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 ARTES & ESPETÁCULOS 14/02/2001
Cinema III

O prazer é marrom
Lasse Hallström faz de Chocolate uma ótima
metáfora sobre o desejo e as tentações

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Apoenan Rodrigues

Divulgação
Juliette e Depp: bombons e blues em clima de romance

Nada na pequena vila francesa de Lansquenet se move ou acontece sem que sua tradicional comunidade não saiba. Se a cidadezinha pudesse ser definida em uma palavra, seria tranquilidade. Uma tranquilidade falsa, porque por baixo da dedicação à religião e aos padrões morais e da determinação de serem mediocremente felizes, seus habitantes escondem ardentes desejos comuns. Como sempre, só precisam de um empurrãozinho. E quem o dá é a viajante Vianne Rocher que, junto do vento frio do norte, chega à cidade empenhada em abrir uma loja de chocolates. Com esta história aparentemente simples, o diretor sueco Lasse Hallström – conhecido pelos sensíveis Minha vida de cachorro e Regras da vida – desenhou uma fábula sobre a descoberta do prazer. Em forma de drama e comédia, Chocolate (Chocolat, Estados Unidos, 2000), estréia nacional na sexta-feira 16, fala de paixões escondidas, subserviência, anseios e medos adestrados por uma moralidade secular, que rebate o gozo como incentivo à vida.

Através do chocolate, guloseima que geralmente arma culpas em proporções tão enormes quanto o deleite, a fita perscruta as tentações como forma de libertação. Vianne, interpretada pela doce Juliette Binoche, é o fio condutor da ação capaz de virar Lansquenet de ponta cabeça. Ela é a desinibidora de sensações, a representante do deus pagão da mitologia asteca, aquele que veio do paraíso trazendo a árvore do cacau. Com seus refinados bombons artesanais e suas xícaras fumegantes do delicioso líquido marrom temperado com pimenta, metaforicamente Vianne libera o espírito satânico do chocolate. Satânico porque cutuca os sentidos, prepara o corpo para a lascívia. Em outra metáfora também instiga a acomodação das pessoas nesta história baseada no romance homônimo de Joanne Harris, aqui lançado pela Record.

Em meio ao culto involuntário do prazer, o conde Reynaud (Alfred Molina) surge como guardião da moral estabelecida. Entra em choque com a forasteira Vianne, uma nômade no sangue, cuja existência é mudar de cidade em cidade carregando a filha Anouk (Victoire Thivisol), nascida de uma produção independente. Mas ela ganha aliados, entre eles a rabugenta Armande, vivida com galhardia inglesa por Judi Dench, e a semipirada Josephine (Lena Olin), que troca a truculência do marido pela delicadeza de amassar sementes de cacau. Para sacudir ainda mais a calmaria hipócrita, uma trupe de excluídos atraca o barco no rio que serpenteia a vila. Nela está Roux, papel de Johnny Depp, em mais um de seus personagens favoritos, desta vez tocando blues para conquistar a chocolateira. A esta altura, nem os clamores de um padre fantoche irão aplacar os efeitos devastadores do sabor e da sensação de um chocolate macio derretendo na boca. 

 

 

 
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