| Roberto
de Biasi/AE |
 |
|
“Não posso aceitar isso calado. A questão é meramente
política” |
O
foneticista Ricardo Molina de Figueiredo é um dos mais
conceituados peritos do País. Especialista em áudio
e vídeo, sua atuação foi decisiva para
o esclarecimento de casos de repercussão nacional,
como a morte de PC Farias e o massacre de trabalhadores sem-terra
em Eldorado do Carajás (PA). Na quinta-feira 22, Molina
foi surpreendido por uma notícia tão polêmica
quanto os crimes que adora desvendar: o foneticista foi demitido
da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) a bem do serviço
público. Oficialmente, a universidade o acusa de faltas
administrativas como o uso de equipamentos e verbas públicas
para fins particulares. Na próxima semana, Molina irá
recorrer à Justiça para tentar reaver o cargo.
Não posso aceitar isso calado. A questão
é meramente política, pois vários de
meus trabalhos comprometem pessoas ligadas ao poder, o que
desagrada setores da Unicamp, afirma o perito.
A demissão de Molina representa o final de um processo
que teve início em julho de 1999, quando o foneticista
denunciou que havia mau uso do dinheiro do Fundo Universitário
de Complementação Salarial (Fucs) na Faculdade
de Medicina da Unicamp. Trata-se de uma verba anual de aproximadamente
R$ 25 milhões repassada pelo SUS à universidade
com o objetivo de manter catedráticos permanentemente
nos hospitais universitários. O dinheiro era
repassado aos professores, mas nos hospitais só eram
encontrados os médicos residentes para dar atendimento
à população, diz Molina. Logo depois
da denúncia, a reitoria da Unicamp instalou uma comissão
de sindicância para investigar o uso da verba destinada
ao antigo departamento de medicina legal, na época
comandado por Molina. Em outubro de 1999, quando os familiares
de presos políticos desaparecidos durante o regime
militar reclamaram a demora da Unicamp em fornecer os laudos
a respeito das ossadas encontradas em uma vala clandestina
do cemitério de Perus em 1988, a universidade informou
que não havia recursos técnicos para terminar
o serviço. Molina se posicionou contra e afirmou que
o que faltava era vontade política para fazer a perícia.
Acabou sendo advertido pela reitoria.
Sobre o massacre de Eldorado do Carajás (PA), a ação
de Molina reverteu a história oficial. O perito recebeu
do Ministério Público do Pará uma fita
de vídeo para ser analisada. Observou quadro a quadro
cada segundo de gravação e concluiu que a Polícia
Militar atirou primeiro contra os sem-terra e que pelo menos
um dos 19 mortos foi executado pelas costas. Até então,
a versão oficial, elaborada por Badan Palhares, dizia
que os sem-terra mataram-se uns aos outros. Esse laudo
provocou a ira da reitoria, pois encaminhei o trabalho ao
Ministério Público e não ao reitor,
afirma o perito. Queriam controlar o que estava sendo
feito e o que iria ser divulgado, mas entendo que a universidade
deve estar a serviço da comunidade e não deste
ou daquele interesse.
A direção da Unicamp nega que a demissão
de Molina seja política. Ele usou recursos públicos
para fins privados e foi punido por causa disso, afirma
Roberto Romano, presidente da Comissão de Perícias
da Unicamp. O curioso é que a direção
da Unicamp tem pleno conhecimento de que durante 11 anos Badan
Palhares manteve em seu laboratório particular um microscópio
da universidade avaliado em US$ 50 mil e jamais foi punido.
Existe contra ele uma sindicância instalada pelo menos
dois meses antes daquela que culminou com a demissão
de Molina, mas até agora Palhares continua nos quadros
da Unicamp.
M. S. F.
|