EDIÇÃO Nº 1652
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 ENTREVISTA
30/05/2001
continua...

Racionar é um erro - Continuação

Carlos Drummond e Mário Simas Filho

ISTOÉ – Redirecionar fluxos e mudar hábitos implica tempo. O Brasil tem tempo para enfrentar essa crise, sem radicalizar com apagões?
Lernar
– Essas coisas exigem vontade política. Mas são possíveis. Na época do choque do petróleo mostramos novos hábitos para a população e o resultado foi fantástico. Isso pode ser feito em menos de um mês. É perfeitamente possível estabelecer horários corridos em alguns setores.

ISTOÉ – Além do tempo, propostas como a troca da iluminação pública exigem investimentos. Há recursos para isso?
Lerner
– Existem financiamentos a juros baixos para isso e as contas de iluminação pública das prefeituras, que caem drasticamente. A prefeitura pode perfeitamente pagar esse financiamento com a economia feita na conta de luz do primeiro mês de adoção da medida.

ISTOÉ – Existe também um custo político com o apagão.
Lerner
– Esse é incalculável. E o pior é que não resolve o problema.

ISTOÉ – O conjunto de problemas atuais já está afetando a auto-estima do País...
Lerner
– E não dá mais para manter auto-estima só com a raquete do Guga e a seleção de futebol.

ISTOÉ – Nesse momento de crise de energia, o sr. defende a privatização da Copel. Quais as razões para isso?
Lerner – A crise existe porque tivemos poucos investimentos na área de energia. Cerca de R$ 10 bilhões foram investidos. Pode parecer muito, mas é insuficiente e mesmo assim só ocorreram de 1997 para cá, com as privatizações. Precisamos de mais investimentos e não temos como extrair esses recursos do setor público. O que vivemos hoje não pode ser lido apenas como uma questão de privatizar ou não. O Brasil precisa de energia e ponto.

ISTOÉ – Como a Copel tem feito a sua parte?
Lerner – A Copel é indutora de vários processos de geração de energia. Das 49 usinas termelétricas e a gás que o governo planejava criar, a única que está em construção é a que a Copel pilotou, em Araucária. É uma parceria com a americana El Paso (60%), a Petrobras (20%) e a Copel (20%). Ao todo, a Copel estará produzindo 6,5 mil megawatts. Se o acordo para transformar o gás que estamos trazendo da Argentina em energia for concretizado, poderemos chegar a 10 mil megawatts. Isso é quase o dobro do que o Brasil produz no momento.

ISTOÉ – E essa geração se concretiza a curto prazo?
Lerner – A curto prazo nós tínhamos a possibilidade do gás. Isso não aconteceu porque não se resolveu o problema do risco cambial.

ISTOÉ – Por que não se resolveu?
Lerner – Nós, no Paraná, encontramos a solução. Isso significa que o Brasil também poderia ter resolvido o problema. Estou me referindo a este momento crítico, este ano e o próximo. Porque, em um prazo de quatro ou cinco anos, só o Paraná vai produzir o equivalente a 15% ou 20% da produção nacional.

ISTOÉ – Como o Paraná resolveu o problema do risco cambial, indispensável para atrair termelétricas?
Lerner
– O problema do risco cambial é que todos os insumos são pagos em dólar, a começar pelo capital. Montamos uma equação que fixou uma banda. Foi uma alternativa engenhosa. Criamos uma sociedade de propósito especial e fizemos uma fórmula que corrige anualmente o preço de todos os insumos em reais, pela variação do IGPM. Como o dólar se comporta a maior parte do tempo dentro dessa banda, o risco cambial é muito pequeno. Quando existe uma maxidesvalorização, o risco dela é compartilhado. Uma parcela fica com o investidor e outra com o comprador. Como ao longo de 20 anos isso se dilui, a fórmula foi aceita por todos.

ISTOÉ – Essa fórmula não foi apresentada ao governo federal para que novos investimentos fossem feitos no setor?
Lerner
– Não houve nenhuma consulta ao governo do Paraná. Tivemos oportunidade de apresentar essa solução em algumas reuniões técnicas, mas não temos conhecimento de que algo parecido tenha sido adotado em outros projetos.

ISTOÉ – O que o sr. acha de o presidente da República se mostrar surpreso com a situação? O sr. estaria surpreso no lugar dele?
Lerner
– A área técnica tem se reunido. Os técnicos têm reuniões trimestrais. O ex-ministro Rodolfo Tourinho não só conhecia o problema como o anunciou. Os jornais alardeavam isso há pelo menos três anos. Temos no sistema hidrelétrico um colchão de reserva, e calculamos a probabilidade de ter um descompasso significativo entre a oferta e a demanda em qualquer ponto do sistema. Quando essa probabilidade é maior do que 10%, acendem-se luzes vermelhas no sistema. Sabemos que esse limite é bastante confortável. A demanda vinha crescendo bastante e chegamos a trabalhar com até 16% de risco de termos uma diferença maior. Isso, desde 1999. Sabemos há tempo que estamos invadindo o colchão de segurança. Isso é público.


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