A
força da ironia
Para
o escritor Ariel Dorfman, é preciso satirizar
os tecnocratas que querem globalizar seus países
tentando negar a identidade nacional
Katia
Mello
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Reprodução
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“O escritor deve romper as mentiras nacionais” |
Trinta
anos depois de escrever Para ler o Pato Donald, um raivoso
panfleto contra o imperialismo cultural americano, o
argentino-chileno Ariel Dorfman continua defendendo a necessidade
de visões alternativas ao pensamento dominante, mas hoje
ele está convencido de que o humor e a ironia são
armas muito mais eficazes do que a sisudez incendiária. Aos
58 anos 27 dos quais vivendo nos Estados Unidos, para onde
ele se mudou depois do golpe militar do general Augusto Pinochet
, Dorfman satiriza os tecnocratas pós-ditadura no Chile,
que acreditavam que o país poderia se modernizar fazendo
tábula rasa de seu passado e de sua identidade. Acreditaram
que não somos tropicais, não fazemos a siesta, não
somos quentes; somos frios, calculistas e racionais. O país
inteiro se iludiu em ser o que não é. Seu livro
mais recente, A babá e o iceberg (392 páginas,
editora Record), que chega agora ao Brasil, é uma divertida
sátira à transição democrática
chilena. Nesta entrevista exclusiva a ISTOÉ, o escritor fala
de Pinochet, da globalização, da corrupção,
da linguagem e até da recente rebelião das prisões
em São Paulo.
ISTOÉ Como o sr. definiria o livro A babá
e o iceberg?
Ariel Dorfman A babá e o iceberg
é erótico, pitoresco. Eu critico todo país
que, como o Chile, está em via de modernização
e esquece seu passado, mentindo a si próprio. E o passado
chileno também é anterior à ditadura do general
Augusto Pinochet. Busco no presente todos os mentirosos. É
um livro de mentirosos, como o mundo. A globalização,
a modernização, é uma criação
de ilusões de que todo mundo pode libertar-se desse passado
e eu acredito que isso não seja possível. Então,
essas grandes mentiras nacionais são as que eu, como escritor,
tenho vontade de ir rompendo.
ISTOÉ
O sr. emigrou para Nova York quando criança; voltou
ao Chile nos anos 50 e retornou aos EUA nos anos 70. Quais as semelhanças
entre a vida do personagem Gabriel McKenzie e a sua?
Dorfman Há vários paralelos entre Gabriel
McKenzie e eu. Da mesma forma que eu, ele decidiu se tornar americano
e dar costas às suas raízes. Eu procurei inspiração
para esse personagem na minha própria infância. O que
eu quis usar dele é a idéia do estrangeiro que revê
um lugar. Ele é inocente e, ao mesmo, contaminado. Quando
cheguei ao Chile como gringo, pensava que era superior. Depois aprendi,
com amor, que isso não era verdade, que tinha muito a aprender
com o Chile. E Gabriel aprendeu, não através do amor,
que ele serviu como usuário da ilusão do desenvolvimento
do Chile.
ISTOÉ
Quanto usou da sua memória dos anos no Chile para
escrever esta história?
Dorfman Sempre utilizei muito a minha memória,
mas muito poucas vezes escrevo em minhas ficções fatos
que realmente aconteceram. Em geral minhas ficções
são como uma terapia ou uma fantasia, como em A Morte
da donzela. Já em A babá e o iceberg voltei
a dois momentos fundamentais da minha vida. Um deles é dos
anos 60, quando há revolução, o Che Guevara
morre e nasce uma espécie de utopia latino-americana. O outro
momento que este livro contém é a história
secreta do meu retorno ao Chile, no princípio dos anos 90,
quando senti que havia uma sociedade muito falsa. Senti também
que eu não cabia nessa sociedade.
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