Consumo
A volta da fada verde
O absinto, a lendária bebida dos artistas e poetas, começa a
ser comercializada no Brasil
Camilo
Vannuchi
| Ricardo
Giraldez |
 
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Natureza-morta, de Van Gogh, Mulher bebendo absinto, de Picasso
e O absinto, de Degas |
A “fada
verde” está solta. Varrido da face da Terra durante as primeiras
décadas do século XX, o absinto volta a ser comercializado no Brasil.
A diabólica infusão de ervas cor de esmeralda tornou-se uma lenda
etílica ao fazer a cabeça dos principais artistas da belle époque,
conquistados mais pelos efeitos que provocava do que por seu amargo
sabor de anis. Por volta de 1910, o principal ingrediente da poção
– uma planta alucinógena de nome Artemisia absinthium – foi apontado
pelos moralistas da Europa como responsável por alucinações, surtos
psicóticos e até mortes. O resultado foi sua proibição. Que outra
justificativa além do absinto poderiam encontrar para o comportamento
excêntrico de Van Gogh, consumidor fiel da bebida? E como explicar
o turbilhão criativo que percorria os neurônios de Picasso, Toulouse
Lautrec, Oscar Wilde, Paul Verlaine, Baudelaire e Rimbaud? Virou
artigo de tráfico, comercializado no câmbio negro em quase todo
o velho continente. Hoje, a produção legal da esmeralda engarrafada
é restrita à República Tcheca e Portugal, de onde começa a ser importada.
Para ser admitida no Brasil, teve sua gradação alcoólica diminuída
de 57% para 53,5% – isso mesmo: mais da metade é álcool puro, uma
paulada. Tudo porque a legislação brasileira não permite gradação
superior a 54 graus. Apesar de a porcentagem original ser de 68%,
o absinto continua sendo a bebida mais forte do mundo (ver quadro).
Tão forte que a sutil diferença entre as versões portuguesa e brasileira
passa totalmente despercebida. Seus goles amargos chegam a provocar
repulsa se bebericados em estilo cowboy. Não é de se espantar que,
após duas ou três doses, as paredes do bar assumam um fantástico
aspecto esverdeado, composto com pinceladas expressionistas...
| Ricardo
Giraldez |
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| O
empresário Lalo Zanini é o responsável pela novidade |
Campanha
– O responsável – ou irresponsável? – pela novidade é o empresário
Lalo Zanini, proprietário dos restaurantes paulistanos Limone, Sprazza
e Jotaka. “Um amigo trouxe de Portugal uma garrafa de absinto no
começo do ano. Quase fiquei louco quando vi a bebida na mão dele.
Peguei o telefone do produtor no rótulo da embalagem e iniciei minha
campanha para aprovar sua importação junto ao Ministério da Agricultura”,
conta Zanini. De lá para cá, caixas e caixas começaram a chegar
aos três restaurantes do empresário e, somente no começo do mês,
sua venda foi estendida a outros estabelecimentos. Em breve, o artigo
de luxo chegará às prateleiras do supermercado Pão de Açúcar por
R$ 46 a garrafa. Nos restaurantes, seu preço fica em torno de R$
80.
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Ritual
– Tradicionalmente, o consumo de absinto cumpre um ritual. Água
gelada é vertida lentamente sobre um copo com a bebida, atravessando
uma colher perfurada que sustenta um torrão de açúcar. Drinques
foram recentemente criados para homenagear os mais célebres apreciadores
do mito, como Hemingway (duas doses de absinto diluídas em uma taça
de champanhe com gelo) e Monet (uma dose de absinto e duas doses
de soda misturadas com hortelã amassado e gelo). José Maria Meira,
chef do Restaurante Limone, resolveu testar o sabor da bebida em
seus pratos. Concebeu um cardápio especial, utilizando o absinto
em patês, molhos para salada e até em pescados. O prato cativa pelo
contraste entre o sabor adocicado das maçãs e o amargo sumo da fada
verde.
| Poção
mágica |
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Hipócrates,
o pai da medicina, costumava receitar uma planta chamada Artemisia
absinthium para tratar anemia, asma, reumatismo e cólicas
menstruais. Em 1792, um médico francês de nome Pierre Ordinaire
se surpreendeu ao encontrar, nos campos suíços, a famosa espécie
que aparecia em seus livros. Começou a fabricar uma poção
composta por 16 ervas, dentre as quais camomila, melissa e
anis. Como a principal era o absinto, seu nome foi dado à
droga. Não demorou para Ordinaire descobrir que o efeito da
mistura poderia ser potencializado em solução alcoólica. Mais
precisamente 70% de álcool e 30% da infusão de ervas compunham
o elixir.
O
principal princípio ativo do absinto é uma substância tóxica
chamada tuiona, capaz de manter as células cerebrais em permanente
estado de excitação. Tuiona em excesso pode provocar convulsões
e até falência do fígado, além de conferir à bebida seu caráter
alucinógeno. Hoje, a porcentagem da toxina presente na artemísia
é controlada pela União Européia e foi diminuída 26 vezes.
Água, açúcar, anis verde e corante juntam-se ao álcool e à
infusão de ervas na fórmula do destilado, guardada a sete
chaves pela produtora portuguesa Neto Costa. Além da artemísia,
entram na infusão sementes de funcho, hisopo e erva cidreira.
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