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Língua
Ferida
Aldo
Rebelo, deputado do PCdoB, propõe polêmico projeto de defesa do
português e diz que o uso do estrangeirismo é uma forma de exclusão
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TRECHOS DA ENTREVISTA |
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Florência
Costa e Ines Garçoni
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Alan
Rodrigues
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“O futebol se tornou esporte de classe média. Virou mercadoria,
foi privatizado”
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Hard,
light, diet, drink, sale, print, over, mouse. Palavras como
essas causam arrepio no deputado federal do PCdoB Aldo Rebelo (SP),
autor de um projeto de lei de defesa da língua portuguesa, culta
e bela, porém, ultrajada, segundo ele. Mas, ao levantar essa bandeira,
o parlamentar provocou polêmica e chegou a ser apontado como xenófobo
e autoritário, por querer limitar o uso de palavras estrangeiras,
a maioria de origem inglesa. Para ele, um exemplo do exagero a que
chegou a influência americana no País é a Barra da Tijuca, bairro
carioca que ele chama de “sucursal de Miami”. Cuidadoso e preciso
com as palavras, Rebelo, no entanto, foi traído uma vez pelo subconsciente
durante duas horas de conversa. Soltou a palavra outdoor. Enrubescido,
corrigiu-se: “um grande cartaz”. O nacionalismo dele não se restringe
à seara das letras. Comunista, Rebelo não poupa elogios aos militares
brasileiros por rejeitarem a idéia de que os americanos possam usar
o nosso território para seus planos de combate ao narcotráfico e
à guerrilha na Colômbia. Torcedor do Comercial de Viçosa (AL), Flamengo
e Palmeiras, Rebelo chutou a antiga idéia de que o futebol é o ópio
do povo, alimentada no passado por comunistas brasileiros. O deputado
é autor do requerimento que criou a CPI do Futebol na Câmara. “Nem
nas CPIs do Collor e do Orçamento a pressão contra a instalação
foi tão forte”, desabafou, lembrando que técnicos, governadores
e até ministros agiram nos bastidores para impedir a investigação
sobre os escândalos que derrotam o esporte nacional.
ISTOÉ
– Por que apresentar um projeto de lei que restringe os estrangeirismos?
Aldo Rebelo – Hoje, por causa da queda da auto-estima do brasileiro,
não se diz mais, por exemplo, “começar uma reunião”. Se diz dar
um start. A maioria da população não conhece o inglês. Além de dificultar
a comunicação, o uso indiscriminado da língua inglesa constrange
quem não a domina. O projeto procura coibir este tipo de abuso.
Mas a idéia central não é proibir e sim melhorar o ensino da língua
portuguesa. Olavo Bilac disse que uma Nação entra em decadência
quando perde o amor pelo seu idioma. O projeto determina que os
poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, além das instituições
de ensino e a Academia Brasileira de Letras, adotem medidas para
elevar a qualidade da aprendizagem do português. Queremos ainda
que o uso da língua seja obrigatório no próprio governo. O Banco
do Brasil não poderia, por exemplo, fornecer um serviço chamado
Personal Banking. Nem o IBGE poderia abrir uma página na internet,
dirigida à juventude, batizada de IBGE Teen.
ISTOÉ
– Não há um sentimento anti-americano nessas idéias?
Aldo – De forma nenhuma. Acho necessário a população brasileira
conhecer outros idiomas, inclusive o inglês. Quem fala
bem o inglês e o português provavelmente não gosta de misturar as
duas. Não tenho nada contra a língua estrangeira. Tem jornais no
Brasil publicados em italiano, japonês e etc. Não queremos proibir
isso. Inclusive acho que o ensino do espanhol nas escolas brasileiras
até tardou, já que temos quase 16 mil quilômetros de fronteira com
países de língua espanhola. O problema é substituir o nosso idioma
por outro.
ISTOÉ
– Mas isto está acontecendo?
