| ARTES
& ESPETÁCULOS |
23/05/2001 |
Livros
Vida
triste
Kadaré
retrata o caos da sociedade albanesa
Claudio
Camargo
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Sipa
press
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Kadaré:
fim do comunismo recuperou rituais de vingança
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O vento da liberdade que soprou sobre a Albânia, conhecido
como o país das águias, acabou trazendo
uma fria e dolorosa primavera. Esse é o fio condutor de As
frias flores de abril (Objetiva, 174 páginas, R$ 21,90),
mais recente romance do albanês Ismail Kadaré. No ano
2000, quase uma década depois de assistir ao colapso daquele
que foi o mais fechado dos regimes comunistas da Europa, a Albânia
se vê mergulhada no caos e na desilusão. Tal frustração
desenterra nostalgias temerárias. Ele também
estava cheio de rancor, profundamente desiludido: o país
gangrenava, descreve um personagem. A degeneração
se espalhava por toda parte. A bravura e o sentido de honra, que
achou que recuperariam depois da queda do comunismo, não
paravam de perder terreno. A única esperança residia
na ressurreição dos antigos costumes.
E a mais terrível dessas tradições ancestrais
é o Kanun (Cânon), versão albanesa da
vendetta. Trata-se de um código de leis e rituais
de sangue que volta a se manifestar depois de meio século
de esquecimento, como uma serpente que desperta após uma
longa hibernação. Assim como uma antiga e terrível
lenda albanesa que contava a história de uma jovem que foi
obrigada a se casar com uma serpente para pagar os pecados de sua
família. Esta temática já estava presente em
Abril despedaçado (1982), que acaba de ser filmado
por Walter Salles. Repleto de metáforas e referências
mitológicas, o novo livro é uma narrativa precisa
e refinada que descreve a parte submersa de um iceberg
a própria condição humana. 
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