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 POLÍTICA 24/01/2001
Revelação continua...


Uma vocação tirânica
Livro de jornalista baiano, que chega às livrarias
no fim de semana, conta em detalhes a trajetória
de violência e perseguições de ACM a desafetos

Leia trechos do livro

Ana Carvalho

Carlos Magno
“Escrevi Memórias das trevas para alertar para o perigo de um político como ACM chegar ao poder absoluto”
João Carlos Teixeira Gomes

João Carlos Teixeira Gomes é um intelectual baiano de fala empolgada. Gosta de contar histórias, passar em revista seus guardados. Membro da Academia de Letras da Bahia, o biógrafo de Glauber Rocha só muda o tom quando o assunto envolve o arbítrio pós-golpe de 1964 e um dos seus principais representantes, Antônio Carlos Magalhães. São exatamente esses dois temas que norteiam Memória das trevas – a essência perversa da opressão, que chega às livrarias neste fim de semana pela Geração Editorial (leia o encarte com os principais trechos da obra). Teixeira Gomes esteve no front de uma guerra travada por ACM contra o Jornal da Bahia, com a intenção de destruir o veículo. A luta de seis anos, que teve início em 1969, pós-AI-5, colocou o escritor no banco dos réus de um tribunal militar. No mesmo momento, nascia o estilo malvadeza de ACM, hoje conhecido em todo o País.

ISTOÉ – Como surgiu a idéia do livro?
João Carlos Teixeira Gomes - Escrevi Memória das trevas para alertar as consciências democráticas para o perigo de um político como Antônio Carlos Magalhães chegar ao poder absoluto. Ele foi criado e nutrido pela ditadura, velho perseguidor de desafetos, jornalistas e jornais. Se tal desastre ocorrer algum dia, teremos no Brasil um novo reinado de arbítrio e intimidações. Ele suprimiria todas as garantias individuais e agrediria a Constituição. É uma autêntica vocação tirânica.

Arquivo do Autor
LSN João Carlos (à dir) no banco dos réus e o advogado Heleno Fragoso (à esq.) durante julgamento em 1972.

ISTOÉ – Memória da trevas é o relato de uma resistência?
João Carlos – Canalizei para o livro a traumática experiência de quem enfrentou Antônio Carlos durante seis anos consecutivos, de 1969 a 1975, quando ele, então prefeito de Salvador e governador da Bahia – biônico em ambos os casos – tentou esmagar o Jornal da Bahia, do qual eu era redator-chefe, e me lançar na cadeia, usando a Lei de Segurança Nacional. Ele queria ser meu carrasco. Não conseguiu. Resisti até o fim e o derrotei.

ISTOÉ – O que mudou de lá para cá no estilo de ACM?
João Carlos – Trinta anos depois das perseguições contra o JBa, ele usa hoje os mesmos métodos para silenciar outro jornal, A Tarde, o mais influente da Bahia. Ele esmaga com bloqueio publicitário, numa perseguição insidiosa. Quando não se reza na cartilha dele, parte para a destruição.

Arquivo do Autor
Conversa com o amigo João Ubaldo Ribeiro

ISTOÉ – Como ACM se tornou todo-poderoso na Bahia?
João Carlos – Ele nasceu depois do golpe de 1964. Antes disso, era um deputado absolutamente secundário. Não tinha expressão política até porque vivia dependendo do Antônio Balbino, do Juracy Magalhães e do Edgar dos Santos. Pós-golpe, consegue adesão de Castelo Branco e se transforma no preferido do militar para ser o prefeito de Salvador.

ISTOÉ – O sr. teve dificuldade de encontrar uma editora disposta a publicar o livro?
João Carlos – Terrivelmente. O Brasil está mergulhado num estado de pusilanimidade moral. Consultei grandes editores do País e eles mostravam medo, muito medo, de publicar Memória das trevas porque Antônio Carlos manda no Brasil. Agora, como manda nas editoras eu não posso imaginar. Espanta-me também ver a cobertura que lhe dão certos jornais e jornalistas do eixo Rio–São Paulo, cegos à sua trajetória truculenta ou pagando favores.

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