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Equador
Um
novo chávez?
Um dos líderes da rebelião popular que derrubou o presidente
Jamil Mahuad, o coronel Gutiérrez quer frente continental para negociar
dívida externa e combater privatizações
Cláudio
Camargo
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Hélcio Nagamine
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Ele
teve uma carreira brilhante, estava prestes a ir trabalhar nos EUA
e tinha grandes chances de, em mais três ou quatro anos, atingir
o topo da hierarquia militar, chegando a general. Mas em janeiro
deste ano, o coronel Lucio Edwin Gutiérrez, junto com outros
oficiais do Exército do Equador, uniu-se aos protestos indígenas
num movimento que depôs o então presidente Jamil Mauhad,
que havia dolarizado a economia na tentativa de deter uma gravíssima
crise econômica. Desde então, Gutiérrez
que foi preso e passou para a reserva trocou a farda pelo
palanque e fundou a Sociedade Patriótica 21 de Janeiro
dia da derrubada de Mahuad. Muitos já o comparam ao presidente
da Venezuela, Hugo Chávez, também um coronel que liderou
uma frustrada tentativa de golpe seis anos antes de se tornar presidente
através do voto defendendo bandeiras nacionalistas e anti-oligárquicas.
Em entrevista a ISTOÉ durante sua passagem por São
Paulo, Gutiérrez critica as privatizações,
a dívida externa e defende a intervenção dos
militares na política para defender o povo .
ISTOÉ
Como está a situação do Equador oito
meses depois da deposição do presidente Jamil Mahuad?
Lucio Gutiérrez Extremamente crítica
e explosiva. O presidente Gustavo Noboa desconheceu a maioria do
Congresso, que não aprovou o projeto de privatizações,
e o tornou lei. Esse projeto é totalmente contrário
aos interesses nacionais porque pretende privatizar tudo, não
apenas a eletricidade e a telefonia, mas também o petróleo,
inclusive as reservas, e até a água. Não nos
opomos a que o país se modernize. Apresentamos como alternativa
um projeto para transformar as empresas estatais em empresas públicas,
mais eficientes. Tampouco nos opomos aos investimentos estrangeiros
no Equador. Mas queremos beneficiar o povo equatoriano. Com esse
projeto de privatizações, vamos passar do monopólio
estatal para o monopólio privado, o que a experiência
latino-americana tem mostrado ser negativo. Os preços sobem,
os serviços continuam
ineficientes, não há investimentos sociais e tudo
fica fora do alcance do povo.
ISTOÉ
E qual é a alternativa?
Gutiérrez Viemos conversar com partidos políticos
progressistas para defender a necessidade de formar uma frente continental
para nos opormos às privatizações e à
maneira como a dívida externa vem sendo cobrada de nossos
países. Temos uma dívida legal e uma dívida
ilegítima. A ilegítima é aquela que nos cobra
juros sobre juros. Precisamos formar equipes de técnicos
que não estejam vinculadas aos grupos econômicos para
avaliar o montante da dívida legal e podermos conversar com
os credores. Não é possível que, como no caso
do Equador, se destinem 54% do orçamento nacional para o
pagamento do serviço da dívida, enquanto a educação
só recebe 7% desse orçamento. É preciso que
a América Latina apresente uma proposta global aos credores.
ISTOÉ
É possível realizar essas transformações
pela via eleitoral?
Gutiérrez Temos como primeira opção
a via eleitoral. Mas no caso do Equador, o governo não escuta
o clamor do povo. Por isso, o povo está se organizando, o
movimento indígena anunciou que vai fazer novas mobilizações
e protestos. Se os governantes não entenderem que o poder
não é para se enriquecer, os militares também
vão acabar atuando. Porque as Forças Armadas só
se justificam na medida em que defendam o povo; elas não
podem estar a serviço das oligarquias. Por isso nós
nos levantamos no dia 21 de janeiro.
ISTOÉ O Mercosul teria algum papel nessa sua proposta
de integração latino-americana?
Gutiérrez Creio que o Mercosul deveria
incluir toda a América Latina e não ser apenas um
bloco comercial, mas realizar uma integração política
e mesmo militar. Oxalá possamos ter Forças Armadas
comuns para toda a América Latina. Nossos inimigos comuns
são a corrupção, o narcotráfico e a
miséria. E o Brasil, pelo seu tamanho e pujança, deveria
liderar essa integração. 
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