar feriado nas segundas ou sextas-feiras para fugir do apagão. A economia de energia durante um dia de folga dos trabalhadores representaria 20% dos dias úteis de trabalho. A medida adicional seria adotada no final de julho.

As declarações das autoridades em defesa do pacote poderiam ser classificadas como cômicas se a situação não fosse trágica. Juristas reagiram com firmeza ao que chamaram de medida desesperada. Segundo eles, trata-se de mais um ato inconstitucional. O governo amordaçou os Procons, as entidades civis e o Ministério Público no que se refere às ações civis públicas contra o pacote antiapagão. A decisão dificulta o acesso do consumidor à Justiça e protege o governo e as distribuidoras de energia contra as ações, crescentes no País.

A reação governista à Justiça que favoreceu o consumidor foi rápida. O diretor-geral da Agência Nacional de Petróleo, David Zylbersztajn, deu o tom da retaliação: “Quem recorrer à Justiça e vencer vai ganhar de presente o apagão”, advertiu o primeiro-genro, um esbanjador de energia pelos padrões do pacote. Ele, a filha de FHC e os dois filhos consomem mensalmente 1.400 kWh, sete vezes acima do limite estipulado para isenção de sobretaxa. O secretário de Energia de São Paulo, Mauro Arce, também integrante do Ministério do Apagão, segue fazendo o mesmo barulho de Zylbersztajn: “Vamos colocar banda de música na porta do cara e cortar a luz.”

Mas a reedição da MP não atemorizou a Justiça. Em Marília, interior de São Paulo, o juiz da 2ª Vara Federal Salem Cury concedeu na quinta-feira 24 liminar suspendendo o corte de energia e a cobrança da sobretaxa em todo o País. E apertou o cerco contra as distribuidoras, determinando multa diária de R$ 10 mil por corte ou cobrança de multa. O autor da ação, o procurador Jefferson Aparecido Dias, explica não ser contra a economia de energia. “Até desligamos o freezer lá em casa. Há muito tempo só uso lâmpadas econômicas. O que é inconcebível e me levou a propor a ação foi o fato de não concordar que a crise energética justifique medidas totalmente inconstitucionais”, afirmou.

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