Argentina
Sem jogo de cintura
O governo está sendo pressionado a trocar o passo do
câmbio e o Brasil pode tropeçar junto
Antonio
Luiz Monteiro Coelho da Costa
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AFP
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Volta à tona porque o país está prestes
a estourar o limite acertado com o FMI |
No
ano passado, o escorregão do câmbio brasileiro derrubou
a Argentina. Neste, nossos vizinhos estão a ponto de nos
fazer tropeçar. É como no Brasil às vésperas
da desvalorização de janeiro de 1999: a imprensa discute
os méritos das variantes das propostas de desvalorização
e dolarização, fala-se em substituição
da equipe econômica, negocia-se com o FMI um cheque
especial de US$ 11 bilhões (o nosso foi de US$ 41,5
bilhões) para fazer frente a uma possível crise de
confiança. A cotação dos títulos no
mercado internacional indica que, na percepção dos
investidores, o risco de a Argentina deixar de honrar sua dívida
externa de US$ 144 bilhões já é maior que o
de o Brasil dar um calote na sua, de US$ 237 bilhões.
A causa imediata da desconfiança é o déficit
público de 2000, prestes a estourar o limite de US$ 4,7 bilhões
acertados com o FMI. Nos primeiros cinco meses, já atingiu
70% desse valor. O FMI avisou informalmente que aceitaria que a
meta fosse ultrapassada em até US$ 300 milhões, mas
consultorias privadas acreditam que o déficit vai chegar
a US$ 6 bilhões.
Cada vez que a Argentina corta os gastos públicos para convencer
os credores de que poderá pagá-los, o resultado acaba
sendo mais recessão e mais desemprego, reduzindo a arrecadação
de impostos e tornando cada vez menos sustentável a paridade
do peso argentino com o dólar. Como no Brasil de 1998, o
esforço de tornar a moeda artificialmente estável
desequilibra o emprego e a produção e ameaça
desestabilizar a própria sociedade.
Debaixo
do colchão Mas poucos esperam ver a Argentina
fazer a mesma opção do Brasil. Lá, devido à
insegurança sobre o futuro do peso, quase toda dívida
de longo prazo tem sido contratada em dólares. Seria preciso
decretar uma moratória geral das dívidas dolarizadas
do governo, das empresas e pessoas físicas, da classe média
para cima.
Mas os argentinos já viram uma moratória em 1989,
quando suas aplicações em renda fixa de curto prazo
foram confiscadas e trocadas por bônus de dez anos. Desconfiando
do governo e dos bancos, guardam US$ 22,2 bilhões em verdinhas
debaixo do colchão, bem mais que o valor dos 14,5 bilhões
de pesos argentinos em circulação. E possuem US$ 59
bilhões em títulos e propriedades no exterior, quase
tanto quanto os US$ 74 bilhões aplicados em bancos argentinos
(sendo apenas US$ 27 bilhões em moeda nacional).
No entanto, dolarizar é mais que trocar papel-moeda: significa
depender sem amortecedores nem intermediários do Fed e do
mercado financeiro internacional. A economia argentina teria de
se tornar competitiva da noite para o dia, cortando drasticamente
custos, salários e empregos num país que já
tem 15,4% de desemprego e 14,5% de subemprego e desmantelando serviços
públicos que ainda dão a esse país uma qualidade
de vida bem superior à média da América Latina.
Abalo
no Brasil Para nosso próprio bem, o melhor é
deixar de lado nossas tradicionais rivalidades e torcer para que
o Fernando de lá consiga escapar desse dilema. Até
que um dia seja possível passar a um câmbio flutuante
ou mesmo a uma moeda comum ao Mercosul. Se ele desvalorizar ou dolarizar
agora, colocará mais produtos argentinos baratos nos supermercados
brasileiros, levará a menos importações de
produtos daqui e menos turistas argentinos no Brasil.
Um colapso argentino dificultaria a rolagem de nossa própria
dívida e abalaria toda a América Latina, principal
mercado de nossa indústria no Exterior. Pode desmontar todo
o esforço de integração do Cone Sul. É
difícil continuar o baile do Mercosul com o tango da conversibilidade
atravessando o samba do câmbio flutuante e vice-versa, mas
ainda é mais vantajoso para os parceiros do que marchar sob
a ordem unida do dólar americano. 
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