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 POLÍTICA 02/03/2001
CAPA continua...

Fisgado pela voz
Com a ajuda de perito, fita "inaudível" se transforma em prova contra ACM, que admitiu conhecer votos secretos de senadores. Na gravação, novos disparos em Eduardo Jorge

Andrei Meireles, Mario Simas Filho e Mino Pedrosa

Fotos: Ricardo Stuckert
Antônio Carlos ataca Luiz Francisco: “Ele só destruiu a fita porque ficaria muito mal se ela viesse à tona”

Na madrugada da sexta-feira 2, o professor e perito em fonética Ricardo Molina de Figueiredo conseguiu complicar definitivamente a situação política do senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA). Confirmou a gravação “inaudível” da bombástica conversa entre ACM e seu assessor, Fernando César Mesquita, com os procuradores da República Luiz Francisco de Souza, Guilherme Schelb e Eliana Torelly. Como ISTOÉ havia revelado em sua última edição, Antônio Carlos deu dicas ao Ministério Público de como “pegar” o ex-secretário-geral da Presidência Eduardo Jorge Caldas Pereira e chegar ao presidente Fernando Henrique Cardoso. A fita também comprova que ACM contou aos procuradores que tem a lista de quem votou a favor e contra a cassação do senador Luiz Estevão, apesar de a votação ter sido secreta. Ato falho do tarimbado cacique baiano, prontamente advertido por Fernando Mesquita: “Isso não se pode falar. Tem que tomar cuidado. Pois ele pode querer anular e vai dizer que o senhor quebrou o sigilo da votação.” Uma advertência bastante pertinente. O fato de a votação secreta não ter sido tão secreta pode levar à cassação do mandato de ACM.

Durante a última semana, a existência de gravações e sua divulgação causaram uma guerra interna na Procuradoria da República. Na realidade, foram gravadas três fitas, duas delas em um microcassete que o procurador Luiz Francisco carregava no bolso do paletó, com o conhecimento de seus dois colegas. A terceira, considerada inaudível até a última sexta-feira, foi gravada na sala do próprio Luiz Francisco, separada apenas por uma divisória de madeira do gabinete de Eliana Torelly, onde ocorreu a conversa com ACM. As duas primeiras fitas captaram a conversa com nitidez. ISTOÉ teve acesso a elas no final da manhã da quarta-feira 27, o que, horas depois, gerou a crise no Ministério Público. Numa tensa reunião na sala de Torelly – da qual participaram outros procuradores –, ela e Schelb criticaram o comportamento de Luiz Francisco, que, depois de muita discussão, jogou no chão um saco de plástico com as fitas e o pisoteou, com isso quebrando o invólucro de uma delas. Ato contínuo, Eliane as recolheu e guardou.

Volume no bolso

Ricardo Stuckert
Geraldo Brindeiro reage a ACM com o apoio do Palácio do Planalto

Mesmo estando todos os poderes da República interessados em conhecer as gravações, a procuradora Eliane contou aos colegas que picotou e destruiu as fitas. Desse modo, teria acabado com as provas que o Senado Federal necessita para processar o cacique baiano por falta de decoro parlamentar. Como sempre, ACM logo tratou de tirar uma casquinha e atirou no alvo errado: “Esse Luiz Francisco é um irresponsável. Em vez de atuar como procurador, foi repórter da ISTOÉ. Ele só destruiu a fita porque ficaria muito mal se ela viesse à tona.” Diferente de Antônio Carlos, o procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, que na última sexta-feira recebeu a fita inaudível, manifesta interesse em apurar as confissões de ACM a seus colegas procuradores. “Depois que a fita foi feita, tendo validade jurídica para fins criminais, não vejo razão para destruí-la, a não ser por problema emocional ou coisa assim”, censurou o procurador-geral Geraldo Brindeiro.

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