| ARTES
& ESPETÁCULOS |
09/05/2001 |
Livros
I
Mãe
gentil
Autor
pinta um Brasil de pesadelo em 2045
Luiza Pastor
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Divulgação
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Tapioca:
rindo e fazendo rir da própria desgraça
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Prever o futuro é um desafio recorrente na literatura e
já resultou em obras tão diferentes entre si como
Viagem à lua, de Júlio Verne, e Eu, robô,
de Isaac Asimov. Em ambas, porém, o tema básico é
o avanço tecnológico e os conflitos a ele inerentes.
Já não é o caso de Aldous Huxley e George Orwell,
que optaram por deixar as engenhocas futuristas como meros complementos.
Vale ressaltar que, tanto em Huxley como em Orwell, a perspectiva
do homem no futuro é das mais pessimistas, com a tecnologia
aliando-se ao totalitarismo para controlar cada passo do cidadão.
É por este caminho que o escritor baiano Ruy Tapioca envereda
em seu livro Admirável Brasil novo (Rocco, 284 págs.,
R$ 26.). A louvável diferença é que Tapioca
ri e faz rir da própria desgraça.
A semelhança com o título apocalíptico de
Huxley não é mero acaso. O Brasil projetado por Tapioca
para o ano 2045 é um enorme pesadelo, que repete, nos menores
detalhes, os vícios e defeitos que corroem o País
desde que por aqui aportaram os primeiros colonizadores. O controle
da sociedade tenta ser absoluto, mas não o consegue, por
conta da atávica mania nacional de sempre dar um jeitinho
de burlar a lei. A ecologia já foi completamente desmoralizada
por décadas de má aplicação de suas
interpretações e o resultado pode ser visto (e cheirado)
na Baía de Guanabara. Lá, os dejetos fazem do mar
uma cloaca a céu aberto, que obriga os que circulam pela
orla marítima a usar máscaras anti-gases nas horas
de maré alta.
Com linguagem virulenta e sem poupar ninguém em
especial um certo presidente que um dia pediu para esquecerem o
que ele escrevera antes de ser eleito , o Brasil de Tapioca
é uma terra onde o desemprego grassa e o trabalho foi definitivamente
considerado um inimigo da produtividade, empecilho incômodo
eliminado sem pruridos morais, em nome da globalização.
O futebol, há muito decadente, deixa a pátria chorar
pelas chuteiras desmoralizadas, enquanto os cartolas tentam recuperar
o prestígio político do outrora esporte nacional.
Na prática, o que o autor de A república dos bugres
faz é reproduzir com riqueza de detalhes e primor literário
todas as safadezas que o universo político perpetra e perpetua
no cotidiano. Além de, claro, recriar com sádico e
incontido prazer os piores vaticínios nascidos das mais engajadas
mesas de botequim da inteligência carioca. Coisa para se ler
acompanhado de um chope estupidamente gelado.
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