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 ARTES & ESPETÁCULOS 30/05/2001
Música II

Pop-besteira
Kid Abelha frustra com o álbum Surf

 Ouça trecho do CD Surf
Eu contra a noite

Apoenan Rodrigues

Divulgação
Kid Abelha: letras bobas e receita mal testada

Fabricante de hits deliciosos, o Kid Abelha – mestre no estilo pop-chiclete que o consagrou – fez no ano passado um dos melhores shows já realizados na sua carreira vitoriosa. Era um desfile tão saboroso de canções consagradas pela banda que se tornava quase impossível ver alguém saindo do espetáculo sem esboçar um sorriso. A catarse de alegria mais uma vez ajudou a provar que, mesmo para Paula Toller (vocal), Bruno Fortunato (guitarras) e George Israel (sopros, violões), não se deve desrespeitar a repisada máxima de não mexer em time que está ganhando. Mas eles tentaram. Em 1998 gravaram Autolove, um disco orientado por texturas musicais de apelo menos radiofônico. Não funcionou nas vendas nem no palco, conforme constatação dos próprios integrantes do Kid. Tanto que, por uma questão de mercado ou de contrato com a antiga gravadora, em 2000 lançaram Coleção, misturando sobras e canções gravadas pela banda em discos-tributos. Todas naquele clima superpop. Foi nesta linha de empatia imediata que a banda quis fazer Surf, seu álbum mais recente. Mas infelizmente as intenções desmoronaram.

Com a intenção de produzir um disco principalmente para efeito de show, o grupo se perdeu numa ansiada busca pela mistura de tudo o que de bem-sucedido já foi feito pela trupe. Ou seja, o que deveria ter novo sabor resultou numa receita mal testada. Um desperdício para as guitarras de Fortunato – um dos poucos músicos tupiniquins que sabem aplicar certo tempero roqueiro no molho pop –, para os violões de Israel e seus sopros, desta vez com destaque mais tímido ao longo das 11 faixas, e para o vocal aveludado de Paula. Há tempos também não se ouvia da boca da cantora letras tão bobas. Letrista oficial do grupo, a impressão é que ela foi rabiscando uma sequência de bobagens sem nenhum critério. Na comparação com Autolove, Surf perde em tudo. Até mesmo na concepção do encarte. Como canção salvam-se a ginga pop da abertura, Eu contra a noite, e a balada romântica Eu não esqueço nada. Isto é, se o ouvinte conseguir desprezar as besteiras poéticas imaginadas por Paula Toller.

 

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