Capa
Tão perto, tão longe
Pouca intimidade pode ser mais devastadora para o casamento do que a a
ausência do sexo e da paixão Sara
Duarte e Valéria Propato
| Alex
Solletto |
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Jay, roteirista
de tevê, 30 anos, e Susan, funcionária de uma editora de livros,
são casados há seis anos. Faz algum tempo, o relacionamento perdeu
o vigor. Há um mês eles não transam. Se conversam, é
sempre para falar das crianças. Ele reclama que ela trabalha demais e não
lhe dá atenção. Ela se queixa de que ele é incapaz
de manter um diálogo. Essa noite, eles jantam calados. Na outra sala, os
dois filhos pequenos assistem, sonolentos, a uma reprise de O Mágico de
Oz. Entre uma garfada e outra, Jay lê o jornal. Susan, que sempre detestou
vê-lo distraído durante as refeições, nem nota a provocação.
Liga a tevê e põe os óculos para assistir à novela.
Jay se surpreende com a mulher tão impassível. Justamente hoje,
quando ele se preparava para iniciar uma briga e anunciar que está indo
embora de casa! Talvez seja melhor eu deixar um bilhete informando: Cara
Susan, não vou voltar. Quem sabe telefono amanhã à tarde.
Ou faço uma visita num fim de semana, elocubra.
A cena foi extraída do romance Intimidade, do escritor inglês de
origem paquistanesa Hanif Kureishi, e está sendo transformada em filme
pelo diretor francês Patrice Cheréau (Rainha Margot). Apesar de ter
sido fermentada pela imaginação do escritor, a história é
reveladora e muito comum nos relacionamentos modernos. Mesmo dormindo juntos há
anos, os casais podem sofrer de absoluta falta de intimidade. Deixam de dialogar
porque um presume saber o que o outro está pensando. Algum tempo depois,
a empolgação inicial cede lugar à indiferença e a
uma convivência monossilábica. Pelos cálculos do IBGE, todo
ano no Brasil um em cada sete casamentos termina em divórcio. De acordo
com o último levantamento, feito em 1995, as mulheres se separam mais cedo,
entre 25 e 34 anos. E os homens, entre 30 e 39 anos. Cerca de 70% dos rompimentos
ocorrem após o décimo ano de casamento. Um dos motivos recorrentes,
observado pela psicóloga Maly Delitti, da Clínica Psicológica
da PUC de São Paulo, é a falta de comunicação. Dos
dois mil casais que a procuraram para fazer terapia, pelo menos 80% chegaram ao
consultório com essa queixa. Depois de anos vivendo juntos, geralmente
tem-se a pretensão de conhecer o cônjuge tão a fundo a ponto
de não ser preciso nem falar o que se sente, conta Maly. Quando
alguma coisa vai mal, cada um se fecha e fica esperando que o outro adivinhe o
que se passa, explica a psicoterapeuta.
| André
Sarmento |  |
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Sônia e Eduardo recorreram à terapia com a psicóloga Maly para aprender a se expressar
| Pacientes
de Maly, a paulistana Sônia Bindi Gomes, 37 anos, e seu marido, Eduardo
Romão Gomes, 42, viveram essa experiência e viram seu casamento de
11 anos quase ruir. No início do romance, a sintonia era completa. Estudavam
juntos na Faculdade de Educação Física, tinham os mesmos
interesses. Até o dia em que ele começou a praticar esgrima e passou
a recusar os programas de lazer com a família. Sentindo-se sozinha, Sônia
chegou a ponto de dispensar a opinião do marido para tomar qualquer decisão.
Eu já previa as respostas dele e não queria conversar. Depois
de tanto tempo, ele deveria saber o que eu pensava, reclama Sônia.
Eduardo se chocou quando ela pediu a separação: Ela nunca
deixou claro o que eu estava fazendo de errado, espanta-se Eduardo. Depois
de oito meses afastados, o casal decidiu reatar. E recorreu à terapia conjunta
para resolver os problemas de comunicação. No tratamento, a psicoterapeuta
Maly Delitti coloca Sônia e Eduardo frente a frente para conversar. Como
duas crianças, eles estão aprendendo a expressar seus sentimentos
sem rodeios.
