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 ENTREVISTA
20/12/2000
  continua...
A força da ironia
Para o escritor Ariel Dorfman, é preciso satirizar
os tecnocratas que querem globalizar seus países
tentando negar a identidade nacional

Katia Mello

Reprodução

“O escritor deve romper as mentiras nacionais”

Trinta anos depois de escrever Para ler o Pato Donald, um raivoso panfleto contra o “imperialismo cultural” americano, o argentino-chileno Ariel Dorfman continua defendendo a necessidade de visões alternativas ao pensamento dominante, mas hoje ele está convencido de que o humor e a ironia são armas muito mais eficazes do que a sisudez incendiária. Aos 58 anos — 27 dos quais vivendo nos Estados Unidos, para onde ele se mudou depois do golpe militar do general Augusto Pinochet —, Dorfman satiriza os tecnocratas pós-ditadura no Chile, que acreditavam que o país poderia se modernizar fazendo tábula rasa de seu passado e de sua identidade. “Acreditaram que não somos tropicais, não fazemos a siesta, não somos quentes; somos frios, calculistas e racionais. O país inteiro se iludiu em ser o que não é.” Seu livro mais recente, A babá e o iceberg (392 páginas, editora Record), que chega agora ao Brasil, é uma divertida sátira à transição democrática chilena. Nesta entrevista exclusiva a ISTOÉ, o escritor fala de Pinochet, da globalização, da corrupção, da linguagem e até da recente rebelião das prisões em São Paulo.

ISTOÉ – Como o sr. definiria o livro A babá e o iceberg?
Ariel Dorfman A babá e o iceberg é erótico, pitoresco. Eu critico todo país que, como o Chile, está em via de modernização e esquece seu passado, mentindo a si próprio. E o passado chileno também é anterior à ditadura do general Augusto Pinochet. Busco no presente todos os mentirosos. É um livro de mentirosos, como o mundo. A globalização, a modernização, é uma criação de ilusões de que todo mundo pode libertar-se desse passado e eu acredito que isso não seja possível. Então, essas grandes mentiras nacionais são as que eu, como escritor, tenho vontade de ir rompendo.

ISTOÉ – O sr. emigrou para Nova York quando criança; voltou ao Chile nos anos 50 e retornou aos EUA nos anos 70. Quais as semelhanças entre a vida do personagem Gabriel McKenzie e a sua?
Dorfman
– Há vários paralelos entre Gabriel McKenzie e eu. Da mesma forma que eu, ele decidiu se tornar americano e dar costas às suas raízes. Eu procurei inspiração para esse personagem na minha própria infância. O que eu quis usar dele é a idéia do estrangeiro que revê um lugar. Ele é inocente e, ao mesmo, contaminado. Quando cheguei ao Chile como gringo, pensava que era superior. Depois aprendi, com amor, que isso não era verdade, que tinha muito a aprender com o Chile. E Gabriel aprendeu, não através do amor, que ele serviu como usuário da ilusão do desenvolvimento do Chile.

ISTOÉ – Quanto usou da sua memória dos anos no Chile para escrever esta história?
Dorfman
– Sempre utilizei muito a minha memória, mas muito poucas vezes escrevo em minhas ficções fatos que realmente aconteceram. Em geral minhas ficções são como uma terapia ou uma fantasia, como em A Morte da donzela. Já em A babá e o iceberg voltei a dois momentos fundamentais da minha vida. Um deles é dos anos 60, quando há revolução, o Che Guevara morre e nasce uma espécie de utopia latino-americana. O outro momento que este livro contém é a história secreta do meu retorno ao Chile, no princípio dos anos 90, quando senti que havia uma sociedade muito falsa. Senti também que eu não cabia nessa sociedade.

 

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