Apagão político
Racionamento de energia elétrica, denúncias e nova
crise na base aliada escurecem o futuro político de FHC
Andrei
Meireles e Sônia Filgueiras
| Montagem
Sobre Foto de Leopoldo Silva |
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Tudo o que o presidente Fernando Henrique Cardoso sempre desejou
foi encerrar o segundo mandato como um exemplo de êxito na
política: fazer seu sucessor e entrar para a História.
FHC chegou a saborear esse sonho há dois meses, quando, depois
de um longo jejum, voltou a experimentar índices de popularidade
em ascensão. A economia brasileira mostrava capacidade de
absorver a crise argentina, o peso da retração econômica
americana ainda estava indefinido e o algoz mais incômodo
do presidente, o senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA),
entrava na berlinda por fraudar o sigilo da votação
que cassou o mandato do senador Luís Estevão (PMDB-DF).
Mas o deleite durou pouco. No front externo, a situação
econômica continua preocupante e no interno piorou sensivelmente
com a crise de energia que vai barrar o crescimento da economia
e causar desemprego. Essa reviravolta praticamente anula a expectativa
do tucanato de que as boas notícias econômicas compensariam
o desgaste da enxurrada de denúncias de corrupção
contra o governo e seus parceiros políticos. Um verdadeiro
apagão político está provocando o salve-se-quem-puder
na base governista. Para desespero de Fernando Henrique, os aliados
estão debandando para as candidaturas presidenciais do governador
de Minas Gerais, Itamar Franco (PMDB), e do ex-ministro Ciro Gomes
(PPS), dois viscerais adversários de FHC. Quem também
está acreditando que desta vez chega lá é o
petista Luiz Inácio Lula da Silva. Até o momento,
queríamos desgastar o governo. Agora temos que torcer para
ele não desabar de vez, tripudia o deputado petista
José Genoíno (SP).
| Helcio
Nagamine/B. Tchernobilsky/AP |
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Lula, Ciro Gomes e Itamar Franco: oposição monta estratégia
para aproveitar a maré negativa do governo |
O entusiasmo petista não causa maiores preocupações
no Palácio do Planalto. Lá, o temor é com o
fortalecimento político de Itamar e sua crescente penetração
na área empresarial, irritada com a barbeiragem administrativa
que gerou a crise do apagão. No domingo 20, as bases do PMDB
em todo o País elegeram as novas direções regionais
e manifestaram claramente a disposição de concorrer
com candidato próprio à Presidência da República.
A ala peemedebista que flerta com o ministro da Saúde, José
Serra (PSDB), perdeu terreno. Quem também pretende embarcar
na canoa de Itamar é ACM. Vou apoiar Itamar, mesmo
que ele não tenha pedido, anunciou o cacique baiano
na terça-feira 22. Apesar de completamente desgastado em
todo o País e com o reinado ameaçado na Bahia, Antônio
Carlos ainda tem um balaio de votos cobiçado por outros presidenciáveis.
O governador do Ceará, Tasso Jereissati (PSDB), é
um deles. Depois de trabalhar para que a convenção
nacional dos tucanos não votasse uma moção
pela cassação de ACM e do ex-correligionário
José Roberto Arruda, Tasso deu declarações
contra a punição do cacique baiano. Ele perdeu
as condições éticas de se candidatar pelo partido,
censurou o senador Antero Paes de Barros (PSDB-MT). Cria de Tasso,
Ciro Gomes também tratou de bajular o coronel baiano, de
maneira tão oportunista quanto seu padrinho político.
Chegou a afirmar que a fraude não seria motivo suficiente
para cassar ACM, aplicando uma rasteira no comando do seu partido,
empenhado em punir Antônio Carlos.
| Ricardo
Stuckert |
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Pedro Parente, poderoso ministro do Apagão, e José Jorge (à
dir.), o que é sem ser |
Ao mesmo tempo que a dispersão da base fortalece seus adversários
na disputa pela Presidência da República, os abalos
na economia tornam mais remota a hipótese de FHC levar às
eleições um candidato tucano forte. O racionamento
de energia vem obrigando o governo a anunciar uma sucessão
de más notícias, e do pior tipo, pois atingem diretamente
a população. Na última semana, o Planalto decidiu
editar uma medida provisória impedindo os brasileiros de
usar o Código de Defesa do Consumidor contra o tarifaço
e os cortes punitivos no fornecimento de energia (leia reportagem
a partir da pág. 40). A crise do apagão, junto com
a tendência de alta da inflação, também
fez o Banco Central subir pelo terceiro mês consecutivo a
taxa básica de juros da economia, que passou de 16,25% para
16,75% ao ano na última quarta-feira 23. Além do imediato
efeito de elevar o custo e o prazo dos empréstimos ao consumidor,
os juros mais altos têm o efeito de frear a economia. Técnicos
da equipe econômica já trabalham com uma taxa de crescimento
do PIB de pífios 2% em 2001, menos da metade dos 4,5% previstos
pelo governo em dezembro. É um cenário de taxa de
desemprego em alta e salários estagnados. Em um quadro econômico
desfavorável, uma notícia ruim puxa outra. A persistente
alta das cotações do dólar na semana
passada, a moeda americana bateu novo recorde desde o lançamento
do Plano Real, chegando a R$ 2,39 e o salto no preço
internacional do barril do petróleo, que voltou a beirar
a casa dos US$ 30, prenunciam novo aumento no preço da gasolina.
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