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POLÍTICA
Caso EJ

Pego na mentira
Depoimento de Eduardo Jorge no Senado está sendo desmascarado, o que já preocupa Fernando Henrique

Andrei Meireles e Isabela Abdala

André Dusek
O primeiro escalão agora tem um código: anti-EJ

Durou pouco o alívio no Palácio do Planalto pelo bem ensaiado depoimento de Eduardo Jorge Caldas Pereira, ex-secretário-geral da Presidência, à subcomissão do Senado que apura o desvio de R$ 169 milhões da obra do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo. Três semanas depois de ter comemorado o desempenho de EJ, o governo assiste preocupado a um festival de desmentidos e de novas denúncias expondo os furos da defesa do ex-ministro. A estratégia de esvaziar a crise levando em banho-maria a investigação no Senado, ao que tudo indica, não deu certo. Mesmo sem ter os poderes de uma CPI, a subcomissão virou palco de depoentes que buscam tirar o corpo fora da maracutaia e invariavelmente contestam as justificativas de Eduardo Jorge. Caiu por terra, por exemplo, a alegação do governo de que era automático o repasse de verbas para a obra do juiz Nicolalau: juízes do TRT e ministros do Tribunal Superior do Trabalho foram unânimes em afirmar que a desculpa é falsa. Isso deixou sem justificativa o ministro do Planejamento, Orçamento e Gestão, Martus Tavares – apontado na fita de Lalau, transcrita por ISTOÉ na edição 1607, como um dos responsáveis pela liberação de verbas, a pedido de EJ. Na quarta-feira 23, o Planalto mobilizou ministros e lideranças parlamentares para tentar adiar o depoimento de Martus no Senado, marcado para a próxima terça-feira. O ofício do ministro pedindo o adiamento, porém, só chegou às mãos do senador Renan Calheiros (PMDB-AL) depois de encerrada a reunião de seis horas da subcomissão. “Agora, não dá mais para mudar a data”, negou Calheiros, apesar da intensa pressão do governo. O fracasso da manobra governista para que Martus Tavares não entrasse logo no fogo cruzado foi atribuído ao próprio líder do governo no Senado, José Roberto Arruda (PSDB-DF). Ele diz “ter esquecido” de avisar Renan do pedido de Martus. Trapalhadas desse tipo, porém, estão servindo sob medida para que os caciques Jader Barbalho e Antônio Carlos Magalhães mantenham a crise na ordem do dia e o Palácio do Planalto sob rédeas curtas. Com o comando da subcomissão nas mãos do PMDB, na quinta-feira 17, Jader foi à residência oficial do presidente, o Palácio da Alvorada, e praticamente assegurou o apoio de Fernando Henrique à sua candidatura à Presidência do Senado. “Foi uma conversa muito estimulante”, comentou o presidente do PMDB. ACM não gostou nada disso. Na última terça-feira, avocou para si a relatoria na Mesa do Senado dos pedidos de quebra de sigilo fiscal, bancário e telefônico de Eduardo Jorge, seus sócios e empresas. O presidente do Senado tem ainda outro trunfo: os processos que Eduardo Jorge teve de responder como funcionário do Senado, os quais, no mínimo, desmontam a sua imagem de servidor exemplar. Essa papelada trata de investigações sobre EJ pelo acúmulo indevido de salários e ocupação irregular de apartamento funcional.
O cerco a Eduardo Jorge pode apertar ainda mais com as apurações do Ministério Público e da comissão de sindicância criada pelo próprio governo sobre as denúncias que derrubaram o presidente do Serpro, Sérgio de Otero Ribeiro. Amigo do peito e parceiro de EJ, Otero se enrolou ao tentar explicar aos procuradores da República como enriqueceu nos últimos anos. Ele não soube justificar, por exemplo, como sua atual mulher, Rosane Rodrigues Batista, conseguiu comprar o avião bimotor Sêneca II que lhe foi presenteado. Rosane é dona da RRB, uma empresa que não tem secretária, nem contínuo e é conhecida no mercado por se oferecer para abrir portas no governo, especialmente no Serpro. O tráfico de influência junto à principal empresa de processamento de dados do governo federal também será alvo de outra investigação. Na terça-feira 22, o governador de Minas Gerais, Itamar Franco (PMDB), anunciou que vai se licenciar do cargo e acampar durante 15 dias em Brasília para fazer uma devassa sobre atos do governo em sua gestão e na de FHC. Um de seus principais focos será justamente o Serpro. Com o propósito de juntar munição, Itamar pediu o adiamento de seu depoimento à subcomissão do Senado para o dia 17 de outubro.

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