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Me
dá mais dinheiro aí
Pedágios cada vez mais caros e excesso de postos de cobrança
enlouquecem o usuário e fazem governantes rever as regras de privatização das
estradas
Adriana
Souza Silva
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O motorista
que aproveitou o feriadão de 7 de Setembro para deixar o Rio de Janeiro
em direção às praias de Búzios, Cabo Frio e outras
cidades do litoral fluminense desembolsou, a cada dez quilômetros rodados,
R$ 1,03 para a concessionária Via Lagos, administradora da rodovia. No
Rio Grande do Sul, quem seguiu de Porto Alegre até as badaladas praias
no norte do Estado também passou por uma estrada entregue à iniciativa
privada, mas pagou, pelos mesmos dez quilômetros, R$ 0,35 à concessionária
gaúcha 200% a menos. Já na viagem entre a capital paulista
e a cidade de Barretos (438 km), o usuário teve de parar em nove pedágios
(R$ 32,80, no total), administrados por cinco diferentes empresas. Aberrações
como essas despertam a suspeita de que houve graves falhas no modelo de privatização
das rodovias brasileiras. Sobretudo quando tal desconfiança parte dos próprios
autores das regras de concessão, os governos estaduais e federal. Dos sete
Estados que há cinco anos abriram mão de suas estradas, seis resolveram
pegar um retorno e refazer os contratos em busca de um pedágio menor. Na
corrida para recuperar a popularidade, vale tudo: culpar a gestão anterior
pelo modelo adotado, retirar obrigações das administradoras ou até
angariar recursos no Exterior para ratear o custo das obras entre todos os contribuintes.
Até quem não tem carro vai pagar esta conta.
| Fotos:
Renato Velasco |  |
| “A
tarifa cobrada pela Via Lagos é a mais alta que eu já paguei” Paschoal Del Matto
Filho, comerciante paulista, sobre a estrada que leva à Região dos Lagos (RJ)
| A
Agência Reguladora dos Serviços Públicos do Rio, por exemplo,
se prepara para reduzir pela metade o pedágio da Via Lagos. Tudo dependerá
da proposta feita pelo governo na semana passada à concessionária:
entrar com 50% da verba para a duplicação de vários trechos
da rodovia. Eles estão bastante satisfeitos com o acordo, adianta
o diretor da Agência, Ranulfo Vidigal. Não é para menos. Se
recusar a ajuda do Estado e mantiver os preços atuais, a Via Lagos corre
o risco de ficar às moscas: daqui há um ano será inaugurada
uma nova estrada, sem pedágios, subsidiada pelos cofres públicos.
O comerciante paulista Paschoal Del Matto Filho, 40 anos, é o exemplo de
quem escolheria o percurso gratuito. Na terça-feira 5, ele passou pela
primeira vez neste ano na Via Lagos e levou um susto com o preço. A
tarifa é a mais alta que já vi, surpreendeu-se Paschoal, que
até então se considerava escolado com os pedágios do seu
Estado. O pior é que a estrada nem tem uma divisória no meio
nas pistas duplicadas, protesta.
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A Bahia
também decidiu recentemente tirar a mão do bolso para ficar bem
com seus motoristas. A única rodovia já licitada é a Linha
Verde (de Salvador à divisa com Sergipe), cujo pedágio é
de R$ 2,05. As demais serão bancadas pelo Estado e terão um pedágio
inferior a R$ 1 só para manutenção do trecho. Em Minas Gerais,
o secretário dos Transportes, Maurício Guedes de Mello, confessa
que esperou a poeira da greve dos caminhoneiros baixar para retomar o programa
de concessões. Ele diminuirá 25% a tarifa do contrato original (hoje
R$ 1,95) e passará a cobrar aluguel das concessionárias. As empresas,
por sua vez, serão compensadas reduzindo o número de ambulâncias,
deixando de fornecer serviço de guincho e de manter as rodovias vicinais,
agora entregues ao Estado. Os motoristas já pagam seguradoras particulares,
justifica o secretário.
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| Clique
na imagem para vê-la ampliada | No
Rio Grande do Sul, a vontade do governador Olívio Dutra (PT), eleito em
1998, é de fazer picadinho dos contratos tamanha a rejeição
às regras de concessão definidas pela gestão anterior, de
Antônio Britto (PMDB). Todas as tarifas estão congeladas desde a
entrega das estradas em 1996. A Secretaria dos Transportes do Estado nem sequer
cogita da hipótese de bancar as obras das concessionárias e propõe
às empresas um reajuste de até 33,4%. Mesmo com o aumento, as estradas
gaúchas manteriam o título de menor pedágio do País
R$ 0,03 por quilômetro, contra a média nacional de R$ 0,05.
Estamos no limite, não temos escolha, responde Sérgio
Coelho, da Associação Gaúcha das Concessionárias.
Já em Santa Catarina, o governador Esperidião Amin (PPB) teve mais
sorte. Como as concessionárias ainda não haviam implantado praças
de pedágio, deu tempo de cancelar os contratos firmados na gestão
de Paulo Afonso (PMDB). Só o Estado do Paraná não pôde
colocar a culpa na administração passada ao manter a tarifa pela
metade, reduzida em agosto de 1998, véspera da eleição que
manteve o governador Jaime Lerner (PFL) no cargo.
| Ricardo
Giraldez |  |
| “Cheguei
a dispensar serviço por conta do preço do pedágio” José Alberto Síveris, caminhoneiro
de São Borja (RS) | Vistas
em conjunto, as tentativas de reconciliação dos seis governos até
animam o usuário. Contudo, na maioria das concessões em vigor, o
abacaxi dos contratos mal formulados vai continuar sendo descascado pelo motorista
até 2020, quando a maior parte deles se encerra. É o caso da concessão
da BR-376, que liga Curitiba a Ponta Grossa. Num trecho com menos de 20 quilômetros,
há duas praças de pedágio, cobrando uma média de R$
0,30 por quilômetro, ou seja R$ 6. A estrada é passagem obrigatória
para os que deixam Curitiba rumo à cidade turística de Vila Velha.
A administradora paranaense Rodonorte diz que os valores e a localização
das praças foram definidos no edital. O secretário de Transportes
do Paraná, Heinz Herwig, completa o descaso: Se eles acharam por
bem deixar assim, mudar agora é muito complicado.
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