Autor do livro Fear of intimacy (Medo da intimidade), o psicólogo americano
Robert W. Firestone decreta que a principal causa para a falência dos relacionamentos
amorosos é a falta de intimidade. Na opinião dele, transar bem,
conhecer as preferências do outro e perguntar como foi o dia quando ele
ou ela chega do trabalho está longe de refletir uma comunhão perfeita.
| Ricardo
Giraldez |  |
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Se achar a parceira ideal, Tironi promete largar a chuteira |
Papo-furado
Embora hoje maridos e mulheres dialoguem mais do que no passado
quando elas cuidavam da casa e nem sequer sabiam o salário dos parceiros
, a maior parte das conversas, segundo Firestone, tem muito blablablá
e pouca substância. Apela-se para o famoso chavão precisamos
discutir a relação, mas nem sempre se expõe o que realmente
se sente. A intimidade surge quando as pessoas são capazes de se
comunicar aberta e honestamente, dividindo não apenas carinho, mas segredos
e experiências, explica. Ser íntimo de alguém, ele ensina,
é não ter receio de mostrar o que se é, até mesmo
nos defeitos, medos e inseguranças.
O instinto
de defesa, o individualismo, o medo de assumir compromissos, o excesso de trabalho
e a falta de tempo são todos inimigos em potencial da intimidade, na avaliação
do psicólogo. A repetição de modelos herdados dos pais também
pode ser determinante. A criança que cresceu sentindo-se rejeitada
pela mãe, por exemplo, terá dificuldade em se abrir com o parceiro,
com medo de ser machucada de novo, analisa Firestone. Embora a tese seja
baseada na realidade americana, onde 50% dos casamentos acabam em divórcio,
ela também pode ser aplicada ao Brasil. Como a psicoterapeuta Maly, o psiquiatra
paulista Moacyr Costa também tem visto muitos casos parecidos em seu consultório.
As pessoas estão trabalhando muito e se dedicando pouco à
relação. Isso cria um vazio e uma falta de vibração
no contato, diz Costa.
| Max
Pinto |  |
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Os dois ex-maridos de Clélia não aceitavam o seu sucesso profissional |
Fracasso
A empresária paulista Clélia Angelon, 51 anos, carrega no
currículo dois casamentos desfeitos. O primeiro durou dez anos e o segundo,
quatro. O que por muito tempo ficou martelando em sua cabeça é que
as duas relações foram motivadas por uma atração incontrolável
de ambas as partes. Por que deram errado, se existia a famosa química?
Experiências digeridas, hoje ela está certa de que os relacionamentos
desandaram porque faltou intimidade. Dona de uma bem-sucedida empresa de produtos
de beleza, Clélia acha que os maridos nunca engoliram a sua independência
e o seu êxito profissional. Faltou intimidade para que eles se abrissem.
Nenhum de nós falava sobre o que realmente incomodava. A gente se agredia,
mas não ia direto ao ponto, reconhece Clélia.
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Quando
se casou, após seis anos de namoro, o publicitário Adriano Tironi,
29, queria continuar levando uma vida de solteiro. Não abria mão
do futebol duas vezes por semana; investia todo o dinheiro extra em sua moto e
se recusava a participar dos problemas familiares da mulher. Só percebeu
que vinha agindo errado quando a união acabou, após 12 meses de
casamento. Fui individualista. Na próxima relação,
tiro a tevê do quarto e desisto do futebol. Vou querer me dedicar à
minha mulher, promete. Solteiro outra vez, Tironi anda louco por um relacionamento
maduro, com compromisso e entrega. Mas diz que as mulheres não querem envolvimento.
Depois que elas conquistaram a independência, não precisam
da gente. Pensam primeiro no lado delas e não se prendem a ninguém,
reclama Tironi. próxima
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