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Continuação
Carlos
Drummond e Mário
Simas Filho
ISTOÉ Redirecionar fluxos e mudar hábitos
implica tempo. O Brasil tem tempo para enfrentar essa crise, sem
radicalizar com apagões?
Lernar Essas coisas exigem vontade política.
Mas são possíveis. Na época do choque do petróleo
mostramos novos hábitos para a população e
o resultado foi fantástico. Isso pode ser feito em menos
de um mês. É perfeitamente possível estabelecer
horários corridos em alguns setores.
ISTOÉ Além do tempo, propostas como
a troca da iluminação pública exigem investimentos.
Há recursos para isso?
Lerner Existem financiamentos a juros baixos para
isso e as contas de iluminação pública das
prefeituras, que caem drasticamente. A prefeitura pode perfeitamente
pagar esse financiamento com a economia feita na conta de luz do
primeiro mês de adoção da medida.
ISTOÉ Existe também um custo político
com o apagão.
Lerner Esse é incalculável. E o pior
é que não resolve o problema.
ISTOÉ O conjunto de problemas atuais já
está afetando a auto-estima do País...
Lerner E não dá mais para manter auto-estima
só com a raquete do Guga e a seleção de futebol.
ISTOÉ Nesse momento de crise de energia, o
sr. defende a privatização da Copel. Quais as razões
para isso?
Lerner A crise existe porque tivemos poucos
investimentos na área de energia. Cerca de R$ 10 bilhões
foram investidos. Pode parecer muito, mas é insuficiente
e mesmo assim só ocorreram de 1997 para cá, com as
privatizações. Precisamos de mais investimentos e
não temos como extrair esses recursos do setor público.
O que vivemos hoje não pode ser lido apenas como uma questão
de privatizar ou não. O Brasil precisa de energia e ponto.
ISTOÉ Como a Copel tem feito a sua parte?
Lerner A Copel é indutora de vários
processos de geração de energia. Das 49 usinas termelétricas
e a gás que o governo planejava criar, a única que
está em construção é a que a Copel pilotou,
em Araucária. É uma parceria com a americana El Paso
(60%), a Petrobras (20%) e a Copel (20%). Ao todo, a Copel estará
produzindo 6,5 mil megawatts. Se o acordo para transformar o gás
que estamos trazendo da Argentina em energia for concretizado, poderemos
chegar a 10 mil megawatts. Isso é quase o dobro do que o
Brasil produz no momento.
ISTOÉ E essa geração se concretiza
a curto prazo?
Lerner A curto prazo nós tínhamos
a possibilidade do gás. Isso não aconteceu porque
não se resolveu o problema do risco cambial.
ISTOÉ Por que não se resolveu?
Lerner Nós, no Paraná, encontramos
a solução. Isso significa que o Brasil também
poderia ter resolvido o problema. Estou me referindo a este momento
crítico, este ano e o próximo. Porque, em um prazo
de quatro ou cinco anos, só o Paraná vai produzir
o equivalente a 15% ou 20% da produção nacional.
ISTOÉ Como o Paraná resolveu o problema
do risco cambial, indispensável para atrair termelétricas?
Lerner O problema do risco cambial é que todos
os insumos são pagos em dólar, a começar pelo
capital. Montamos uma equação que fixou uma banda.
Foi uma alternativa engenhosa. Criamos uma sociedade de propósito
especial e fizemos uma fórmula que corrige anualmente o preço
de todos os insumos em reais, pela variação do IGPM.
Como o dólar se comporta a maior parte do tempo dentro dessa
banda, o risco cambial é muito pequeno. Quando existe uma
maxidesvalorização, o risco dela é compartilhado.
Uma parcela fica com o investidor e outra com o comprador. Como
ao longo de 20 anos isso se dilui, a fórmula foi aceita por
todos.
ISTOÉ Essa fórmula não foi apresentada
ao governo federal para que novos investimentos fossem feitos no
setor?
Lerner Não houve nenhuma consulta ao governo
do Paraná. Tivemos oportunidade de apresentar essa solução
em algumas reuniões técnicas, mas não temos
conhecimento de que algo parecido tenha sido adotado em outros projetos.
ISTOÉ O que o sr. acha de o presidente da República
se mostrar surpreso com a situação? O sr. estaria
surpreso no lugar dele?
Lerner A área técnica tem se reunido.
Os técnicos têm reuniões trimestrais. O ex-ministro
Rodolfo Tourinho não só conhecia o problema como o
anunciou. Os jornais alardeavam isso há pelo menos três
anos. Temos no sistema hidrelétrico um colchão de
reserva, e calculamos a probabilidade de ter um descompasso significativo
entre a oferta e a demanda em qualquer ponto do sistema. Quando
essa probabilidade é maior do que 10%, acendem-se luzes vermelhas
no sistema. Sabemos que esse limite é bastante confortável.
A demanda vinha crescendo bastante e chegamos a trabalhar com até
16% de risco de termos uma diferença maior. Isso, desde 1999.
Sabemos há tempo que estamos invadindo o colchão de
segurança. Isso é público.
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