Livros
II
Ser
mulher
Júlia
Mainardi estréia com romance feminino
Luiz
Chagas
Em
meio ao furacão cultural e político a que as mulheres
estiveram expostas na segunda metade do século XX, elas sentiram
na pele as vantagens e desvantagens da pílula anticoncepcional,
o fim da supremacia do macho da espécie, a consolidação
do feminismo, o esfacelamento da instituição do casamento,
etc. Sílvia, a protagonista de Da natureza das coisas (Beca,
300 págs., R$ 29), romance de estréia da ex-publicitária
Júlia Mainardi, carrega consigo a dor, o ardor e a consciência
desta geração orgulhosa de haver quebrado tabus, mas
que foi condenada a viver entre seus destroços, aguardando
e colaborando para que seus filhos ergam um futuro generoso. Ex-mulher
do publicitário Ênio Mainardi, redatora elogiada, Júlia
abriu mão de arroubos formais e qualquer pirotecnia literária.
Com
um despudor incomum, ela mergulhou nas contradições
vivenciadas por uma personagem culta, de classe média alta,
sensível com a pobreza e as desigualdades sociais, mas
francamente impotente. Não seria estranho, portanto, ter
reservado às próprias mulheres, principalmente às
amigas de Sílvia, os melhores perfis do livro. Ao sexo oposto,
a autora dedicou os polaróides de seu esfacelamento. É
a vida de uma mulher num texto denso, sem ser pedante ou de apelo
aos psicologismos, que os homens lerão com atenção
redobrada. Talvez até para não incorrer nos mesmos
erros. 
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