Livros
III
Pelo
direito de ser
João
Silvério Trevisan faz um histórico
gay em Devassos no paraíso
Luiz
Chagas
|
Ricardo
Giraldez
|
 |
|
TREVISAN:
“Passamos a vida atrás de nós mesmos. Acho que esse é o nosso
grande problema. Aliás, um problemão”
|
Aos
56 anos e de namorado novo, o normalmente solitário João
Silvério Trevisan desperta a confiança de quem se
aproxima dele pela convicção tranquila com que emite
seus conceitos. Seu comportamento, no entanto, trai a educação
de seminarista e a opção pela filosofia, misturada
com uma passagem pela Universidade de Berkeley, Califórnia,
nos barulhentos anos 70, período no qual os movimentos feminista,
gay, etc. estavam sendo gestados. Autor de nove livros entre
eles quatro romances ,Trevisan tem em Devassos no paraíso
a homossexualidade no Brasil, da colônia à
atualidade (Record, 588 págs., R$ 50) seu cartão
de visita. Lançado em 1986 e agora reeditado com 257 páginas
a mais, o livro, descrito pelo falecido Caio Fernando Abreu como
inquietante, às vezes doloroso e sempre provocativo,
é um ensaio histórico-antropológico com muitas
informações escritas em linguagem não acadêmica.
Fruto de oito anos de trabalho, divididos entre o primeiro e o segundo
lançamento, Devassos aborda assuntos como a colaboração
da polícia com a psiquiatria, que estiveram mancomunadas
na perseguição de homossexuais, no início do
século XX. Também traz passagens divertidas, como
a do modernista Oswald de Andrade troçando com a homossexualidade
de seu colega de letras Mário de Andrade, ao dizer que este
parecia com Oscar Wilde, por detrás. Conceitual
em tudo o que fala, Trevisan recebeu ISTOÉ em seu apartamento
no bairro paulistano dos Jardins, ao som de Jean-Philippe Rameau,
compositor francês do século XVIII.
 |
ISTOÉ
A campanha do segundo turno pela Prefeitura de São
Paulo foi marcada pela homofobia. Mesmo assim, Marta Suplicy venceu.
Como você analisa o fato?
João Silvério Trevisan Nós homossexuais
conquistamos, sim, uma série de espaços. Há
dez anos não teríamos uma parada gay com 120 mil participantes
na avenida Paulista. Mas também não teríamos
skinheads atacando homossexuais na praça da República
e muito menos o lobby de pastores pentecostais no Congresso em Brasília,
que tem como ponto de honra não deixar passar nada relacionado
com homossexualismo e aborto.
|
Reprodução
|
 |
ISTOÉ
Por que você se refere à aids como o
vírus, nosso irmão?
Trevisan Ao lado dessa violência toda trazida
pela doença, pela doença social acarretada pela doença
física, dos preconceitos, etc., eu vejo como positiva essa
necessidade absoluta de trazer o assunto à baila. A homossexualidade
tornou-se um dado da realidade normal das sociedades modernas, um
serviço que nem dez anos de movimento homossexual conseguiu
atingir.
ISTOÉ
Você concorda com o outing, atitude política
de grupos gays americanos radicais que revelam a homossexualidade
de pessoas em postos-chaves ou daquelas que têm atitudes homofóbicas,
apesar de homossexuais?
Trevisan Sou contra o outing. As pessoas têm
o direito absoluto de não tornar pública a sua homossexualidade
ou qualquer coisa que não queiram. É claro que se
um deputado pentecostal tem atitudes homofóbicas e uma vida
homossexual secreta, acho importante revelar isso como ato político
para mostrar que homossexual não é besta. O ensaio
que estou escrevendo sobre o homossexualismo na literatura foi citado
em O Globo sob o título Novos capítulos do dedo-duro
cor- de-rosa. Ora, meu ensaio analisa a fobia da sociedade e dos
intelectuais em ocultar a homossexualidade de seus pares. O curioso
é que o mesmo jornal fez uma matéria sobre os poemas
que Carlos Drummond de Andrade teria feito para uma amante. E se
mostrava revoltado porque a família não permitia a
publicação. Ou seja, primeiro defende a moralidade,
depois a poesia.
|
Prensa
Três
|
 |
|
Oswald
de Andrade caçoava de seu colega, o também modernista Mário
de Andrade
|
ISTOÉ
Qual seu interesse sobre Thomas Mann, o que o levou
a escrever Ana em Veneza, de 1994, sobre uma escrava que a família
Mann teria levado para Lubeck?
Trevisan Ah, isso vem desde o final da minha adolescência,
quando estudava um filósofo húngaro, György Lukács,
por sua vez fascinado por Thomas Mann. Esqueci Lukács, uma
coisa superada na minha vida, mas Mann, nunca. Para você ter
idéia de como a homossexualidade do Thomas Mann era rejeitada,
quando ele recebeu, em 1929, o Prêmio Nobel, o discurso preparado
para apresentar sua obra frisava que o prêmio era para Os
Buddenbrook, não tinha nada a ver com A montanha mágica
ou com o perigosíssimo Morte em Veneza, que estariam pervertendo
os jovens do mundo todo.
ISTOÉ
O que você destacaria entre as diferentes edições
de Devassos?
Trevisan Capítulos novos inteiros falando de
estrangeiros que viveram a sua homossexualidade no Brasil. Os índios,
a relação entre música popular brasileira e
homossexualidade, além de todas as informações
novas que coloquei nos capítulos antigos, porque nesse período
apareceu muita bibliografia nova, muita pesquisa nova.
|
Reprodução
|
 |
ISTOÉ
Você leu Além do Carnaval, do americano
James N. Green, um estudo da homossexualidade no século XX?
Trevisan Não, mas tenho lido as entrevistas
desse mister Green, se dizendo o pioneiro dos estudos homossexuais
no Brasil, o que acho o fim da picada. Eu o conheci no grupo Somos.
É um personagem responsável pela destruição
do movimento homossexual em São Paulo dada a sua capacidade
de manipulação política. James Green tirou
um monte de coisas do meu livro sem citar a fonte, obviamente.
ISTOÉ
Acabou de ser lançado A negação
do Brasil, de Joel Zito Araújo, um livro falando da presença
negra nas novelas, sempre com papéis secundários.
Com os homossexuais acontece o mesmo?
Trevisan Exatamente. Precisa de alguém para
fazer rir, bota uma bicha desmunhecando. Quer atualizar a novela?
Coloca um casal homossexual, desde que seja infeliz, neurótico
ou grosseiro. Imagina os problemas que você causa com essa
definição falsa, reducionista. O adolescente, por
exemplo, vê o personagem desmunhecando, sendo ridicularizado,
e se apavora. O grande problema da homossexualidade na nossa sociedade
patriarcal machista é a ausência da auto-imagem. Por
isso brigamos pela visibilidade.
ISTOÉ
Hoje quem é você, como se definiria?
Trevisan Eu me chamo João Silvério Trevisan
e estou à procura dele. Do próprio. Acho que todos
nós passamos a vida atrás de nós mesmos. Acho
que esse é o nosso grande problema. Aliás, um problemão. 
|