EDIÇÃO Nº 1644
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 ARTES & ESPETÁCULOS 04/04/2001
Livros continua...

Rebelde sem calça
Irreverente a ponto de fazer trocadilhos com ele mesmo, Cazuza é alvo de novo livro, desta vez trazendo sua obra completa, incluindo 65 letras inéditas

 Leia trecho do livro Cazuza, preciso dizer que te amo – todas as letras do poeta
Tenho um ego muito grande

Apoenan Rodrigues

Fotos: Flavio Colker

Cazuza estava amando. Exageradamente, e como sempre guiado pelo tipo de personalidade de quem quer urgência e intensidade na vida. Ele e seu objeto de paixão passavam uns dias na Fazenda Inglesa, em Petrópolis, de propriedade dos pais, junto com a cantora e compositora Bebel Gilberto – a recente musa cult dos americanos, filha do papa da bossa nova, João. Certa manhã, o roqueiro acorda a amiga e o namorado dela sacudindo um pedaço de papel dizendo ser o documento de um pacto de sangue feito entre ele e a pessoa amada. “Eles furaram o dedo, achei uma loucura”, lembra a cantora. Mas pouco tempo depois, ela e o baixista Dé, ex-integrante do Barão Vermelho, comporiam a melodia para uma letra de Cazuza que remetia diretamente ao episódio. A canção chama-se Mais feliz, foi gravada em 1986 pela própria Bebel Gilberto, mas acabou tornando-se mais conhecida na voz de Adriana Calcanhotto, no seu álbum Maritmo, de 1998. A história é uma das dezenas que colorem o livro Cazuza, preciso dizer que te amo – todas as letras do poeta (Editora Globo, 416 págs., R$ 39), uma seleção e pesquisa de Lucinha Araujo, com texto e edição da jornalista Regina Echeverria e colaboração do jornalista Mauro Ferreira. Cercada pela emoção que a data exige, a obra será lançada na quarta-feira 4, dia em que o melhor letrista do rock brasileiro completaria 43 anos se não tivesse sido derrotado pelo vírus da Aids, em 7 de julho de 1990.

Rogério Ehrlich/Nellie Solitrenick
Lucinha e Regina : a mãe-fã e perfeccionista em outro depoimento à jornalista

Com as garras de uma leonina, ao longo das últimas duas décadas Lucinha Araujo vem se dedicando a coletar todo e qualquer material relativo ao filho famoso, que perpetrou o primeiro poema aos 17 anos. “Sou muito perfeccionista”, disse Lucinha a ISTOÉ. “Conforme fui pesquisando, comecei a descobrir letras que eu não conhecia, como a de Sonho estranho, musicada e gravada por Nico Resende, e a de Fratura (não) exposta, gravada por Ney Matogrosso em 1985, que nem ele lembrava mais.” Ao todo, o trabalho da mãe-fã e dos jornalistas levantou um total de 205 letras, somando 65 inéditas e 13 musicadas e não gravadas. Destas, estão prestes a sair do forno Seda pura, que integrará o novo álbum de Simone, e Modernidade, faixa do disco de estréia do ótimo Lulo Scroback, revelação do equivocado espetáculo Cazas de Cazuza. Mas é entre os poemas musicados inéditos que se encontra uma das histórias mais divertidas cercando aquele que, de acordo com seu pai, João Araujo – executivo de uma grande gravadora –, se autodenominava “Rebelde sem calça”.

Chama-se Comprimidos a canção cuja letra nasceu de uma conversa tragicômica entre Cazuza e Rita Lee. A rainha do rock tupiniquim tinha ido visitar o poeta, já combalido pela doença. Sempre bem-humorados, os dois falaram de seus impulsos em apelar aos comprimidos químicos para resolver suas dores existenciais. Rita deu à letra um rock bem pesado. Dez anos depois, o destino da canção ainda parece estar reservado ao baú das memórias. “Apesar do mote da letra já não pertencer mais à minha atual “biografia”, acredito que esta música daria uma boa trilha sonora para os tomadores de Prozac e Viagra, dois remedinhos vendidos nas melhores farmácias do ramo como sendo as drogas da felicidade”, falou Rita a ISTOÉ. “Cazuza e (Renato) Russo, sem dúvida, foram os letristas mais representativos da geração 80”, continua a roqueira. “Sempre gostei do lado irônico e debochado de Cazuza, me dava a impressão que o ‘fundo do poço’ dele era uma festa constante. Mas quando botava a cabeça pra fora e espiava o mundo em volta, aí sim Cazuza se indignava de verdade e soltava os demônios.”

Leia mais nas próximas páginas:

O dono da pose

Rebeliões contra os vizinhos

 

 

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