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 ENTREVISTA
30/05/2001

Racionar é um erro - Continuação

Carlos Drummond e Mário Simas Filho

ISTOÉ – Então, por que o Paraná investiu e o Brasil, não?
Lerner – Investimos porque achamos que era estratégico.

ISTOÉ – E não era estratégico para o Brasil?
Lerner – O Paraná se endividava para produzir energia e a repassava para São Paulo, pois na época não tínhamos a industrialização. Então, quando se falava em guerra fiscal, a nossa guerra fiscal era infra-estrutura, eram as grandes empresas saberem que nunca teriam problema de energia no Paraná. E é claro que essas grandes empresas que estão no Paraná hoje consideraram isso. E fizemos tudo isso sem colocar muito dinheiro. A Copel, há quatro anos, é minoritária nos grandes investimentos. O último grande investimento que ela fez foi a usina de Caxias, com mil megawatts.

ISTOÉ – E, hoje, como são feitos os investimentos com a Copel?
Lerner – Hoje, a Copel talvez seja o grupo mais qualificado na área de energia e entra com seu know-how e um pouco de investimento. Ela sempre pilota o investimento com 20%, dificilmente ultrapassa isso. O sucesso está na capacidade de regular as questões estratégicas. O importante é ter essa condição.

ISTOÉ – Parece que a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) não atrapalha o Paraná, mas atrapalha outros Estados.
Lerner
– A Aneel funciona em relação ao Paraná como funciona com os outros Estados. É um problema de cada Estado resolver seus próprios problemas. Não é a Aneel que tem prejudicado, nem tampouco tirado a criatividade dos governantes. A Aneel não coloca obstáculos para quem quiser investir. A crítica que havia se dava em relação ao acúmulo de burocracia para quem quisesse colocar dinheiro no País, mas isso já está resolvido. Só no Paraná licitaremos três usinas dentro de duas semanas. E isso é verdadeiro para o País inteiro. O que tem havido é resistência por parte de alguns agentes financeiros, pois o Brasil ainda carrega o estigma de País caloteiro, criado com a moratória unilateral do Sarney. Os investidores não têm culpa disso. Mas o certo é que lá fora existem recursos abundantes e baratos.

ISTOÉ – O sr. tem problemas políticos no Paraná: por exemplo, com a vice-governadora, mulher do prefeito cassado de Londrina. Como está sua imagem com isso?
Lerner – Todos os governos que fizeram o ajuste fiscal passam por um grande desgaste. Sou a favor da Lei de Responsabilidade Fiscal, mas é preciso saber que o governo não começa no ano zero. Não posso atender muitas demandas e a oposição capitaliza isso.

ISTOÉ – Como o sr. está se sentindo no PFL?
Lerner – O PFL tem excelentes quadros, mas parece um envelope velho, amarelado. Está antigo. O seu discurso precisa estar mais próximo da população. O partido precisa se atualizar e começar a ver o País com os olhos do povo, o que implica mudanças de discurso, de propostas e de compromissos. O PFL precisa deixar de ser adoçante de governos e ter seu próprio discurso. A época do acerto da dívida já passou. A estabilidade do real foi importante, mas agora é preciso avançar. Chegou a hora de se preocupar com os problemas das pessoas. Então, o partido terá que avançar. Não basta ser a favor ou contra a política econômica do governo.

ISTOÉ – Chegou a hora de o partido ter candidato próprio à Presidência?
Lerner
– Acho que o partido tem tudo para querer isso.

ISTOÉ – O sr. seria esse candidato?
Lerner – Nem colocaria isso, é uma questão do partido. Apenas sinto que é o momento de avançar. Criamos uma geração que se especializou em denúncia. Agora temos que ir para a frente.

ISTOÉ – Como o sr. vê a situação do senador Antônio Carlos Magalhães?
Lerner
– Não vivo o dia-a-dia do Senado. Mas acho que o caminho dele é o de tentar dar a resposta pelo voto na Bahia.

ISTOÉ – O sr. acredita que ele vá renunciar?
Lerner – Acho que esse é o caminho. E o partido já metabolizou isso. 

 

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