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Tratamento
Que
Bafo!
Entidade incentiva a delação de portadores de mau hálito e
cria polêmica entre especialistas
Juliane
Zaché
Provavelmente
você conhece algum colega de trabalho ou parente com mau hálito.
Algumas vezes esse incômodo, que não escolhe sexo nem idade para
aparecer, pode estar bem próximo, presente no parceiro ao lado.
Para tentar “ajudar” os portadores de halitose (o termo médico para
designar o problema), a Associação Brasileira de Estudos e Pesquisas
dos Odores da Boca (ABPO), em Salvador, teve um idéia, no mínimo,
ousada. Lançou no seu próprio site um “click-mau hálito”. Quem quiser
delatar um conhecido – isso mesmo – deve acessar o endereço http://www.abpo.com.br
e preencher os dados da vítima. A entidade se compromete a manter
em sigilo o nome do denunciante. Depois, ela envia pelo correio
ou por e-mail uma carta, explicando como deve ser tratado esse problema,
que de acordo com a ABPO atinge 40% dos brasileiros.
Confusão
– Mais de dez mil pessoas já receberam as recomendações da associação.
“O espaço foi criado porque as pessoas não sentem o próprio hálito
e muitas vezes quem convive com elas não tem coragem de dizer”,
justifica a dentista Ana Kolbe, presidente da associação. “Não estamos
livres de piadas de mau gosto e pedimos a elas que ignorem a carta
se esse for o caso, mas isso raramente acontece, pois 40% das mensagens
são dos próprios portadores pedindo ajuda”, garante. Porém, nem
todos vêem com bons olhos a iniciativa da associação. “É uma intromissão
na vida do indivíduo”, opina o gastroenterologista Flávio Steinwurz,
vice-presidente de gastroenterologia da Associação Paulista de Medicina.
“O ideal é uma pessoa próxima contar ao portador”, diz Thomas Szego,
gastroenterologista do Hospital Albert Einstein. Outro ponto polêmico
com relação ao mau hálito são suas reais causas. Qual órgão do corpo
é responsável pelo cheiro desagradável. Boca ou estômago? Um levantamento
feito em 1998 pela Universidade de São Paulo (USP), campus de Bauru,
com 1.680 doentes, mostrou que 95% dos fatores desencadeantes estão
na boca, como inflamação na gengiva ou cárie. “O primeiro problema
exala um odor ruim devido à bolsa de pus que se forma e o segundo
por causa do estrago no dente”, afirma Olinda Tarzia, dentista e
bioquímica, coordenadora da pesquisa. Quem faz coro com ela é o
otorrinolaringologista Luc Louis Maurice, da Universidade Federal
de São Paulo (Unifesp). “O cigarro e a bebida deixam um odor fétido
na língua”, diz. Mas a tese não é consensual. O médico Steinwurz,
por exemplo, defende o antigo conceito de que o “bafo de onça” é
geralmente provocado por problemas no estômago, como gastrite. “O
distúrbio é causado pelo excesso de ácido clorídrico, o que gera
o mau hálito. Para combatê-lo, devem ser usados antiácidos”, explica.
Para
a médica Ana Kolbe, a polêmica existe porque associou-se estômago
vazio com halitose. É verdade, mas é um fenômeno passageiro. De
acordo com a especialista, quando se fica mais de quatro horas sem
comer, o corpo sofre com hipoglicemia. Ou seja, não há açúcar suficiente
para ser queimado e, consequentemente, não há como fabricar energia.
O corpo, então, consome ácido graxo (gordura), que está presente
na corrente sanguínea. O problema é que ele possui um odor fétido
e é volátil. Quando o indivíduo expira e acontece a troca de gases
no pulmão – oxigênio e gás carbônico –, o cheiro ruim do ácido graxo
é eliminado. É justamente por isso que a maioria das pessoas tem
halitose pela manhã. Mas basta se alimentar e o mau cheiro desaparece.
Tratamento
– Os especialistas concordam em pelo menos um ponto. O stress e
os medicamentos (em especial os controlados, como os antidepressivos)
estão entre os responsáveis pelo mau hálito. “Eles inibem a produção
de saliva, o que aumenta a quantidade da proteína mucina. Ela atrai
restos de alimentos e, dessa maneira, forma-se na língua uma camada
branca, chamada saburra”, explica Ana Kolbe. Nesses casos o melhor
remédio é fazer uso de um aparelho para limpar a língua, comercializado
pela ABPO. “Prefira o limpador à escova de dente, pois ele não dá
ânsia de vômito”, esclarece Ana. O administrador F.R.B, 35 anos,
do Rio, fez uso do pequeno equipamento. Há 15 anos ele começou a
ter halitose por tomar antidepressivos diariamente. “Passei a utilizar
o aparelho e meu hálito melhorou”, conta. Como há vários fatores
ligados à halitose, para que qualquer tentativa de combate dê certo
é preciso primeiro descobrir a causa. A descoberta pode ser feita
a partir de uma boa entrevista com os pacientes. Depois, o tratamento
precisa ser seguido à risca. “Assim é possível controlar e em alguns
casos até curar o mau hálito”, garante Ana Kolbe.

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