| MEDICINA
& BEM ESTAR |
08/03/2001 |
Esqueci
o Remédio!
Pesquisas mostram que pacientes não tomam
os medicamentos como deveriam e resistem
às recomendações médicas
Mônica
Tarantino
A maioria
das pessoas reluta em tomar os remédios prescritos pelo médico
e tem dificuldade em acatar as recomendações de mudança
de hábitos. A postura está indicada em estudos de
resultados inquietantes. Uma pesquisa americana feita pela Clínica
Mayo, por exemplo, revelou que 76% dos pacientes não cumprem
as orientações médicas. No Brasil, estudo da
Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) mostrou que apenas
22% dos doentes seguem as indicações, como os horários
de tomar os remédios e alterações de estilo
de vida. O estudo, conduzido por Agostinho Tavares, professor de
nefrologia da Unifesp, chegou a essa conclusão depois de
analisar as fichas de 1.200 pacientes que permaneceram por cerca
de 180 dias em tratamento. O alto índice de infidelidade
anuncia que muita gente sofrerá as consequências do
tratamento mal feito. O agravamento dos sintomas é uma delas.
Os
motivos que entravam a aderência estão sendo pesquisados.
A grande dificuldade dos portadores de hipertensão, por exemplo,
é entender por que devem engolir todo dia um ou mais comprimidos
e sofrer com efeitos colaterais como náuseas para controlar
um problema que não apresentou sintomas. A hipertensão
só dá sinais quando está em fase avançada.
Por isso, quem não sair da sala do médico convencido
da gravidade dessa e de doenças crônicas como a diabete
tem grandes chances de pular fora do receituário. Mas há
mais fatores em jogo. Um deles é o receio de parecer diferente.
No caso da diabete, em que uma parte dos doentes se aplica diariamente
doses de insulina, estudos americanos mostram que a relutância
em cumprir as regras atinge 50% dos pacientes diagnosticados. As
crenças pessoais também atrapalham. A antropóloga
Daniela Knauth, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, observou
que a disciplina de um grupo de gestantes soropositivos para continuar
a terapia anti-HIV, que depende do uso sistemático de medicamentos,
diminuiu depois do parto. Na gestação, a adesão
chegava a 100%. Depois caiu. As mães acham que sua missão
é cuidar do bebê e deixam de lado seu tratamento,
afirma. Uma das tentativas de reverter essa situação
são os grupos de auto-ajuda criados no Hospital de Clínicas
de Porto Alegre. A troca de vivências entre as gestantes
e mães soropositivos ajuda a perceber que é necessário
se tratar para cuidar do filho, explica a antropóloga
Daniela.
De
fato, a informação e a motivação são
antídotos contra a evasão do tratamento. Parte dessa
injeção de ânimo pode ser dada nas consultas.
No entanto, nem todos os especialistas que têm disponibilidade
para conversar até que o doente entenda a importância
de seguir as recomendações. O médico
tem de explicar de novo até ter certeza de que suas orientações
foram compreendidas, defende o endocrinologista Antônio
Roberto Chacra. É um passo e tanto, até porque muita
gente chega na farmácia sem ter idéia da dose que
vai tomar ou da ação do remédio. Tem
gente que acha que o remédio vai curar sintomas que nada
têm a ver com o tratamento e acaba se frustrando, alerta
o nefrologista Tavares. Atento ao problema, ele pede aos pacientes
que levem a caixinha do remédio na consulta de retorno. É
uma forma de investigar se o remédio foi mesmo tomado. Ele
também convida o paciente a participar das decisões
para aumentar seu compromisso com a própria saúde.
Ensino a medir a pressão arterial e a glicemia (taxa
de açúcar no sangue). Assim eles podem avaliar o efeito
do tratamento, diz o nefrologista. Também é
importante simplificar os esquemas de medicação,
lembra Chacra. Nesse esforço para facilitar a ingestão
de remédios, o governo dos Estados Unidos aprovou na semana
passada uma versão do Prozac para ser tomado uma vez por
semana. Entretanto, as autoridades americanas ainda não sabem
se o efeito do antidepressivo será o mesmo obtido com o Prozac
ingerido diariamente.
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