As lutas de Covas
O governador abandona a política, sendo fiel ao
seu lema “Enfrentar, combater e vencer”, mas deixa o PSDB sem sua
consciência crítica. Na sucessão presidencial, Tasso se enfraquece
e José Serra ganha fôlego
Adriana
Souza Silva e Florência Costa
| Milton
Michida/AE |
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"Você
administra o governo e eu, a minha ida para uma vida melhor”
Mário Covas a Geraldo Alckmin |
O barco
tucano não conta mais com a sua bússola. Com o governador
Mário Covas alijado do cenário político, o
PSDB está sem sua consciência crítica. Os tucanos
passaram a sentir, mais do que nunca, a agonia de ver que a estrela
de Covas se apaga. O vozeirão do governador sempre ecoou
País afora, a partir de São Paulo, influenciando os
rumos do partido, puxando-o para suas raízes social-democratas.
Agora que o comandante está afastado, os tucanos terão
que pegar no leme, decidir que direção dar ao PSDB,
digerir suas divergências internas, sem sua maior referência.
Com a chama de Covas esmaecida, muita coisa muda dentro do partido
do presidente Fernando Henrique Cardoso e consequentemente na política
nacional, refletindo na sucessão presidencial de 2002. Afinal,
o governador paulista era o principal articulador da candidatura
do governador do Ceará, Tasso Jereissati. Sem Covas para
fazer sua campanha, Tasso perde fôlego e o ministro da Saúde,
José Serra, ganha terreno.
A
importância de Covas pode ser medida pela comoção
nacional diante de seu gravíssimo quadro de saúde.
Com sua dignidade incontestável, ele é um dos poucos
homens públicos que conseguem derrubar a tese de que todos
os políticos são iguais. Um adesivo colado na parede
do Incor resume: Covas, um exemplo de coragem. O hospital
se transformou em um verdadeiro palco de uma romaria eclética
em solidariedade ao governador: sindicalistas, artistas, religiosos,
admiradores e políticos dos mais variados matizes
do petista Luiz Inácio Lula da Silva ao adversário
Paulo Maluf (PPB). Apenas a mulher, Lila, e os filhos Renata e Mário
Covas Neto, o Zuzinha, passaram a semana no quarto do governador,
que pediu aos médicos para não ficar na UTI. Poucos
políticos tiveram acesso ao sexto andar no Incor, como FHC
e Geraldo Alckmin. Foi ao governador em exercício que Covas
deixou o recado: Você administra o governo que eu administro
a minha passagem para uma vida melhor. Ao médico David
Uip perguntou: Quando vou embora? Vou trabalhar ou não?
Os médicos se impressionaram com a perseverança do
governador: Ele é um guerreiro, elogiou Uip.
A mesma
dose de coragem demonstrada por Covas durante os dois anos de luta
contra o câncer tem se repetido na arena política.
Uma coragem evidenciada desde a liderança no combate à
ditadura militar, passando pela resistência a que tucanos
viessem a integrar o governo de Fernando Collor de Mello, até
as frequentes críticas ao governo federal. Dono de um humor
ferino, de um temperamento tão quente quanto a sua ascendência
espanhola e de uma sinceridade cortante, Covas sempre fitou sem
medo seus adversários mais agressivos e discordou publicamente
de seus colegas de partido. Submissão é uma palavra
que nunca constou de seu dicionário. Explosivo, ele sempre
comprou todo tipo de briga, reagindo intempestivamente às
vaias e aos manifestantes. No ano passado, por exemplo, chegou a
atravessar um acampamento de professores em greve, na praça
da República, para mostrar que ninguém o impedia de
entrar na Secretaria de Educação pela porta da frente.
Resultado: saiu de lá com um corte na boca e um galo na cabeça.
O Covas é dez em caráter e zero em temperamento,
já havia definido o ex-governador Franco Montoro.
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