|
Teatro
Corte
moderna
O
clássico Rei
Lear
é encenado por Raul Cortez numa montagem revigorada e coloquial
Apoenan
Rodrigues
| João
Caldas/Divulgação |  |
| Cortez,
com Gawronski: drama contemporâneo | Raul
Cortez não sabe dizer exatamente por que se sente tão exaurido depois
de cada apresentação da peça Rei Lear, de William Shakespeare
(1564-1616), em cartaz no teatro do SescVila Mariana, em São Paulo.
Tenho necessidade de seções de relaxamento para voltar a adquirir
um estado emocional revigorado, contou ele a ISTOÉ. A exaustão,
nas suas palavras, talvez venha da comiseração e piedade do personagem,
sonho outonal de todo grande artista. O papel do monarca octogenário e
vaidoso, que envelhece sem alcançar a sabedoria e acaba enlouquecendo devido
a uma trama sórdida armada por suas filhas, requer mesmo um ator mais maduro.
Cortez, no entanto, aos 69 anos recém-completados, afirma não ter
sido atraído pelo desejo de encarnar o soberano como um ato narcisista.
Na verdade, existem muitos outros motivos. Entre eles a representação
da falha trágica de qualquer ser humano individualista cuja saliência
histórica está contida no clássico do dramaturgo inglês,
agora numa montagem de R$ 1,2 milhão, com um dos focos sobre o belo cenário
de J.C. Serroni (leia quadro).
A contemporaneidade do atual espetáculo foi ressaltada pela direção,
tradução e adaptação de Ron Daniels, carioca com passagem
pelo Royal Shakespeare Theatre e pelo Teatro Nacional da Grã Bretanha e
atualmente radicado nos Estados Unidos. Na concepção de Daniels,
os 25 atores em cena têm falas coloquiais. A tragédia, então,
engorda em proporções, diante do sofrimento de Edgar (Caco Ciocler)
filho do amigo fiel do rei e relaxa em diversão com as intervenções
sagazes do Bobo (Gilberto Gawronski). O recurso os aproxima muito mais da platéia,
que tende a compreender na plenitude o drama do rei que, na ânsia de dividir
seu reino entre as três filhas para evitar guerras futuras, exige delas
declarações públicas de amor paterno. Cordélia (Bianca
Castanho) se recusa a cumprir o ritual hipócrita. É deserdada e
desterrada. Regana (Ligia Cortez, filha de Raul) e Goneril (Lu Grimaldi) concordam,
ganham seus dotes, mas arquitetam um plano diabólico para acabar com o
pai. O gozo do poder absoluto bloqueia Lear, diz Cortez, que enxerga
os mesmos defeitos nos atuais governantes, industriais e em alguns empreendedores
da cultura. Shakespeare não imaginava que a combustão provocada
pela mistura de vaidade, poder, rejeição e loucura seria tão
atual. 
| Do
palácio aos viadutos | | Durante
mais de um ano, o arquiteto, cenógrafo e figurinista paulista J. C. Serroni, 50
anos, trocou e-mails com o diretor Ron Daniels. Enviavam informações, opiniões
e sugestões sobre o belo e eficiente cenário de Rei Lear. Ao final, Serroni colaborou
para o espetáculo ganhar a intensidade moderna que a adaptação exigia. Transformou
mais de duas toneladas de ferro na construção de duas torres e de um paredão –
que também usa madeira –, na verdade um grande portal que vai tombando sobre o
palco em consonância com a decadência do monarca. Em certos momentos lembra os
atuais viadutos das grandes cidades, sob os quais dormem milhares de sem-teto.
O fogo, no início usado como um elemento clássico e nobre em 80 velas de quatro
enormes candelabros, também incorpora a desorganização e a necessidade das chamas
estarem presentes na vida dos abandonados pela sorte. Mendigos no palco ou na
vida real, tão rejeitados como o soberano do século XVII. | |