Encomenda do caos
A crise mostra que a privatização não substitui
a responsabilidade pública
Antonio
Luiz Monteiro Coelho da Costa
| Marcos
Michelin/Jornal Estado de Minas |
 |
| O
investidor privado só concorre com os colossos hidrelétricos
se tiver garantia de preço alto |
Se o caos tivesse sido planejado, dificilmente teria sido mais
perfeito. Ao ver na privatização um substituto para
o planejamento e a responsabilidade pública na área
de energia, o governo brasileiro errou tanto quanto o governo argentino
ao acreditar no câmbio fixo como substituto para a responsabilidade
do Estado na área monetária, com consequências
igualmente sérias para o desenvolvimento a longo prazo. Chegamos
a uma catástrofe que pode nos obrigar a aceitar tarifas extorsivas
para não ficar no escuro e a paralisar todos os outros investimentos
industriais e sociais para viabilizar o investimento em energia
assim como os argentinos correm o risco de uma crise cambial
capaz de forçá-los a aceitar a dolarização
e perder o que lhes resta de soberania.
O péssimo gerenciamento da privatização e
a inépcia dos órgãos reguladores agravaram
e anteciparam o problema. Grande parte da eletricidade foi privatizada
sem se definir o conjunto da regulamentação e sem
se cumprir as regras que chegaram a ser definidas. Nas geradoras
ainda estatais, os investimentos foram cortados para atender os
credores externos e às metas do FMI, e as reservas de água
acumuladas pelas chuvas excepcionais de 1999 e 2000 foram consumidas
na certeza de que a natureza continuaria a ser igualmente generosa.
Sob esse modelo, porém, mesmo um governo mais competente
enfrentaria cedo ou tarde a escassez. É ótimo para
a economia e o ambiente que a maior parte da eletricidade do Brasil
seja gerada a baixo custo por enormes hidrelétricas, mas
isso não favorece a eficiência da concorrência.
Não se pode esperar que o mercado equilibre oferta e demanda
suavemente quando a eficiência está mais ligada ao
clima e a geografia do que à tecnologia; quando o produto
não armazenável nem pode ser importado, mas é
vital e insubstituível; e quando a operação
envolve responsabilidades colaterais e geralmente pouco lucrativas
fora da atividade principal controle de cheias, irrigação,
navegação, preservação de espécies
aquáticas, qualidade da água, pesca, turismo.
Estatização Não entram novos
concorrentes hidrelétricos onde os melhores recursos hidrográficos
já foram aproveitados. Sem o risco de novos concorrentes
mais eficientes, interessa ao gestor privado esperar a escassez
para poder aumentar as tarifas, em vez de aumentar a oferta, baixar
o preço da energia e impulsionar o resto da economia à
sua custa. Tem havido interesse privado em extrair o lucro praticamente
garantido da capacidade já instalada, mas quase nenhum em
ampliá-la. Quanto às termelétricas, o investidor
privado deixou claro que não quer concorrer com colossos
hidrelétricos capazes de gerar energia a menos de US$ 35
por mWh enquanto puder vender energia nos EUA ou na Europa a US$
80 sem risco cambial e risco-país. Se algumas das prometidas
49 termelétricas a gás saírem do papel será,
na maior parte dos casos, porque a Petrobras foi autorizada a tocá-las
sem esperar pelos esquivos parceiros privados.
Durante muito tempo, o planejamento do setor elétrico foi
uma responsabilidade do Estado em todo o mundo. A gestão
podia ser privada como era geralmente o caso nos EUA ,
mas devia acatar metas de atendimento e preços controlados
de forma que o lucro fosse proporcional aos equipamentos instalados,
o que estimulava o investimento. A taxa de retorno dos investimentos
em energia não era espetacular, mas garantida.
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