Aldo – Sim. Entrega a domicílio virou delivery, liquidação foi
trocada por on sale, eliminatória, melhor de três ou semifinal transformaram-se
em playoffs. Por que uma loja de produtos para animais tem que se
chamar pet shop? O Banco do Brasil fez uma pesquisa com os clientes
e constatou que eles condenam o uso de palavras em inglês. Além
disso há aportuguesamentos de gosto duvidoso, como startar, deletar,
printar. Isso é diferente do chamado empréstimo. Há a necessidade
de atualizar o idioma, criando palavras e expressões a partir dele
próprio ou emprestando e adaptando termos de outros. Temos centenas
de expressões de origem árabe, como açúcar, almirante, azeite, alferes.
Mas nós fizemos o aportuguesamento. A palavra futebol é de origem
inglesa (football) e foi adaptada para o português.
ISTOÉ
– E a mania de batizar os filhos com nomes em inglês?
Aldo – É outro absurdo. Mas não sei se é o caso de proibir,
embora seja preocupante. Em Curitiba, um pai viu a expressão “Made
in USA” e batizou a filha com o nome de Madinusa. Sabe por que em
Portugal tem tanta gente com o nome Joaquim e Manoel? Porque lá
a lei proíbe batizar uma criança com nomes como John, Washington,
Shirley...
ISTOÉ
– Na Barra da Tijuca fizeram uma réplica da Estátua da Liberdade.
O que o sr. achou disso?
Aldo – A Barra virou uma sucursal de Miami. É um abuso que revela
a queda da auto-estima de uma parcela minoritária da classe média
brasileira. Nada contra quem queira ir a Miami. Mas não se pode
impor ao País os padrões culturais de Miami. É aquele tipo de gente
que vai na livraria do aeroporto e pede um romance de Sidney Sheldon
achando que está consumindo literatura de primeiro mundo.
ISTOÉ
– Qual é a saída para as palavras inglesas que surgem com a informática?
Aldo – Se não tiver tradução, a saída é encontrar no português
alguma palavra parecida. Senão, deve-se aportuguesar. Boa parte
das palavras inglesas da informática tem origem latina. Veja o caso
de site. Abrindo um dicionário inglês-português vamos encontrar
“site: sítio, local, etc”. Mas o processo de substituição é demorado.
Por exemplo, há 20 anos ainda se dizia que narrador de futebol era
speaker. Goleiro era goalkeeper. Escanteio era corner.
ISTOÉ
– O sr. conhece alguém que tenha tido problemas com o uso abusivo
do estrangeirismo?
Aldo – Várias pessoas, que inclusive me escrevem. Um cidadão
do Mato Grosso, por exemplo, comprou um equipamento eletroeletrônico
e não entendia o que estava escrito. Apertou uns botões e perdeu
o aparelho. Uma senhora no Rio Grande do Sul se deparou com uma
loja chamada Sweet Way e, quando o filho foi perguntar como se lia,
ela pronunciou suétvai.
ISTOÉ
– O Brasil foi muito influenciado, até o início do século, pelo
francês. O sr. considera esta influência também tão negativa?
Aldo – O francês é o idioma que mais fez empréstimo ao português.
Tem mais de três mil palavras aportuguesadas, como abajur, toalete,
garagem, chofer. Foi positivo pois trouxe palavras que não existiam
na nossa língua, assim como o árabe. Nesse aspecto foi uma contribuição.
Mas, se na época tivesse havido um esforço, o português poderia
ter sido enriquecido com a criação de expressões próprias.
ISTOÉ
– E a influência do inglês, não tem algum fator positivo?
Aldo – Em alguns aspectos, sim. Na ciência, especialmente em
áreas onde o Brasil não realiza pesquisa, e mesmo no setor de tecnologia,
nós não temos outro recurso senão fazer os empréstimos.
ISTOÉ
– O sr. não teme ser considerado autoritário?
Aldo – Não. Autoritário é querer impor palavras estrangeiras.
O uso de vocábulos de outro idioma é uma forma de exclusão, de se
diferenciar desta imensa maioria que só sabe e só se comunica em
português.
próxima>>
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