| ECONOMIA
& NEGÓCIOS |
02/05/2001 |
Argentina
Fazendo água - continuação
Luiz Antonio Cintra
Ao menos uma boa notícia o ministro argentino da Economia
teve para comemorar. Depois de vários dias de suspense, finalmente
saiu o resultado de uma investigação em torno de Pedro
Pou, que comandava o Banco Central do país. O relatório
da comissão parlamentar encarregada de investigá-lo
propôs o afastamento de Pou, acusado de favorecer um banqueiro
ligado ao ex-presidente Menem e também de facilitar operações
de lavagem de dinheiro. Em seu lugar, Cavallo conseguiu emplacar
Roque Maccarone, ex-presidente do Banco de la Nación
uma espécie de Banco do Brasil argentino , que também
foi seu colaborador durante a primeira passagem de Cavallo pelo
Ministério.
Apetite A troca animou os investidores, já
que Pou também divergia de Cavallo em relação
a várias medidas tomadas pelo ministro para tentar injetar
dinheiro no sistema financeiro. Maccarone já afirmou que
concorda com Cavallo neste ponto. Mas disse que tem algumas divergências.
A principal diz respeito ao projeto de atrelar o peso ao euro
e não apenas ao dólar, como é hoje. O
projeto é inoportuno, cravou Maccarone. O FMI também
demonstrou que está insatisfeito com Cavallo cobrou
do ministro novas medidas para acabar com a crise.
Para tentar aplacar o apetite dos investidores por dólares,
o BC brasileiro precisou voltar a agir. Anunciou a realização
de mais um leilão de títulos cambiais, em um valor
de US$ 400 milhões. Como esses títulos acompanham
a cotação do dólar, têm o efeito de reduzir
a procura pela moeda propriamente dita. O lado ruim é que
aumenta o endividamento do governo brasileiro em dólar. O
presidente do BC, Armínio Fraga, pediu calma aos investidores,
argumentando que o Brasil tem condições de enfrentar
as turbulências. Aproveitou para desmentir que o país
esteja negociando um empréstimo com o FMI. As linhas
do Fundo estão disponíveis, mas não estão
no nosso cardápio no momento, afirmou. 
| Barreiras
por todos os lados |
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Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa
| AFP |
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| Cúpula
de presidentes critíca as barreiras comerciais, mas barra
os manifestantes |
Na reunião da Cúpula das Américas em
Quebec, os governantes das Américas apenas formalizaram
o compromisso que já havia sido acertado por seus ministros
das Finanças em Buenos Aires iniciar a implantação
da Área de Livre Comércio das Américas
(Alca) até dezembro de 2005. Se bem que o presidente
da Venezuela, Hugo Chávez, tenha ressalvado que não
poderia impor prazos para a aprovação do acordo
pelo legislativo e, no caso da Venezuela, provavelmente
também por referendo popular.
Os fatos novos mais importantes foram os posicionamentos
do presidente Fernando Henrique e George W. Bush, colocando
suas cartas na mesa. O presidente do Brasil explicitou que
considera a Alca indesejável para nosso país
se os EUA não removerem suas barreiras protecionistas
não-tarifárias. E o presidente dos EUA declarou
que a defesa de padrões ambientais e trabalhistas não
deve restringir o livre comércio.
Essa não é a palavra final dos EUA sobre o
assunto, pois seu Congresso pode exigir que essas questões
sejam consideradas antes de conceder ao presidente um mandato
para negociar. Só confirma que Bush vai jogar todo
o seu peso contra os setores da sociedade civil que criticam
sua política comercial, parte dos quais demonstraram
sua oposição na cidade de Quebec.
Sessenta mil manifestantes participaram de uma marcha pacífica
pela cidade. Três a seis mil envolveram-se em batalhas
com a polícia e 450 foram presos. Algumas dezenas chegaram
mesmo a derrubar parte do muro da vergonha que
isolou o local onde se deram as reuniões. Não
chegaram a perturbá-las seriamente, mas atrasaram seu
cronograma em mais de uma hora, enquanto uma nuvem de gás
lacrimogêneo envolvia a cidade. Numa manifestação
paralela no Brasil, 600 estudantes e jovens anarquistas também
enfrentaram a polícia e depredaram uma lanchonete McDonalds.
Na América Latina, movimentos populares começam
a se articular para ampliar o debate e exigir que seus governos
realizem plebiscitos sobre a adesão à Alca em
cada país. Isso pode derrubar os muros entre as cúpulas
e os povos das Américas de uma forma mais eficaz que
a dos manifestantes de Quebec. Mas os obstáculos à
concretização da Alca não estão
só aí: os EUA não se mostram dispostos
a se comprometer com um socorro vultoso à Argentina,
cuja crise ameaça abalar as economias em toda a América
do Sul, onde a paixão pelo livre comércio esfria
junto com o desaquecimento da economia americana e o recuo
do liberalismo agora também no Peru, onde a
centro-esquerda de Alán García pode tomar o
lugar que foi de Fujimori.
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