As lutas de Covas - continuação
Adriana
Souza Silva e Florência Costa
Convencê-lo
a fazer algo que não quer é de fato uma façanha.
E isso vale também para sua vida pessoal. Fumante inveterado,
consumia cinco maços por dia, mas teve que abandonar o vício
por causa de um infarto. Contudo, um traço de rebeldia se
manifestou: mantinha um cigarro apagado pendurado na boca. Homem
de hábitos simples, Covas, nas campanhas, não costumava
dobrar-se aos pedidos de publicitários e fotógrafos.
Não estou num concurso de miss, respondeu, certa
vez. Referindo-se à famosa teimosia do amigo, Ulysses Guimarães
brincou: Ele é uma mula. A tarefa de comprar
sapatos, por exemplo, sempre ficou a cargo de Lila Covas. Ela
põe o sapato no pé dela e sabe que basta colocar um
dedo atrás que serve para mim, contou o governador
numa entrevista. A primeira-dama tem uma resposta pronta sempre
que alguém reclama do mau humor do marido. O Mário
não é bravo. São as pessoas que não
sabem lidar direito com ele, explicou.
Se
todos tivessem a honra dele, não haveria tantos bandidos na
política”
Lula |
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Ela
tem razão. Em casa, o governador se transforma no avô
querido, no paizão conselheiro, no eterno companheiro de
Lila. Juntos há 47 anos, o casal Covas zela pela privacidade
como poucas figuras públicas conseguem. Nos fins de semana,
os dois fazem questão de reunir a família para comer
e jogar conversa fora. Viver uma vida normal, com direito a assistir
aos jogos de futebol na tevê, sobretudo os do Santos, do qual
Covas é torcedor fanático, partidas de tênis
ou filmes alugados. Também adora desafiar o computador no
xadrez. É uma forma de exercitar o raciocínio. Se
Covas é conhecido por sua força, Lila, 68 anos, não
fica atrás. Desde o início da doença, a primeira-dama
passou a acompanhá-lo por todos os lugares, impondo limites
aos esforços físicos do marido. Um pulso tão
firme que frequentemente leva Covas a brincar em público,
ao referir-se às broncas da mulher. Também partiu
da família a decisão de licenciar-se do cargo, em
22 de janeiro. Mas o peso da carga levou Lila ao limite do stress.
Os
dois se conheceram em Santos, ainda no colégio. Da união
nasceram Renata, hoje com 45 anos, Mário Covas Neto, o Zuzinha,
41 anos, e Silvia, que morreu em um acidente de moto na madrugada
de 1º de janeiro de 1976, aos 19 anos. Este foi um dos momentos
mais difíceis na vida do casal. Desde então, lembram
amigos, eles deixaram de comemorar o réveillon. Também
passaram a acreditar no espiritismo (leia quadro à pág.
40), sem abandonar a religião católica. Covas tornou-se
amigo do médium Chico Xavier. Minhas tragédias
são muito pequenas em face das tragédias pelas quais
a humanidade passa. Tem gente que não consegue comer, que
tem filhos com problemas seriíssimos. Perdi uma filha em
circunstâncias trágicas, mas achei forças para
enfrentar, afirmou o governador anos depois.
Nascido
há 70 anos em 21 de abril, dia de Tiradentes, Zuza (apelido
que ganhou em Santos por imitar um palhaço com esse nome)
sempre gostou de esporte: jogou basquete, vôlei e futebol.
Formou-se engenheiro pela tradicional Escola Politécnica
da Universidade de São Paulo, onde já duelava com
Maluf, seu colega de faculdade. Começou na política
com 31 anos, quando disputou, e perdeu, a Prefeitura de Santos pelo
extinto Partido Social Trabalhista (PST). Sua primeira vitória
aconteceu em 1962, quando se elegeu deputado federal pelo mesmo
partido. Covas estreou na política de forma original: começou
com idéias conservadoras, carregando a bandeira do janismo,
mas chega ao fim de sua carreira como um dos maiores símbolos
progressistas do País. O marco dessa virada aconteceu durante
o golpe militar de 1964. No antigo Movimento Democrático
Brasileiro (MDB), foi um dos parlamentares que articularam a reação
contra o pedido feito pelos militares para que a Câmara aprovasse
a licença para processar o deputado Márcio Moreira
Alves. O regime fardado não perdoou o corajoso discurso de
Marcito contra o autoritarismo dos militares. A recusa da Câmara
foi o pretexto que a ditadura procurava para decretar o Ato Institucional
nº 5, no dia 13 de dezembro de 1968, que fechou o Congresso.
Como punição, Covas perdeu o mandato e teve seus direitos
políticos cassados por dez anos.
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