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Capa Medidas
extremas
Especialistas alertam para os riscos dos tratamentos radicais e mal indicados
que prometem perda de peso em tempo recorde Juliane
Zaché, Lena Castellón e Lia Bock
Montagem
Roberto Weigand sobre foto de Alex Soletto |  |
Foram quatro
meses de agonia. No dia 13 de junho, Paulo Tarso Flecha de Lima Júnior,
38 anos, 1,75m e 146 quilos, submeteu-se a uma cirurgia de redução
de estômago no hospital Mater Dei, de Belo Horizonte. Em geral, nessa intervenção,
a alta é dada após cinco dias. Mas complicações pós-operatórias
obrigaram o paciente filho do embaixador do Brasil na Itália, Paulo
Tarso Flecha de Lima a ficar 61 dias no Centro de Terapia Intensiva (CTI).
No dia 3 de setembro, Paulinho, como era conhecido, foi transferido para o hospital
Sarah Kubitschek, de Brasília. Na segunda-feira 16, ele morreu vítima
de falência múltipla de órgãos. A família não
comenta o caso. Mas a morte de Paulinho gerou polêmica. Primeiro porque
as instituições não se entendem quanto ao atendimento prestado.
O hospital mineiro diz que o quadro do paciente, no momento da transferência,
não era grave. Em Brasília, dizem que ele, além de estar
tetraplégico, chegou com infecção pulmonar. A segunda razão
da polêmica é porque o episódio colocou em evidência
os riscos das cirurgias de redução estomacal, oferecidas para quem
sofre de obesidade mórbida, doença caracterizada pelo Índice
de Massa Corporal (IMC) peso dividido pela altura ao quadrado superior
a 40 ou a 35, se o doente tiver complicações como diabete. Com IMC
de 47,7, Paulinho precisava de tratamento urgente.
O
que aconteceu com Paulo Tarso | |
13/6
Submete-se a uma cirurgia de redução estomacal no hospital Mater
Dei (MG). Aos 38 anos, pesava 146 quilos 15/6
Sofre uma inflamação pulmonar causada pela aspiração
de secreções e respira com auxílio de equipamentos 14/8
Deixa o CTI do Mater Dei 4/9
Recebe alta e é transferido para o hospital Sarah Kubitschek, em Brasília,
para fazer reabilitação motora Setembro
Os médicos do Sarah examinam o paciente e constatam tetraplegia. Começa
terapia respiratória intensa para controle de grave infecção
pulmonar 4/10
O paciente sofre com insuficiência respiratória provocada pela infecção
pulmonar Outubro
O quadro evolui para insuficiência renal e falência total dos órgãos 16/10
Morre o filho de Lúcia e do embaixador Paulo Tarso Flecha de Lima (à
direita na foto) | Foto:
Estado de Minas |  |
A operação
foi feita pelo cirurgião Marcos da Costa. Ele conta que no dia 15 de junho
Paulinho teve inflamação nos pulmões causada por aspiração
de secreções. Uma pessoa ligada à família diz que
ele se recuperou. Mas ainda estava com atrofia muscular porque o peso o impedia
de se movimentar. Decidiu-se por sua ida ao Sarah. Em nota, a instituição
diz que Paulinho chegou ao hospital tetraplégico e com os pulmões
comprometidos pela infecção. A fonte ouvida por ISTOÉ nega
a versão. Contendas à parte, a história de Paulinho é
a triste tradução das estatísticas de riscos das cirurgias
redutoras de estômago (ou gastroplastias). Os índices de complicações
pós-operatórias variam entre 2% e 4% dos casos. Entre elas, estão
problemas decorrentes da técnica, como não cicatrização
e perfuração do estômago. Há ainda o risco de infecções
hospitalares. A taxa de mortalidade é de 0,6% a 1%. Os números não
abalam os candidatos à gastroplastia. A cada ano, mil cirurgias do gênero
são feitas no País. O número de obesos mórbidos
está aumentando. Há cerca de um milhão de brasileiros nessas
condições, revela o cirurgião Arthur Garrido, do Hospital
das Clínicas de São Paulo. Eles são minoria entre os 40 milhões
de obesos brasileiros. Cirurgias
Para reduzir o estômago, duas técnicas são empregadas:
gastroplastia em Y e a banda gástrica. A primeira é a mais usada
aqui. Paulinho passou por essa intervenção (leia quadro à
pág. 120). Na banda gástrica, o estômago é rodeado
por uma cinta de silicone. Perto dela, é colocado um balão, que
pode ser inflado e, assim, dificultar a passagem de alimento. As condições
do doente têm de ser bem avaliadas. O gerente Ricardo Coyama, 35 anos, hoje
com 112 quilos, passou por exames rigorosos. Fui avisado dos riscos e fiquei
com receio. Levei dois anos para decidir, lembra. Em março, foi operado.
Logo após a cirurgia teve infecção nos pontos, mas sem maiores
traumas. Perdeu 55 quilos. Cuidados assim são fundamentais. Os pacientes
só devem ser operados após check-up e precisam estar preparados
para a mudança de hábitos que virá, explica Thomas
Szegö, do Hospital Albert Einstein, de São Paulo.
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