| ARTES
& ESPETÁCULOS |
04/04/2001 |
Rebelde
sem calça
Irreverente
a ponto de fazer trocadilhos com ele mesmo, Cazuza é alvo de novo
livro, desta vez trazendo sua obra completa, incluindo 65 letras inéditas
Apoenan
Rodrigues
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Fotos:
Flavio Colker
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Cazuza estava amando. Exageradamente, e como sempre guiado pelo
tipo de personalidade de quem quer urgência e intensidade
na vida. Ele e seu objeto de paixão passavam uns dias na
Fazenda Inglesa, em Petrópolis, de propriedade dos pais,
junto com a cantora e compositora Bebel Gilberto a recente
musa cult dos americanos, filha do papa da bossa nova, João.
Certa manhã, o roqueiro acorda a amiga e o namorado dela
sacudindo um pedaço de papel dizendo ser o documento de um
pacto de sangue feito entre ele e a pessoa amada. Eles furaram
o dedo, achei uma loucura, lembra a cantora. Mas pouco tempo
depois, ela e o baixista Dé, ex-integrante do Barão
Vermelho, comporiam a melodia para uma letra de Cazuza que remetia
diretamente ao episódio. A canção chama-se
Mais feliz, foi gravada em 1986 pela própria Bebel
Gilberto, mas acabou tornando-se mais conhecida na voz de Adriana
Calcanhotto, no seu álbum Maritmo, de 1998. A história
é uma das dezenas que colorem o livro Cazuza, preciso
dizer que te amo todas as letras do poeta (Editora Globo,
416 págs., R$ 39), uma seleção e pesquisa de
Lucinha Araujo, com texto e edição da jornalista Regina
Echeverria e colaboração do jornalista Mauro Ferreira.
Cercada pela emoção que a data exige, a obra será
lançada na quarta-feira 4, dia em que o melhor letrista do
rock brasileiro completaria 43 anos se não tivesse sido derrotado
pelo vírus da Aids, em 7 de julho de 1990.
| Rogério
Ehrlich/Nellie Solitrenick |
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Lucinha
e Regina : a mãe-fã e perfeccionista em outro depoimento à
jornalista
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Com as garras de uma leonina, ao longo das últimas duas
décadas Lucinha Araujo vem se dedicando a coletar todo e
qualquer material relativo ao filho famoso, que perpetrou o primeiro
poema aos 17 anos. Sou muito perfeccionista, disse Lucinha
a ISTOÉ. Conforme fui pesquisando, comecei a descobrir
letras que eu não conhecia, como a de Sonho estranho,
musicada e gravada por Nico Resende, e a de Fratura (não)
exposta, gravada por Ney Matogrosso em 1985, que nem ele lembrava
mais. Ao todo, o trabalho da mãe-fã e dos jornalistas
levantou um total de 205 letras, somando 65 inéditas e 13
musicadas e não gravadas. Destas, estão prestes a
sair do forno Seda pura, que integrará o novo álbum
de Simone, e Modernidade, faixa do disco de estréia
do ótimo Lulo Scroback, revelação do equivocado
espetáculo Cazas de Cazuza. Mas é entre os poemas
musicados inéditos que se encontra uma das histórias
mais divertidas cercando aquele que, de acordo com seu pai, João
Araujo executivo de uma grande gravadora , se autodenominava
Rebelde sem calça.
Chama-se Comprimidos a canção cuja letra
nasceu de uma conversa tragicômica entre Cazuza e Rita Lee.
A rainha do rock tupiniquim tinha ido visitar o poeta, já
combalido pela doença. Sempre bem-humorados, os dois falaram
de seus impulsos em apelar aos comprimidos químicos para
resolver suas dores existenciais. Rita deu à letra um rock
bem pesado. Dez anos depois, o destino da canção ainda
parece estar reservado ao baú das memórias. Apesar
do mote da letra já não pertencer mais à minha
atual biografia, acredito que esta música daria
uma boa trilha sonora para os tomadores de Prozac e Viagra, dois
remedinhos vendidos nas melhores farmácias do ramo como sendo
as drogas da felicidade, falou Rita a ISTOÉ. Cazuza
e (Renato) Russo, sem dúvida, foram os letristas mais representativos
da geração 80, continua a roqueira. Sempre
gostei do lado irônico e debochado de Cazuza, me dava a impressão
que o fundo do poço dele era uma festa constante.
Mas quando botava a cabeça pra fora e espiava o mundo em
volta, aí sim Cazuza se indignava de verdade e soltava os
demônios.
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