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‘‘O
povo já paga’’
O
educador Mario Sergio Cortella critica a idéia de se cobrar
mensalidade em universidades públicas e defende a reserva
de cotas no mercado de trabalho
Eduardo
Marini e Luciana Ackermann
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Hélcio
Nagamine
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"Qualidade para poucos é privilégio" |
Mario Sergio Cortella é um daqueles profissionais sempre
dispostos a apresentar uma versão resumida do currículo,
para facilitar os trabalhos. Ex-secretário municipal de Educação
de São Paulo na gestão de Luíza Erundina, autor
de uma dezena de livros, apresentador do programa Modernidade,
na TV Senac, colunista de jornais e revistas e diretor de pós-graduação
em educação da PUC-SP, ele seria capaz de trocar a
extensa lista de condecorações intelectuais por uma
única frase, dita por seu mestre maior, o professor Paulo
Freire: Cortella é um dos raros filósofos da
educação que pensam o novo. Definição
precisa para este educador paranaense de 46 anos que usa todas as
suas forças na busca de idéias e ações
para ajudar a manter de pé o sistema educacional brasileiro.
Um exemplo de seu arrojo foi o lançamento dos polêmicos
ciclos na rede municipal de Educação de São
Paulo, em 1992. O sistema ainda substitui, na cidade, a repetência
tradicional por avaliações e projetos de recuperação
dos alunos. Recentemente, foi obrigado a ficar 14 dias no estaleiro
para tratar de um problema congênito no coração.
Gosto de hospital porque é possível ficar quieto
com os livros. É pouco provável que tenha mantido
a boca fechada, como afirma. Para esta entrevista a ISTOÉ,
Cortella, o primeiro nome a ser lembrado por Marta Suplicy para
ocupar a Pasta da Educação na capital paulista, falou
por três horas e 15 minutos. Condenou a sugestão do
FMI de cobrar mensalidade nas universidades públicas, defendeu
o sistema de cotas para o mercado de trabalho e aprovou a decisão
do ministro da Educação, Paulo Renato Souza, de expandir
o Projeto Bolsa-Escola para todo o País. Uma boa idéia
deve ser usada por todos.
ISTOÉ O sr. é a favor de que a universidade
pública seja paga, como sugeriu o FMI?
Mario Sergio Cortella Não, discordo
da tese. O pobre continuará sem acesso ao ensino público
superior. A solução passa pelo aumento do número
de vagas nas universidades públicas, pelo combate à
sonegação, pelas reformas para aumentar a arrecadação
e, finalmente, pelo aumento do porcentual do PIB gasto em educação.
O argumento do FMI é o de que o dinheiro seria investido
no ensino fundamental. Ora, os brasileiros, ricos e pobres, pagam
imposto suficiente para isso. Na verdade, o povo já paga.
É preciso escolher corretamente as prioridades para investir.
O governo destina 4% do PIB, taxa equivalente à de muitos
países desenvolvidos. Só que esses países não
possuem 43 milhões de analfabetos nem ficaram tanto tempo
sem programas pesados de injeção de recursos na educação,
como ocorreu no Brasil. Todo mundo sabe que não é
necessário acelerar muito um carro a 80 km/h para que ele
mantenha essa velocidade sem gastar muito combustível. Mas,
no início, é preciso pisar firme. Deveríamos
estar gastando pelo menos 8% do PIB na área. O governo não
poderia colocar tanto imediatamente, mas defendo a participação
da iniciativa privada neste bolo voltado para o ensino público,
com programas eficazes e as reformas tributária e fiscal.
Meses atrás, um grande empresário me perguntou, numa
palestra, o que ele deveria fazer, em primeiro lugar, para ajudar
a educação. Respondi: Pague 100% do imposto
devido. Se o senhor já faz isso, incentive seus colegas a
fazer o mesmo.
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