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 POLÍTICA 02/03/2001
CAPA continua...

Fisgado pela voz - continuação

Andrei Meireles, Mario Simas Filho e Mino Pedrosa

Eliana Torelly não se limitou a dar um sumiço nas duas fitas. Junto com Schelb, divulgou uma nota em que afirmam não terem conhecimento de “supostas gravações clandestinas” e desautorizam o vazamento da conversa com ACM. Fizeram mais. Alegaram um acordo com o senador baiano para que a conversa fosse mantida em sigilo. A história não foi bem assim. Primeiro, Luiz Francisco nega a existência de qualquer acerto prévio com o cacique baiano. Depois, Schelb e Eliana sabiam do que estava sendo feito e Antônio Carlos desconfiava. Ao se despedir dos procuradores, o senador percebeu um volume no bolso interno do paletó de Schelb e o apalpou para se certificar de que não se tratava de um gravador. “Fiquei assustado. Ainda bem que ele foi em cima de mim. Se ele vai no Luiz, ia dar um rolo danado”, comentou Schelb logo depois da reunião. Arrependido de ter entregue as gravações, Luiz Francisco não esperava que a fita “inaudível” fosse transformar-se em sua tábua de salvação e na mais pesada munição contra ACM. Não dá para prever o desfecho do mal-estar instalado entre os procuradores, mas a crise detonada pela metralhadora giratória de Antônio Carlos já fez suas primeiras vítimas.

Menos de 24 horas depois de a última edição de ISTOÉ chegar às bancas, com uma canetada Fernando Henrique demitiu os ministros da Previdência Social, Waldeck Ornelas, e das Minas e Energia, Rodolpho Tourinho, dois fiéis pupilos do senador baiano. Começou ali uma temporada de caça ao feudo carlista no governo federal em que ACM mantém outros 29 apadrinhados, entre eles os presidentes da Eletrobrás, Firmino Sampaio, do INSS, Crésio Rolim, e da Dataprev, Ramon Barreto. Ao mesmo tempo que varre o carlismo do governo, FHC afaga o chamado PFL do B, a ala do partido comandada pelo vice-presidente, Marco Maciel, e o senador Jorge Bornhausen (SC), que rompeu com ACM e permanece fiel ao Palácio do Planalto. Dessa corrente sairão os novos ministros da cota pefelista. Entre outros, estão no páreo o senador José Jorge (PE) e os deputados Eliseu Resende (MG) e José Carlos Fonseca (ES). Contra Resende pesa o fato de ele ter deixado o Ministério da Fazenda no governo Itamar Franco depois de ter sido acusado de receber favores de uma empreiteira. Já Fonseca sofre restrições no Palácio do Planalto por causa de seu empenho para evitar que o presidente da Assembléia Legislativa do Espírito Santo, deputado José Carlos Gratz, indiciado pela CPI do Narcotráfico, fosse expulso do PFL.

Leopoldo Silva
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Com a mexida no naco pefelista de poder e outras mudanças no Ministério, Fernando Henrique aposta que o PFL no próximo dia 8 vai decidir permanecer na base governista e isolar ACM. De Miami, onde se refugiou assim que a crise pipocou, Antônio Carlos passou a fazer disparos contra o governo. Em seu estilo habitual, ameaçou com a divulgação de novas denúncias contra o governo, com insinuações de que dispõe de munição pesada para atacar o processo de privatização e o próprio Fernando Henrique. Como blefa muito, desta vez ACM só encontrará eco se mostrar provas concretas de suas acusações. No Palácio do Planalto, a expectativa é de que, em vez de bater, Antônio Carlos terá de cuidar de sua própria defesa. A começar pelas confissões feitas aos procuradores da República. Na maratona de entrevistas que concedeu na Flórida, o senador baiano não conseguiu dar uma explicação convincente para o que revelou aos procuradores. “Eu tenho uma lista de quem votou a favor e contra a cassação do Luiz Estevão. Não por violar o painel de votação, mas por dedução”, tentou se justificar.

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