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Repressão
História macabra
Biografia do delegado Fleury mostra como o matador
de bandidos virou o mais terrível carrasco de presos políticos
Douglas
Tavolaro
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Três |
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ÚLTIMA FOTO Poucas horas antes de morrer, o delegado batiza
o Adriana I, no píer de Ilhabela: 21 anos de mistério |
“Eu
sabia que um dia você iria me procurar.” A frase foi dita pela advogada
Leonora Rodrigues de Oliveira por telefone ao jornalista Percival
de Souza em junho do ano passado. Leonora foi a grande paixão secreta
do delegado paulista Sérgio Paranhos Fleury, símbolo da repressão
política instaurada no Brasil após o golpe militar de 1964. Percival
é autor do livro-reportagem Autópsia do medo – vida e morte do
delegado Sérgio Paranhos Fleury, que será lançado pela Editora
Globo na terça-feira 28 em São Paulo e que remonta a trajetória
do homem mais poderoso da polícia nos anos de chumbo. A obra de
700 páginas conta segredos do conflito entre a luta armada e a ditadura
que, entre 1969 e 1973, resultou em pelo menos 500 mortes e faz
revelações surpreendentes de um período sombrio da vida nacional.
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Prensa
Três
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O livro
descreve o delegado Fleury como um misto de policial destemido e
torturador frio. Desde que ingressou como investigador no Dops,
Departamento de Ordem Política e Social, em 1956, até chegar a diretor
do Departamento Estadual de Investigações Criminais de São Paulo,
o Deic, 22 anos depois, ele consolidou aos poucos sua imagem de
implacável. Chegou a ser temido pelos marginais de São Paulo. Criminosos
que não se entregassem sabiam que as chances de escapar com vida
eram reduzidas. A expressão “vamos chamar o Fleury” se tornou uma
ameaça usada nos distritos policiais para assustar os bandidos.
O delegado foi comandante do Esquadrão da Morte, grupo responsável
pela execução sumária de centenas de criminosos comuns e que agia
acobertado por um intenso tráfico de influência. Sua equipe retirava
os presos das cadeias para eliminá-los nas estradas durante a noite.
A prática de Fleury em caçar ladrões acabou utilizada pelo regime
militar para combater os integrantes das organizações de esquerda
que optaram pela luta armada. Logo, o delegado tornou-se senhor
da vida e da morte de quem caísse sob suas mãos. À frente do Dops,
comandou em 1969 o cerco a Carlos Marighela (morto com quatro tiros,
um deles com seu revólver), no ano seguinte liderou a ação que terminou
com a morte de Joaquim Câmara Ferreira e, em setembro de 1971, participou
da caçada a Carlos Lamarca no sertão da Bahia – três dos maiores
líderes da chamada subversão.
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Alan
Rodrigues
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Revelações Percival e a capa de seu livro |
Coveiro
secreto – Uma das principais revelações do livro é a criação
por Fleury de um cargo de coveiro oficial secreto do Dops. A indicação
do homem que desaparecia com os cadáveres de quem morria em combate
ou pela tortura surgiu depois de uma consulta do 2º Exército ao
então delegado do Serviço Secreto do Dops Romeu Tuma (hoje senador
pelo PFL). O escolhido foi o delegado Alcides Cintra Bueno, conhecido
como “Porquinho”, um católico fervoroso que se confessava depois
dos sepultamentos clandestinos e denunciava os padres identificados
com a linha de pensamento marxista na Igreja. “Porquinho vacilou
apenas quanto à sua formação religiosa. Além de enterrar, ele agiria
de forma piedosa, como se encomendasse aquelas almas, embora não
fosse sacerdote”, diz um trecho do livro. Para não serem reconhecidos,
os corpos tinham os dedos cortados, impedindo qualquer tentativa
de identificação. Percival desnuda a trágica realidade descrevendo
episódios como a reação histérica da mulher de um policial que voltou
para casa com o dedo de um dos mortos no bolso. “Houve casos em
que as cabeças foram decepadas e costuradas em outros corpos”, diz
o jornalista.
O livro
procura traçar um perfil de Fleury com imparcialidade. Esmiúça um
lado desconhecido e intrigante do homem que personificou a violência
nos anos 70. A sua relação amorosa com Leonora, com quem o delegado
viveu um tempo mesmo sendo casado, revela um Fleury romântico e
até dócil. Leonora, que se dizia anarquista e é irmã do jornalista
Raimundo Pereira, antigo militante de esquerda, entregou ao jornalista
um calhamaço de cartas escritas pelo delegado entre 1976 e 1979,
algumas em papel timbrado do próprio Deic. Parte delas está no encarte
de documentos e fotografias inéditas publicados em Autópsia do medo.
Longe dos porões do Dops e do Deic, Fleury era chamado pela amante
de “ronc-ronc”. “Ela dizia que ele roncava muito”, conta Percival.
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| DOCUMENTO
SECRETO SOBRE SERGIPE |
Fleury
teve uma morte misteriosa na madrugada de 1º de maio de 1979, aos
46 anos, em Ilhabela, litoral paulista. Era a viagem inaugural do
barco do policial, o Adriana I, comprado por ele uma semana antes.
Após beber muito no iate de um amigo, no píer do Iate Clube de Ilhabela,
o delegado retornava para o Adriana I quando escorregou e caiu no
mar. Foi retirado ainda com vida, mas morreu poucos minutos depois.
Até hoje sua morte continua cercada por circunstâncias nebulosas
que sustentam a tese de assassinato: não foi realizada necropsia
do seu corpo e Fleury era um exímio nadador. Depois de entrevistar
no ano passado, já à beira da morte, o delegado Celso Telles, chefe
da polícia que proibiu a necropsia, Percival constatou que o inquérito
foi mal elaborado e não contém dados que comprovem uma suposta morte
criminosa. O jornalista também colheu pela primeira vez o depoimento
do casal que passou as últimas horas ao lado de Fleury e remontou
com detalhes a cena em que um garçom lhe oferece champanhe. O delegado
provou um pouco e deixou o resto. Voltou para o seu barco onde ia
dormir, caiu e morreu. “Os indícios de crime são fortes”, diz Percival,
levantando mais uma vez a hipótese de queima de arquivo.
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