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Mente
Nunca
te vi, sempre te amei
Sessões de análise na internet conquistam adeptos
e causam polêmica entre especialistas
Mônica
Tarantino
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Comprar
na internet é cada dia mais comum. Desde fazer supermercado
ou reservar hotel no Tibete, dá para resolver quase tudo
pelo computador. Não é de se estranhar, portanto,
que até serviços personalizados, como a terapia, já
estejam na rede. Nos Estados Unidos, a psicoterapia pela rede pode
ser acessada em cerca de 200 sites. No Brasil, um grupo ainda reduzido
de pessoas dez, no máximo pratica a terapia
online, segundo a Associação Brasileira de Profissionais
de Saúde Mental Online. Mas a expectativa é a de que
o número de clínicas online cresça. Primeiro
por causa da praticidade. E também porque esse tipo de terapia
atrai quem não consegue procurar ajuda ao vivo.
Uma das poucas exigências da cyberterapia (um dos nomes pelos
quais a técnica é conhecida) é a de que o paciente
tenha alguma habilidade de expressar as suas emoções
por escrito. Em geral, as consultas são feitas pelo ICQ,
programa de conversação simultânea. Duram cerca
de 50 minutos e acontecem uma ou duas vezes por semana.
A expectativa de crescimento da cyberterapia preocupa o Conselho
Federal de Psicologia (CFP). Até o final de setembro, a entidade
promete despejar um balde de água fria no entusiasmo dos
psicólogos online. Colocará em vigor uma resolução
que só autoriza a atividade se estiver dentro de projetos
de pesquisa de universidades ou organizações não-governamentais.
Os usuários devem ser informados de que participam de um
projeto e não pagam. Hoje, o preço cobrado pelos cyberterapeutas
vai desde a metade até um pouco mais do que é pago
nos consultórios. Não há regras. O Conselho
também vai criar um selo de qualidade para figurar nos sites
de orientação psicológica (aconselhamento por
período limitado que dá respostas objetivas às
perguntas dos usuários) que obedecerem os critérios
da entidade. Nosso propósito é garantir segurança
ao usuário pois existem aventureiros e pessoas sem preparo
suficiente, alerta a psicóloga Ana Bock, presidente
da entidade.
Transferência
A terapia pela internet é ainda um território
experimental. Uma das qualidades enaltecidas pelos seus defensores
é a capacidade de deixar até os mais tímidos
à vontade e de criar vínculos tão fortes como
a terapia tête-à-tête, passando inclusive pela
fase em que o paciente se apaixona pelo analista, a famosa transferência.
As pessoas falam mais rápido de assuntos que provavelmente
levariam anos para surgir no consultório, como o desejo homossexual,
avalia a psicóloga Márcia Homem de Mello, do Recife.
Não há estudos que mostrem os efeitos e consequências
desse tipo de tratamento, contrapõe o psicólogo
Marcus Vinicius, do Rio. Márcia criou seu site de terapia
em 1999, faz sessões pelo ICQ e não atende adolescentes,
pessoas que tentaram suicídio ou doenças psiquiátricas
graves, como a esquizofrenia. Ela responde a um processo movido
pelo CFP porque cobra consulta.
Mas há terapeutas na rede imunes ao controle da entidade
porque não são psicólogos. A psicanalista online
Lazir de Carvalho dos Santos, 53 anos, de Paranaguá (PR),
é formada em engenharia civil e fez um curso de especialização
para atuar como terapeuta. Está na rede há três
anos e tem seis pacientes. Até Freud, pai da psicanálise,
foi analisado por carta, observa. O argumento não convence
os que até admitem sessões por carta, telefone, e-mail
ou videoconferência em situações especiais,
mas se houver uma relação amadurecida antes no consultório.
A psicanálise pressupõe a experiência
emocional entre o analisando e o analista e o aprendizado que se
pode obter dela. Por isso a presença física do analista
é essencial, acredita o psicanalista Júlio Frochtengarten,
da Sociedade Brasileira de Psicanálise (SBP). Longe de consenso
sobre a cyberterapia, a rede continuará abrigando idéias,
convicções e sites terapêuticos de todos os
tipos. Do outro lado da telinha, no entanto, vale o mesmo direito.
O usuário deve sentir-se à vontade para pedir as credenciais
que quiser (onde o terapeuta estudou, há quanto tempo atende,
endereço, telefone e número de registro em entidade
de classe, por exemplo). 
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