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 ENTREVISTA
30/05/2001
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Racionar é um erro
Jaime Lerner critica a estratégia do governo para economizar energia, conta que FHC sabe da crise desde 1999 e ensina como atrair termelétricas

 
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Carlos Drummond e Mário Simas Filho

Ricardo Giraldez

Lerner: “Reduzimos o desperdício na iluminação pública e não foi preciso apagar”

O governador do Paraná, Jaime Lerner (PFL), não anda nem um pouco animado com as medidas tomadas pelo governo para economizar energia elétrica. Em entrevista concedida a ISTOÉ, ele afirma que o presidente Fernando Henrique Cardoso teria maneiras mais eficientes para fazer a economia necessária e critica o uso do chicote contra os consumidores que não atingirem suas metas. “Economia se faz com racionalização, e não com racionamento”, diz Lerner, que rejeita a idéia de que o presidente tenha sido pego de surpresa pela escassez de energia e adverte para o fato de que desde 1999 o governo tinha conhecimento de que estava operando bem acima da margem de segurança do sistema elétrico. Apesar dos bons resultados da Companhia Paranaense de Energia (Copel), ele procura justificar sua privatização e conta a estratégia do Paraná para superar os riscos cambiais e atrair investimentos privados para o setor energético. Lamenta, no entanto, que a mesma estratégia não tenha sido usada pelo governo federal.

Lerner é pefelista e mostra não ter papas na língua quando o assunto é PFL. “O partido tem bons quadros, mas está velho, precisa se reciclar, se modernizar e deixar de ser adoçante de governos”, afirma. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

ISTOÉ – Como o sr. avalia o comportamento do governo federal diante da grave crise de energia?
Jaime Lerner – O governo está acenando com uma série de punições para a população. Isso não resolve e tem de ser corrigido. É preciso criar uma situação de co-responsabilidade. Tudo o que aprendi em 30 anos de vida pública é que, quando as pessoas sabem qual é o resultado de suas atitudes, elas ajudam a fazer acontecer. Para isso, é necessário montar uma boa equação de co-responsabilidade.

ISTOÉ – Mas o governo não faz isso ao exigir que o setor público também economize?
Lerner
– Não. Está ameaçando com supertarifas e cortes de luz. É muito difícil para o País cortar as possibilidades da geração de empregos. Não se pode chegar ao extremo do corte de energia. O que é preciso fazer é encontrar saídas para obter a economia necessária com racionalização, e não com racionamento. Para isso, o governo precisa dizer como economizar, e não anunciar a punição.

ISTOÉ – Isso é possível?
Lerner – Claro. Os dados indicam que 15% da energia do Brasil corresponde a desperdício de todos os tipos. Outra perda decorre de não poder usar a energia existente. Esses são dois pontos fundamentais. Para corrigir isso é preciso mudar hábitos, mudar rotinas.

ISTOÉ – Como mudar esses hábitos?
Lerner – Vinte anos atrás, tivemos o problema da falta de combustível. Em Curitiba, organizamos uma equação que fez a cidade economizar 25% de combustível. Estabelecemos mudanças de costumes. Redirecionamos fluxos e mudamos hábitos. Isso foi fundamental para que as pessoas deixassem os carros em casa e passassem a fazer uso do transporte coletivo.

ISTOÉ – O sr. acredita que essa experiência possa ser transportada para a atual crise de energia?
Lerner
– É a mesma coisa. Sabemos que a partir de 2003, 2004 teremos geração de energia. O problema crítico é agora. A população quer ajudar, mas o governo precisa definir o jogo. No Paraná, estamos fazendo economia há quatro anos, com medidas como tarifa amarela, em que a concessionária faz um contrato com o consumidor, estabelecendo qual o consumo dele, com preços diferenciados. Há também a tarifa da madrugada, mais barata e muito usada, pois a pessoa pode esquentar a água durante a noite para garantir o banho quente pela manhã. Assim, a energia é usada em um horário de baixo consumo e não é necessário recorrer ao chuveiro elétrico, que é perverso para o sistema. Na iluminação pública, em 150 cidades já trocamos as lâmpadas de vapor de mercúrio por vapor de sódio, que é muito mais econômica. Reduzimos o desperdício na iluminação pública de 17% para 6%. Então, não é preciso apagar a luz para economizar. No governo do Estado temos o horário corrido, o que resultou em uma economia de outros 17%.

 

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