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 POLÍTICA 30/05/2001
Governo continua...

Apagão político
Racionamento de energia elétrica, denúncias e nova crise na base aliada escurecem o futuro político de FHC


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Andrei Meireles e Sônia Filgueiras

Montagem Sobre Foto de Leopoldo Silva

Tudo o que o presidente Fernando Henrique Cardoso sempre desejou foi encerrar o segundo mandato como um exemplo de êxito na política: fazer seu sucessor e entrar para a História. FHC chegou a saborear esse sonho há dois meses, quando, depois de um longo jejum, voltou a experimentar índices de popularidade em ascensão. A economia brasileira mostrava capacidade de absorver a crise argentina, o peso da retração econômica americana ainda estava indefinido e o algoz mais incômodo do presidente, o senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA), entrava na berlinda por fraudar o sigilo da votação que cassou o mandato do senador Luís Estevão (PMDB-DF). Mas o deleite durou pouco. No front externo, a situação econômica continua preocupante e no interno piorou sensivelmente com a crise de energia que vai barrar o crescimento da economia e causar desemprego. Essa reviravolta praticamente anula a expectativa do tucanato de que as boas notícias econômicas compensariam o desgaste da enxurrada de denúncias de corrupção contra o governo e seus parceiros políticos. Um verdadeiro apagão político está provocando o salve-se-quem-puder na base governista. Para desespero de Fernando Henrique, os aliados estão debandando para as candidaturas presidenciais do governador de Minas Gerais, Itamar Franco (PMDB), e do ex-ministro Ciro Gomes (PPS), dois viscerais adversários de FHC. Quem também está acreditando que desta vez chega lá é o petista Luiz Inácio Lula da Silva. “Até o momento, queríamos desgastar o governo. Agora temos que torcer para ele não desabar de vez”, tripudia o deputado petista José Genoíno (SP).

Helcio Nagamine/B. Tchernobilsky/AP
Lula, Ciro Gomes e Itamar Franco: oposição monta estratégia para aproveitar a maré negativa do governo

O entusiasmo petista não causa maiores preocupações no Palácio do Planalto. Lá, o temor é com o fortalecimento político de Itamar e sua crescente penetração na área empresarial, irritada com a barbeiragem administrativa que gerou a crise do apagão. No domingo 20, as bases do PMDB em todo o País elegeram as novas direções regionais e manifestaram claramente a disposição de concorrer com candidato próprio à Presidência da República. A ala peemedebista que flerta com o ministro da Saúde, José Serra (PSDB), perdeu terreno. Quem também pretende embarcar na canoa de Itamar é ACM. “Vou apoiar Itamar, mesmo que ele não tenha pedido”, anunciou o cacique baiano na terça-feira 22. Apesar de completamente desgastado em todo o País e com o reinado ameaçado na Bahia, Antônio Carlos ainda tem um balaio de votos cobiçado por outros presidenciáveis. O governador do Ceará, Tasso Jereissati (PSDB), é um deles. Depois de trabalhar para que a convenção nacional dos tucanos não votasse uma moção pela cassação de ACM e do ex-correligionário José Roberto Arruda, Tasso deu declarações contra a punição do cacique baiano. “Ele perdeu as condições éticas de se candidatar pelo partido”, censurou o senador Antero Paes de Barros (PSDB-MT). Cria de Tasso, Ciro Gomes também tratou de bajular o coronel baiano, de maneira tão oportunista quanto seu padrinho político. Chegou a afirmar que a fraude não seria motivo suficiente para cassar ACM, aplicando uma rasteira no comando do seu partido, empenhado em punir Antônio Carlos.

Ricardo Stuckert
Pedro Parente, poderoso ministro do Apagão, e José Jorge (à dir.), o que é sem ser

Ao mesmo tempo que a dispersão da base fortalece seus adversários na disputa pela Presidência da República, os abalos na economia tornam mais remota a hipótese de FHC levar às eleições um candidato tucano forte. O racionamento de energia vem obrigando o governo a anunciar uma sucessão de más notícias, e do pior tipo, pois atingem diretamente a população. Na última semana, o Planalto decidiu editar uma medida provisória impedindo os brasileiros de usar o Código de Defesa do Consumidor contra o tarifaço e os cortes punitivos no fornecimento de energia (leia reportagem a partir da pág. 40). A crise do apagão, junto com a tendência de alta da inflação, também fez o Banco Central subir pelo terceiro mês consecutivo a taxa básica de juros da economia, que passou de 16,25% para 16,75% ao ano na última quarta-feira 23. Além do imediato efeito de elevar o custo e o prazo dos empréstimos ao consumidor, os juros mais altos têm o efeito de frear a economia. Técnicos da equipe econômica já trabalham com uma taxa de crescimento do PIB de pífios 2% em 2001, menos da metade dos 4,5% previstos pelo governo em dezembro. É um cenário de taxa de desemprego em alta e salários estagnados. Em um quadro econômico desfavorável, uma notícia ruim puxa outra. A persistente alta das cotações do dólar – na semana passada, a moeda americana bateu novo recorde desde o lançamento do Plano Real, chegando a R$ 2,39 – e o salto no preço internacional do barril do petróleo, que voltou a beirar a casa dos US$ 30, prenunciam novo aumento no preço da gasolina.

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