EDIÇÃO Nº 1649
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 COMPORTAMENTO 09/05/2001
CAPA continua...

Um budismo de resultados
A filosofia oriental que une pragmatismo e espiritualidade cresce no Ocidente e ganha cada vez mais adeptos no Brasil

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Eliane Lobato
Carlos Magno
O monge Vipassi ora com membros do Templo Rio de Janeiro: “A concentração é a chave para alcançar a paz”

Se Dalai Lama, o maior líder espiritual budista, repetisse a visita que fez em 1999 ao Brasil, seria preciso reservar o Maracanã, um dos maiores estádios de futebol do mundo, para congregar seus seguidores. Surgido no século VI a.C. na Índia, o budismo entra no século XXI como uma influência espantosa no Ocidente. No Brasil, seus mantras, incensos e fundamentos, que nada têm a ver com as religiões de massa, enchem de adeptos os templos e cursos de meditação. Em 1991 o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registrava 236.403 praticantes. Hoje só a Associação Brasil Soka Gakkai, uma das várias linhagens, contabiliza 150 mil. Outros sinais compensam a falta de dados exatos sobre o crescimento do número de praticantes. O Lha Khang, o maior templo budista da América Latina e o primeiro do Brasil, construído há três anos no Rio Grande do Sul, recebe em média 400 visitantes estrangeiros por mês. No mercado editorial, há uma explosão de livros sobre o tema: mais de meio milhão de exemplares vendidos nos últimos seis meses. O carro-chefe é A arte da felicidade, do próprio Dalai Lama, que bateu a marca de 180 mil em dois meses.

A sedução dos ensinamentos destes monges orientais é ampliada pela adesão crescente de artistas e famosos mundo afora. A lista é comprida. O ator Richard Gere, o músico Jean Michael Jarre e a cantora Tina Turner têm pares brasileiros, convertidos ou simpatizantes, como Cláudia Raia, Edson Celulari, Betty Faria, Elba Ramalho, Rita Lee, Gilberto Gil, Christiane Torloni, Sílvia Pfeifer, Maurício Mattar, Odete Lara, Milene Domingues, Patrícia Travassos, Paulo Ricardo e o ex-governador do Espírito Santo Vítor Buaiz, só para citar alguns. No discurso de todos eles, o ponto comum é a busca da serenidade.

Carlos Magno
Chamma dá cursos em empresas

Bom senso – Essas pregações de compaixão, amor, paz e equilíbrio tão diferentes das leis da competição de nossa época tornam o sucesso do budismo no mundo capitalista ainda mais enigmático. Lia Diskin, uma das fundadoras do Instituto Palas Athena, em São Paulo, atribui ao “budismo do bom senso” a ampliação da religião em países como o Brasil. “O que está provocando engajamento tão grande é o compromisso com as necessidades do ser humano no dia-a-dia”, diz. O sociólogo francês Fredéric Lenoir, estudioso das religiões, costuma dizer que o budismo é moderno porque une pragmatismo e espiritualidade e trata temas de nossa época de forma tolerante. Eleonora Furtado, fundadora do Instituto Nyingma, com sede no Rio de Janeiro, acentua o caráter de auto-ajuda da filosofia: “No budismo, você aprende a se ajudar.”

Há divergências, no entanto, na classificação do budismo. Seria seita, religião ou filosofia? Lia não concorda com nenhuma das alternativas. “É um modo de viver, de pensar.” De fato, não há deuses a quem pedir perdão ou fazer pedidos e não é necessário frequentar templos ou reuniões – o que facilita a vida dos moradores dos grandes centros urbanos. As meditações podem ser feitas em qualquer lugar: “Por que não aproveitar o engarrafamento do trânsito?”, sugere Lia. O teólogo Frei Betto diz que o budismo parece mais “cômodo” por não exigir hierarquias nem defender a idéia de céu e inferno. Mas, lembra ele, engana-se quem pensa ser fácil chegar às instâncias mentais pregadas pelos mestres. “Pelo contrário, exige disciplina ascética rigorosíssima e desprendimento de si e do mundo.”

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