EDIÇÃO Nº 1649
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 ARTES & ESPETÁCULOS 09/05/2001
Livros I

Mãe gentil
Autor pinta um Brasil de pesadelo em 2045

 Leia trecho do livro Admrável Brasil Novo
Dois turbocópteros piratas colidiram e caíram no mar

Luiza Pastor

Divulgação
Tapioca: rindo e fazendo rir da própria desgraça

Prever o futuro é um desafio recorrente na literatura e já resultou em obras tão diferentes entre si como Viagem à lua, de Júlio Verne, e Eu, robô, de Isaac Asimov. Em ambas, porém, o tema básico é o avanço tecnológico e os conflitos a ele inerentes. Já não é o caso de Aldous Huxley e George Orwell, que optaram por deixar as engenhocas futuristas como meros complementos. Vale ressaltar que, tanto em Huxley como em Orwell, a perspectiva do homem no futuro é das mais pessimistas, com a tecnologia aliando-se ao totalitarismo para controlar cada passo do cidadão. É por este caminho que o escritor baiano Ruy Tapioca envereda em seu livro Admirável Brasil novo (Rocco, 284 págs., R$ 26.). A louvável diferença é que Tapioca ri e faz rir da própria desgraça.

A semelhança com o título apocalíptico de Huxley não é mero acaso. O Brasil projetado por Tapioca para o ano 2045 é um enorme pesadelo, que repete, nos menores detalhes, os vícios e defeitos que corroem o País desde que por aqui aportaram os primeiros colonizadores. O controle da sociedade tenta ser absoluto, mas não o consegue, por conta da atávica mania nacional de sempre dar um jeitinho de burlar a lei. A ecologia já foi completamente desmoralizada por décadas de má aplicação de suas interpretações e o resultado pode ser visto (e cheirado) na Baía de Guanabara. Lá, os dejetos fazem do mar uma cloaca a céu aberto, que obriga os que circulam pela orla marítima a usar máscaras anti-gases nas horas de maré alta.

Com linguagem virulenta e sem poupar ninguém – em especial um certo presidente que um dia pediu para esquecerem o que ele escrevera antes de ser eleito –, o Brasil de Tapioca é uma terra onde o desemprego grassa e o trabalho foi definitivamente considerado um inimigo da produtividade, empecilho incômodo eliminado sem pruridos morais, em nome da globalização. O futebol, há muito decadente, deixa a pátria chorar pelas chuteiras desmoralizadas, enquanto os cartolas tentam recuperar o prestígio político do outrora esporte nacional. Na prática, o que o autor de A república dos bugres faz é reproduzir com riqueza de detalhes e primor literário todas as safadezas que o universo político perpetra e perpetua no cotidiano. Além de, claro, recriar com sádico e incontido prazer os piores vaticínios nascidos das mais engajadas mesas de botequim da inteligência carioca. Coisa para se ler acompanhado de um chope estupidamente gelado.

 

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