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Racionar
é um erro
Jaime
Lerner critica a estratégia do governo para economizar energia,
conta que FHC sabe da crise desde 1999 e ensina como atrair termelétricas
Carlos
Drummond e Mário
Simas Filho
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Ricardo
Giraldez
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Lerner: “Reduzimos o desperdício na iluminação pública e não
foi preciso apagar” |
O governador do Paraná, Jaime Lerner (PFL), não anda
nem um pouco animado com as medidas tomadas pelo governo para economizar
energia elétrica. Em entrevista concedida a ISTOÉ,
ele afirma que o presidente Fernando Henrique Cardoso teria maneiras
mais eficientes para fazer a economia necessária e critica
o uso do chicote contra os consumidores que não atingirem
suas metas. Economia se faz com racionalização,
e não com racionamento, diz Lerner, que rejeita a idéia
de que o presidente tenha sido pego de surpresa pela escassez de
energia e adverte para o fato de que desde 1999 o governo tinha
conhecimento de que estava operando bem acima da margem de segurança
do sistema elétrico. Apesar dos bons resultados da Companhia
Paranaense de Energia (Copel), ele procura justificar sua privatização
e conta a estratégia do Paraná para superar os riscos
cambiais e atrair investimentos privados para o setor energético.
Lamenta, no entanto, que a mesma estratégia não tenha
sido usada pelo governo federal.
Lerner é pefelista e mostra não ter papas na língua
quando o assunto é PFL. O partido tem bons quadros,
mas está velho, precisa se reciclar, se modernizar e deixar
de ser adoçante de governos, afirma. Leia, a seguir,
os principais trechos da entrevista:
ISTOÉ Como o sr. avalia o comportamento do
governo federal diante da grave crise de energia?
Jaime Lerner O governo está acenando
com uma série de punições para a população.
Isso não resolve e tem de ser corrigido. É preciso
criar uma situação de co-responsabilidade. Tudo o
que aprendi em 30 anos de vida pública é que, quando
as pessoas sabem qual é o resultado de suas atitudes, elas
ajudam a fazer acontecer. Para isso, é necessário
montar uma boa equação de co-responsabilidade.
ISTOÉ Mas o governo não faz isso ao
exigir que o setor público também economize?
Lerner Não. Está ameaçando com
supertarifas e cortes de luz. É muito difícil para
o País cortar as possibilidades da geração
de empregos. Não se pode chegar ao extremo do corte de energia.
O que é preciso fazer é encontrar saídas para
obter a economia necessária com racionalização,
e não com racionamento. Para isso, o governo precisa dizer
como economizar, e não anunciar a punição.
ISTOÉ Isso é possível?
Lerner Claro. Os dados indicam que 15% da
energia do Brasil corresponde a desperdício de todos os tipos.
Outra perda decorre de não poder usar a energia existente.
Esses são dois pontos fundamentais. Para corrigir isso é
preciso mudar hábitos, mudar rotinas.
ISTOÉ Como mudar esses hábitos?
Lerner Vinte anos atrás, tivemos
o problema da falta de combustível. Em Curitiba, organizamos
uma equação que fez a cidade economizar 25% de combustível.
Estabelecemos mudanças de costumes. Redirecionamos fluxos
e mudamos hábitos. Isso foi fundamental para que as pessoas
deixassem os carros em casa e passassem a fazer uso do transporte
coletivo.
ISTOÉ O sr. acredita que essa experiência
possa ser transportada para a atual crise de energia?
Lerner É a mesma coisa. Sabemos que a partir
de 2003, 2004 teremos geração de energia. O problema
crítico é agora. A população quer ajudar,
mas o governo precisa definir o jogo. No Paraná, estamos
fazendo economia há quatro anos, com medidas como tarifa
amarela, em que a concessionária faz um contrato com o consumidor,
estabelecendo qual o consumo dele, com preços diferenciados.
Há também a tarifa da madrugada, mais barata e muito
usada, pois a pessoa pode esquentar a água durante a noite
para garantir o banho quente pela manhã. Assim, a energia
é usada em um horário de baixo consumo e não
é necessário recorrer ao chuveiro elétrico,
que é perverso para o sistema. Na iluminação
pública, em 150 cidades já trocamos as lâmpadas
de vapor de mercúrio por vapor de sódio, que é
muito mais econômica. Reduzimos o desperdício na iluminação
pública de 17% para 6%. Então, não é
preciso apagar a luz para economizar. No governo do Estado temos
o horário corrido, o que resultou em uma economia de outros
17%.
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