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Carlos Drummond, Adriana Wilner e Luiz Antonio Cintra

ISTOÉ – Um ponto polêmico é o da situação do patrimônio líquido do banco no momento da intervenção. Estava ou não estava negativo?
Quércia – Nunca foi negativo. No momento da intervenção, no dia 30 de dezembro de 1994, o Estado só tinha R$ 25 milhões vencidos desde o dia 15 do mesmo mês e a norma é só considerar crédito de difícil recebimento após 60 dias. Mesmo assim, disseram que o patrimônio líquido estava negativo. No BC, a conclusão do relator foi pelo arquivamento do inquérito. Mas avermelharam o balanço para pegar a mim e ao Fleury, como mostrou a revista CartaCapital. Pretendiam forçar a eliminação da dívida do Estado com o Banespa, extinguindo o banco. Foi um crime político.

ISTOÉ – O relator recomendava o arquivamento e o envio das operações com indícios de irregularidades à Justiça.
Quércia – O inquérito não foi arquivado e todas as operações foram enviadas à Justiça. Não há nenhum processo relativo ao período do meu governo.

ISTOÉ – A intervenção retroagiu sobre cinco diretorias do banco. Como se distribui a dívida do Estado com o Banespa entre os vários governos?
Quércia – Retroagiram cinco anos só para me pegar. Decretaram a intervenção no último dia do governo Fleury, em 1994. Em 1990, eu estava no governo. A dívida do governo e de todas as estatais no Banespa, de R$ 3,2 bilhões em 1986, passou para R$ 4,8 bilhões em 1990, computados os R$ 642 milhões da ARO. O restante é juros sobre dívidas anteriores. No final do governo Fleury já estava em R$ 9,4 bilhões, e no governo Covas foi para R$ 56 bilhões, devido aos juros do Plano Real.

ISTOÉ – Porque o sr. acha que a intervenção foi feita para pegá-lo? Qual é o indício?
Quércia – O principal é o seguinte: a responsabilidade civil só prescreve depois de 20 anos. Para abranger todos os que fizeram dívidas do Estado no Banespa, tinham que pegar todas as administrações durante 20 anos, incluindo as de Franco Montoro, Paulo Maluf, Paulo Egydio Martins. Mas só retrocederam até o meu governo.

ISTOÉ – Qual dessas duas causas apontadas pelo sr. pesou mais, o desejo de pegá-lo ou a intenção de acabar com os bancos estaduais?
Quércia – O objetivo maior é acabar com os bancos estaduais. É a orientação do FMI, do ministro Pedro Malan, que é ligado mais a esse pessoal lá de fora do que ao interesse do país. Na cabeça dele e do Gustavo Loyola, que é um criminoso que que foi presidente do Banco Central, o processo é acabar com os bancos estaduais. Mas acabar com o Banespa não é muito diferente do que acabar com o Banco do Brasil.

ISTOÉ – Por que o sr. diz que Gustavo Loyola é um criminoso?
Quércia – Porque ele era presidente do BC quando eles decretaram a intervenção no Banespa. Não podia fazer isso, porque o maior devedor do banco, que era o Estado São Paulo, não estava quebrado.

ISTOÉ Por que é ruim privatizar?
Quércia – Eu acho o fim do mundo privatizarem o Banespa. Sempre deu lucro, é um bom negócio para o Estado. Por que vender? Todos os grandes bancos ambicionam ter o Banespa, porque ele tem uma estrutura bancária sem igual no Estado. Estruturou a agricultura, o interior, tem uma íntima conexão com a economia de São Paulo, sobretudo com a de pequeno e médio portes. O que o Banespa fez pelo Estado nenhum banco privado faria. Tirar isso de São Paulo é um crime. O Estado perde a força de fazer investimentos de acordo com o interesse da sua estrutura. Acabar com o Banespa é uma proposta indecente. Mas para qualquer banco que eventualmente o adquirir, é um grande negócio.

ISTOÉ – A importância do Banespa se restringe a São Paulo?
Quércia – O Banespa ajudava o Brasil, tinha prestígio em Nova York e na Europa. E tem mais: a maior parte da dívida pública de São Paulo foi feita por determinação do governo federal. O Banespa foi obrigado a ser agente financeiro de todos os avais de empréstimos anteriores, feitos pelo BNH, BNDES, pela área de energia elétrica. Essa é a dívida de São Paulo. Quando o ex-ministro Delfim Netto precisava pegar dólares no exterior, na época das crises de balanço de pagamentos do Brasil, que vem de 1978, mandava captar recursos pelo Banespa. Pegava lá fora e repassava para Cesp, Eletropaulo. O prestígio do Banespa era idêntico ao do Banco do Brasil. Hoje querem privatizar para entrar dólares e resolver o problema do balanço de pagamentos, é a mesma coisa.

ISTOÉ – Os bancos mais cotados para comprar o Banespa pretendem demitir metade dos funcionários. Com o sr. vê isso?
Quércia – O governo está brigando para conservar os empregados do Mappin. Mas não tem preocupação nenhuma com os empregados do Banespa. Sendo do Estado, dando lucro, o Estado não pensaria em demitir ninguém. Sendo de uma empresa privada, a primeira coisa que ela vai fazer é enxugar para dar mais lucro ainda.

ISTOÉ – Não haveria nenhuma consequência boa da privatização?
Quércia – Eu não vejo nenhuma. Porque banco por banco, já há uma porção de particulares. Precisamos de um banco estadual que tenha interesse social.

ISTOÉ – Qual é a divisão de responsabilidades pelo aumento da dívida?
Quércia – O Covas é o maior responsável, pela sua indecisão. Em vez de fazer um acordo no começo, deixou a dívida dobrar.

ISTOÉ – Mas havia uma proposta.
Quércia – Logo que o secretário da Fazenda Yoshiaki Nakano assumiu, apresentou aos interventores uma proposta para parcelamento em 20 anos. Não foi considerada.

ISTOÉ – O Banco do Brasil foi manipulado para criar condições para a intervenção?
Quércia – Em 1994, logo depois do Plano Real, quando começaram a enxugar a base monetária, o Banespa precisou recorrer ao redesconto. A partir de agosto, o BC começou a dar dinheiro para o Banespa através do Banco do Brasil. No dia 29 de dezembro, o BC mandou o Banco do Brasil não dar mais recursos ao Banespa. Também avisaram o Bradesco para não ajudar. Enforcaram o banco para decretar a intervenção. A dívida era de R$ 9,4 bilhões; não teria sido muito mais interessante para o Estado e a União emprestarem o necessário para pagar essa dívida logo depois do Covas e o Fernando Henrique assumirem, em janeiro de 1995? Por que seguraram esse endividamento por três anos, sendo que tinham resolvido o problema da Caixa Econômica Federal antes do Plano Real, e deram R$ 8 bilhões para o Banco do Brasil?

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