Prisão
Barril
de pólvora
Assassinato de diretora mostra que traficantes comandam o crime
de suas celas em Bangu I
Francisco
Alves Filho
| Marco
Antônio Cavalcanti/Ag. o Globo | |
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Pinaud, o secretário de Justiça, foi agredido: impasse | Na
época de sua inauguração, em 1987, o presídio Bangu
I foi apresentado pelas autoridades como a primeira unidade penitenciária
do Brasil que poderia ser considerada inexpugnável. Projetado para zerar
as fugas e manter incomunicáveis os detentos, o prédio ficou conhecido
nacionalmente por ter segurança máxima. Os grandes traficantes
cariocas foram mandados para lá e duas réplicas foram construídas
Bangu II e Bangu III. Passados 13 anos, a fama do presídio é
outra. Já houve pelo menos uma fuga e se tornaram rotineiras as denúncias
de que os criminosos presos conseguem gerenciar de dentro das celas os seus negócios
ilegais tráfico de drogas, contrabando de armas e outros crimes.
Para isso, se utilizam de agentes penitenciários corruptos, advogados bandidos
e telefones celulares. Na segunda-feira 4, um assassinato provou que atualmente
Bangu I não passa de um barril de pólvora semelhante a outros presídios
brasileiros. A diretora da unidade Sidneya Santos de Jesus, 46 anos, foi alvejada
com três tiros quando chegava a sua casa, na Ilha do Governador, zona norte
do Rio.
| Reprodução |
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Sidneya: não à mordomia | Sidneya
era conhecida por sua fama de incorruptível e pela forma corajosa com que
procurava cortar as mordomias dos chefões do crime. Era também rigorosa
com os agentes carcerários corruptos, a quem costumava punir de forma exemplar.
Recentemente negou os pedidos de vários criminosos que desejavam ser transferidos
para outras unidades recusou inclusive uma oferta de propina de R$ 50 mil
e passou a ser ameaçada de morte. Se ligar para essas ameaças
vou deixar de viver, comentou com amigos. O crime detonou uma crise no setor
penitenciário do Rio de Janeiro. Os diretores de presídios entregaram
seus cargos, agentes carcerários entraram em greve que durou 14 horas e
exigiram a saída do secretário de Justiça João Luiz
Pinaud, presos depredaram celas e portões de Bangu III, ameaçando
fugir. Na quarta-feira 6, o governador Anthony Garotinho (PDT) convocou uma reunião
com os secretários de Justiça e Segurança, os 24 diretores
de presídios e representantes dos agentes penitenciários. No encontro,
o governador ameaçou de demissão os grevistas, prometeu contratar
mais agentes e tratar de um aumento para a categoria. Foi o bastante para acalmar
os ânimos. Vingança
Apenas 48 horas após o assassinato, a polícia do Rio tinha
uma tese e alguns suspeitos. Investigava a possibilidade de Sidneya ter sido morta
por um agente penitenciário e dois cúmplices, a mando do sequestrador
Claudio Roberto Moreira Pacheco, conhecido como Sussuquinha. Entre outros delitos,
ele é acusado de ter comandado o sequestro de um dono de hospital de dentro
de Bangu I, pelo telefone celular. Em 1997, a diretora do presídio conseguiu
abortar uma tentativa de fuga de Sussuquinha, que, desde então, teria prometido
vingança. Somente o prosseguimento do trabalho da polícia poderá
esclarecer o caso. Mas, desde já, o advogado Artur Lavigne, ex-secretário
de Justiça no governo Brizola, acha estranho que um preso esteja envolvido
na morte de uma diretora de presídio. Isso seria inédito.
À exceção da Máfia, não há na literatura
mundial outro caso de um detento que tenha matado autoridades como diretores,
secretários de Estado ou juízes, afirma Lavigne. Para o ex-secretário,
o sistema penitenciário perdeu o rumo no governo Marcello Alencar. No
lugar de advogados e sociólogos, os policiais tomaram conta do sistema.
Os agentes penitenciários ganharam um poder que não tinham, foi
o ovo da serpente.
Primeiro diretor de Bangu I, o tenente-coronel PM Francisco Spargole ficou no
cargo de 1988 a 1994. Foi ele quem criou as normas internas que são vigentes
até hoje, chegou a servir de refém aos presos em 1988, num motim
que durou poucos minutos. Recebi várias ameaças de morte,
conta. Além de lutar contra a audácia dos criminosos presos, ele
puniu vários agentes penitenciários por corrupção.
Com autoridade, diz que o mito de Bangu I não se sustenta. Segurança
máxima não existe. Pelo jeito, Uê, Paulo Maluco, Miltinho
do Dendê, Marcinho VP, Marcelo PQD, Sussuquinha e outros bandidos cariocas
já descobriram isso há muito tempo.
| Luz
no fogo |
| Reprodução |
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| Luz: dinheiro
das quentinhas | Depois
de anos esculpindo a fama de fiel homem da lei, o deputado estadual Hélio Luz
(PT) teve de passar a última semana dando explicações sobre sua conduta no tempo
em que era delegado de polícia de Itaperuna, no norte fluminense. Num rastreamento
feito pelo Ministério Público nas contas de Jair Coelho, o “rei das quentinhas”
dos presídios do Estado, descobriu-se que, em meados de 1990, foram feitos depósitos
bancários numa conta do Banerj em nome do então delegado. Luz diz não se lembrar
do valor dos depósitos, mas explica que o dinheiro servia para complementar a
alimentação de cerca de 30 policiais da delegacia. “Reconheço que cometi um erro
administrativo, mas nada que tenha dado prejuízo ao erário público. Também não
houve enriquecimento ilícito. Portanto, não cometi crime”, declarou na quinta-feira
7. Para provar que não teme pelas ações do passado, Luz afirma que irá propor
à Assembléia Legislativa, na terça-feira 12, a criação de uma CPI para investigar
as relações de todos os administradores públicos com os fornecedores de alimentação
de 1990 até hoje. “Não tenho medo de ninguém. Podem vasculhar minha vida inteira.
Não vão encontrar nada.” Autor de frases de efeito, Luz ficou famoso por combater
o tráfico de drogas e os sequestros. Quando virou chefe de Polícia Civil, descredenciou
a Brasal de Jair Coelho e introduziu na polícia carioca os tíquetes-refeição:
“Causei um prejuízo mensal de R$ 900 mil ao rei das quentinhas”, ufana-se. Liana
Melo | |