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 POLÍTICA 02/03/2001
CAPA continua...

Fisgado pela voz - continuação

Andrei Meireles, Mario Simas Filho e Mino Pedrosa

Uma demissão polêmica

Roberto de Biasi/AE
“Não posso aceitar isso calado. A questão é meramente política”

O foneticista Ricardo Molina de Figueiredo é um dos mais conceituados peritos do País. Especialista em áudio e vídeo, sua atuação foi decisiva para o esclarecimento de casos de repercussão nacional, como a morte de PC Farias e o massacre de trabalhadores sem-terra em Eldorado do Carajás (PA). Na quinta-feira 22, Molina foi surpreendido por uma notícia tão polêmica quanto os crimes que adora desvendar: o foneticista foi demitido da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) a bem do serviço público. Oficialmente, a universidade o acusa de faltas administrativas como o uso de equipamentos e verbas públicas para fins particulares. Na próxima semana, Molina irá recorrer à Justiça para tentar reaver o cargo. “Não posso aceitar isso calado. A questão é meramente política, pois vários de meus trabalhos comprometem pessoas ligadas ao poder, o que desagrada setores da Unicamp”, afirma o perito.

A demissão de Molina representa o final de um processo que teve início em julho de 1999, quando o foneticista denunciou que havia mau uso do dinheiro do Fundo Universitário de Complementação Salarial (Fucs) na Faculdade de Medicina da Unicamp. Trata-se de uma verba anual de aproximadamente R$ 25 milhões repassada pelo SUS à universidade com o objetivo de manter catedráticos permanentemente nos hospitais universitários. “O dinheiro era repassado aos professores, mas nos hospitais só eram encontrados os médicos residentes para dar atendimento à população”, diz Molina. Logo depois da denúncia, a reitoria da Unicamp instalou uma comissão de sindicância para investigar o uso da verba destinada ao antigo departamento de medicina legal, na época comandado por Molina. Em outubro de 1999, quando os familiares de presos políticos desaparecidos durante o regime militar reclamaram a demora da Unicamp em fornecer os laudos a respeito das ossadas encontradas em uma vala clandestina do cemitério de Perus em 1988, a universidade informou que não havia recursos técnicos para terminar o serviço. Molina se posicionou contra e afirmou que o que faltava era vontade política para fazer a perícia. Acabou sendo advertido pela reitoria.

Sobre o massacre de Eldorado do Carajás (PA), a ação de Molina reverteu a história oficial. O perito recebeu do Ministério Público do Pará uma fita de vídeo para ser analisada. Observou quadro a quadro cada segundo de gravação e concluiu que a Polícia Militar atirou primeiro contra os sem-terra e que pelo menos um dos 19 mortos foi executado pelas costas. Até então, a versão oficial, elaborada por Badan Palhares, dizia que os sem-terra mataram-se uns aos outros. “Esse laudo provocou a ira da reitoria, pois encaminhei o trabalho ao Ministério Público e não ao reitor”, afirma o perito. “Queriam controlar o que estava sendo feito e o que iria ser divulgado, mas entendo que a universidade deve estar a serviço da comunidade e não deste ou daquele interesse.”

A direção da Unicamp nega que a demissão de Molina seja política. “Ele usou recursos públicos para fins privados e foi punido por causa disso”, afirma Roberto Romano, presidente da Comissão de Perícias da Unicamp. O curioso é que a direção da Unicamp tem pleno conhecimento de que durante 11 anos Badan Palhares manteve em seu laboratório particular um microscópio da universidade avaliado em US$ 50 mil e jamais foi punido. Existe contra ele uma sindicância instalada pelo menos dois meses antes daquela que culminou com a demissão de Molina, mas até agora Palhares continua nos quadros da Unicamp.

M. S. F.

 

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