| ARTES
& ESPETÁCULOS |
30/05/2001 |
Arte
Fora
de escala
Mostra
comemorativa dos 50 anos da Bienal de São Paulo lembra seu passado
glorioso e aposta nas novidades
Veja
fotos da Bienal |
|
Fotos da Bienal |
|
Ivan
Claudio
|
Rômulo
Fialdini/Acervo do MAC
|
 |
|
Plano
em superfícies moduladas nº 2, de Lygia Clark: abstracionismo
|
Criador da Bienal de São Paulo num momento em que a arte
brasileira, a contragosto dos acadêmicos, se deixava influenciar
pelo abstracionismo em voga na Europa e Estados Unidos, o empresário
e mecenas paulistano Francisco Matarazzo Sobrinho, o Ciccillo (1898-1977),
era pródigo em frases cunhadas à altura de sua ousadia
e determinação. Não olho para trás,
só penso no futuro e sei que ele é certo, dizia.
Afinados com suas idéias arrojadas, os curadores da mostra
Bienal 50 anos uma homenagem a Ciccillo Matarazzo,
em cartaz até o dia 29 de julho, no Pavilhão da Bienal,
em São Paulo, resolveram marcar o meio século de existência
do evento com uma exposição que olha firme para a
frente. Embora o passado glorioso de 24 edições esteja
bem representado no núcleo histórico que reúne
50 obras premiadas em bienais anteriores, entre elas Unidade
tripartida, do suíço Max Bill, melhor escultura
estrangeira na primeira bienal, de 1951 , a grande fatia dos
cinco mil metros quadrados do terceiro andar do Pavilhão
da Bienal, no Parque do Ibirapuera, foi ocupada pelas gigantescas
instalações e fotos do segmento contemporâneo.
Mesmo porque, na busca do impacto calculado os artistas adeptos
das novas linguagens parecem não se preocupar muito com a
economia de espaço.
| Rômulo
Fialdini/Acervo do MAC |
 |
|
Unidade
tripartida, de Max Bill: marco do núcleo histórico
|
Poética urbana Em todo caso, o gigantismo
dos trabalhos faz sentido já que o tema escolhido sob o título
Rede de tensões é a megalópole. Tema,
aliás, da 25ª Bienal, que deveria acontecer este ano
e foi adiada para 2002. Para refletir a realidade das grandes cidades,
três curadorias diferentes convidaram artistas, designers
e arquitetos, selecionando 34 projetos. Daniela Bousso, que divide
a curadoria de artes visuais com Maria Alice Milliet, explica que
a temática não poderia ser mais apropriada. Ciccillo
era um homem de prospecção e nesta homenagem queremos
pensar os rumos da contemporaneidade, abrir espaço para a
nova visualidade que o começo do milênio vai propor.
Esta poética urbana encontra sua melhor tradução
nas obras ambientais, através das quais se tenta superar
os antigos suportes da tela, do desenho e da escultura pelo uso
da fotografia e do vídeo, ou mesmo de materiais e objetos
vindos da própria realidade.
| Max
G Pinto |
 |
|
Trilhos
urbanos: impacto de 20 toneladas e 36 metros de comprimento
|
Como já virou lugar-comum nas grandes mostras do gênero,
as instalações dominam o núcleo contemporâneo.
Chama a atenção, por exemplo, o trabalho Trilhos
urbanos, dos arquitetos paulistanos José Francisco Magalhães
e José Magalhães Jr., um trecho de 36 metros de estrada-de-ferro,
pesando cerca de 20 toneladas, que termina num arco em direção
ao teto do pavilhão. Mais adiante, 1+1 (taxidermia e outdoor),
do paulista Lucas Bambozzi, causa surpresa com um táxi branco,
posicionado diante de uma parede de arestas também brancas,
que simula um outdoor de placas móveis. Quem entra no carro
assiste no retrovisor depoimentos de taxistas falando de situações
reais e constrangedoras provocadas por passageiros. No outdoor virtual,
de um lado são projetadas cenas documentais de travestis
se masturbando ou pivetes fumando crack; do outro, ambientes públicos
como uma garagem de edifício e uma sala de espera de aeroporto.
Conforme o ponto de observação, as duas imagens se
fundem. São situações privadas que causam
estranhamento por estarem acontecendo em lugares públicos,
explica Bambozzi.
Além do táxi e dos trilhos de trem, a exposição
ainda exibe uma parede de 24 metros, feita de placas de aço,
que imita a fachada espelhada de um prédio. Sua autora, a
mineira Ana Tavares, imprimiu nelas palavras que prometem amortecimento
ou enlevo como lexotan, sundown e sunrise. Chamou o belo trabalho
de Cityscape. É uma parede-poema, uma miragem
feita de termos que colocam as pessoas em estado sedado, comenta
Ana. Numa proposta mais cifrada, a paulista Lina Kim criou uma sala
branca decorada com pequenos círculos de espelho e quatro
grandes lustres de cristal, fazendo as guirlandas de contas brilhantes
escoarem pelos ralos distribuídos no chão.
Equilíbrio Dosando figuras conhecidas como
o fotógrafo Miguel Rio Branco e o videomaker Éder
Santos a outras em ascensão no cenário artístico,
o segmento contemporâneo se revela equilibrado. Bem selecionado
também é o núcleo histórico, que mostra
momentos importantes do abstracionismo informal e geométrico,
entre eles Plano em superfícies moduladas nº 2,
de Lygia Clark, premiada na Bienal de 1957. Mas o impacto sofrido
por quem entra na sala climatizada, depois de ver dezenas de instalações,
não é causado apenas pela diferença de temperatura.
Propostas revolucionárias como as obras cinéticas
Grande móbile branco, do americano Alexander Calder,
e Vibração, do venezuelano Jesus Soto, hoje
parecem contidas. Além da importância do evento, a
exposição comemorativa dos 50 anos da Bienal mostra,
não se sabe se para o bem ou para o mal, que a escala da
arte definitivamente mudou. 
|