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Cinema I

Lágrimas amargas
Lars von Trier faz de Dançando no escuro um espetáculo triste, grandioso, que promete emocionar todos os tipos de platéias

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Ivan Claudio

Björk, com Catherine: atuação irrepreensível como a operária que está ficando cega

Num mercado habitualmente dominado pelas produções de Hollywood, Dançando no escuro (Dancer in the dark, Dinamarca/Suécia, 2000), com estréia no Rio de Janeiro e São Paulo na sexta-feira 24, promete ser um dos poucos filmes estrangeiros que neste ano irão roubar as atenções do público em geral. Crítica impiedosa aos Estados Unidos e à cegueira do cinema contemporâneo, o excelente melodrama musical do dinamarquês Lars von Trier, que em maio ganhou a Palma de Ouro no Festival Internacional do Filme de Cannes, provoca reações conflitantes. Na dúvida em relação ao ataque ou total adesão ao filme, vá munido de lenços de papel. Porque é mesmo comovente o calvário vivido pela personagem principal, uma operária tcheca que imigra para os Estados Unidos nos anos 60, vivida de forma irrepreensível pela cantora islandesa Björk, premiada como melhor atriz em Cannes. Sua entrega ao papel, o primeiro de sua carreira, foi uma experiência tão desconfortável que ela jurou nunca mais atuar.

Impacto – A interpretação de Björk é realmente intensa. Não pela técnica, mas pela emoção com que investiu na personagem, uma figura tão frágil e inocente como as heroínas vividas pela italiana Giulietta Masina nas histórias mirabolantes e cheias de sentimento de Federico Fellini. O diretor Trier pediu aos jornalistas para não contarem muito do enredo de Dançando no escuro, sob o risco de roubar do espectador sua força e impacto. Não se trata de uma jogada de marketing. Até onde pode ser contado, o filme acompanha a vida de Selma, pequena e encantadora funcionária da J. Anderson Tool Co., fábrica de artefatos de metal de uma cidade qualquer do interior americano. Trier nunca havia posto os pés nos Estados Unidos. Filmou na Suécia e na Dinamarca. Talvez por conta desta opção, os americanos acharam o visual estranho. Mas a paisagem inverossímil é o que menos importa.

AP
Vencedora em Cannes: brigas com o diretor e vestido rasgado com os dentes durante as filmagens

O cerne da questão está na via-crúcis de Selma. Com sua estatura diminuta, ela pilota uma daquelas máquinas feitas para brutamontes. Para completar sua dor, está ficando cega. Foi por causa da doença congênita que imigrou para os Estados Unidos. Trabalha sem parar, da manhã até tarde da noite. Quer juntar dinheiro e assim pagar a operação de seu filho Gene, de 12 anos, que sofre do mesmo mal. Selma mora nos fundos da casa do policial Bill (David Morse), tem na amiga Cathy (Catherine Deneuve) um anjo protetor e vive recusando os amores do grandalhão Jeff (Peter Stormare). Contada desta maneira, a história pode parecer um dramalhão. Até contém os mesmos elementos, mas Trier acrescentou truques estilizados de musicais à tragédia realizada dentro do melhor estilo documentário em vídeo digital e câmera na mão. Em determinados momentos, Selma ameniza sua desgraça cantando e dançando como Julie Andrews ou Judy Garland. Numa destas coreografias, nas quais Trier usou 100 câmeras de vídeo, a máquina em que Selma trabalha quebra. Ela é demitida e ainda tem suas economias de “dois mil e cinquenta e seis dólares e dez centavos” roubadas pelo amigo Bill. O que acontece daí em diante é de cortar o coração.

Tristeza – Numa das cenas mais tristes e belas do filme, Jeff – ainda ignorante da progressiva cegueira da amada – segue Selma em sua caminhada para casa. Para não errar o trajeto, ela costuma se guiar batendo os pés nos trilhos do trem. O trem se aproxima, Jeff percebe o perigo e pergunta se ela não enxerga. Como nas passagens absurdas dos musicais, Selma responde cantando I’ve seen it all (já vi tudo), em meio a uma coreografia que lembra a famosa dança dos machados de Sete noivas para sete irmãos, filme de Stanley Donnen. Diz a música: “Já vi tudo/vi árvores/folhas de salgueiro dançando no vento/vi um amigo matar seu amigo (...)Vi o que eu fui – sei o que serei/já vi tudo – não há mais nada para ver.”

Há muito tempo Trier planejava fazer um musical. Quando viu o clipe de Björk para It‘s oh so quiet, de 1995, que homenageia os musicais hollywoodianos e os do francês Jacques Demy, estrelados por Catherine Deneuve, o diretor não teve dúvidas em relação a quem interpretaria Selma. Para convencer a cantora a atuar, antes pediu a ela que compusesse a trilha sonora. Björk demorou três anos para terminar o trabalho. Até aí tudo bem. O pior veio durante as filmagens, quando a relação entre os dois chegou às raias da loucura. Numa das brigas que protagonizaram, Björk destruiu seu vestido a dentadas e saiu correndo descalça pelas ruas de Copenhague. Depois ausentou-se por quatro dias, levando Trier a quebrar dois monitores de raiva. Muitas vezes é de desentendimentos e choques de egos que nascem as verdadeiras obras-primas. 

 

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