| ECONOMIA
& NEGÓCIOS |
02/05/2001 |
Fazendo água
Crise argentina derruba a cotação do real e do peso
chileno e aumenta a desconfiança internacional em
relação a outros países emergentes
Luiz Antonio Cintra
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A crise argentina atingiu na semana passada seu ponto mais crítico
desde que o país precisou, em dezembro de 2000, recorrer
ao Fundo Monetário Internacional (FMI) para não quebrar.
O governo De la Rúa teve de cancelar um leilão de
títulos públicos que ocorreria na terça-feira
23 e serviria para tomar emprestados US$ 700 milhões de bancos
e fundos de pensão argentinos. Como os investidores pediram
taxas astronômicas para emprestar ao governo, o ministro Domingo
Cavallo não teve outra alternativa a não ser adiar
o leilão. Foi mais uma porta que se fechou para o governo,
que desde setembro de 2000 não consegue captar dinheiro no
Exterior por falta de credibilidade. O principal termômetro
da confiança internacional atingiu o fundo do poço
no dia seguinte ao do fracasso do leilão, e as taxas de juros,
mais uma vez, dispararam no mercado financeiro do país. Pareceu
iminente e inevitável a decretação
de uma moratória, com a suspensão do pagamento da
dívida externa a seus credores.
| Reuters |
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| De
la Rúa (esq.) e o novo presidente do BC, Maccarone |
Arrastados pela instabilidade argentina, outros países chamados
emergentes, entre eles o Brasil, sentiram o tranco. Por aqui, a
reação à crise acertou em cheio o mercado de
câmbio. O dólar comercial bateu seguidos recordes de
alta, com a moeda negociada por até R$ 2,30. A cotação
significa uma alta acumulada de 21% em seis meses, contra uma inflação
no período de cerca de 3%. O Chile também foi atingido
e a moeda local, o peso chileno, registrou sua cotação
mais baixa em relação ao dólar. Os títulos
emitidos pelos governos da Rússia e das Filipinas também
caíram no mercado internacional com a possibilidade de a
turbulência arrastar outras economias com alto grau de endividamento.
Nos próximos três meses, a Argentina terá
de pagar a seus credores aproximadamente US$ 6 bilhões, e
os últimos lances deixaram claro que não será
nada fácil descobrir de onde tirar todo esse dinheiro. Diante
desse quadro, a recessão que a Argentina enfrenta há
quase três anos tem pouquíssimas chances de terminar,
ao menos no curto prazo. Bem mais provável é a economia
se retrair ainda mais, consideram analistas e economistas.
Em artigo publicado no The Wall Street Journal, o economista
americano Charles Calomiris deu o tom: a Argentina não terá
outra opção senão renegociar sua dívida.
A reação de Cavallo veio em outro artigo, este publicado
no Financial Times dois dias depois. O verdadeiro problema
da Argentina não é sua dívida, escreveu
o ministro. Para ele, o país não precisará
desvalorizar o peso para sair da crise.
Renegociação Crítico contundente
do ministro, o economista e consultor argentino José Luis
Espert, colunista do jornal econômico argentino Ambito
Financiero, considera que Cavallo escolheu o remédio
errado. O caminho escolhido por Cavallo é típico
de governos irresponsáveis, que preferem não pagar
os custos políticos dos ajustes inevitáveis,
disse o economista a ISTOÉ. Para Espert, Cavallo deveria
se concentrar em cortar os gastos públicos. No curto
prazo, o problema da Argentina é fiscal. Por isso, a única
possibilidade de evitar o caos é reduzir o déficit
em US$ 15 bilhões, considera. Mesmo a renegociação
da dívida, que apareceu no final da semana passada como uma
luz no fim do túnel, poderá trazer resultados indesejados,
avalia Espert. O governo De la Rúa anunciou que negocia com
seus credores prazos maiores para pagar US$ 20 bilhões de
sua dívida, que hoje chega a US$ 204 bilhões. Se
os bancos credores concordarem com prazos maiores, eles exigirão
taxas altíssimas como contrapartida. O problema é
que Cavallo insiste na rota do endividamento, desde o início
do Plano de Conversibilidade, ainda no início dos anos 90,
e esse é um erro gigantesco. A saída passa pelo crescimento
econômico puxado pelas exportações, diz
o economista.
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