Sociedade
Grão-mestres de saia
A maçonaria, um dos últimos redutos reservados
a homens, começa a aceitar a presença de mulheres
Camilo
Vannuchi
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Max
G. Pinto
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não admite a existência de templos mistos
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Após
conquistar a chefia de grandes empresas e disputar eleições,
as mulheres resolveram cravar sua bandeira no seio da maçonaria,
a misteriosa entidade que sempre provocou a imaginação
dos que nunca participaram de um ritual. Tachada de demoníaca
pela Santa Inquisição e temida por quem fantasiava
orgias e práticas macabras durante suas reuniões,
a maçonaria nada mais é do que uma sociedade filantrópica,
tradicionalmente masculina, que tem por finalidade assegurar a evolução
espiritual da humanidade por meio de ações coletivas.
Para muitos maçons, reunir-se com irmãs é uma
experiência inédita.
Um dos últimos redutos masculinos, a fraternidade vive um
terrível dilema: reconhecer ou não a legitimidade
das lojas (templos) femininas e mistas, cada vez mais comuns em
todo o mundo. Enquanto o Grande Oriente (poder supremo) da França
já se acostumou com a presença do sexo oposto, as
brasileiras ainda lutam pela autenticidade de seu trabalho. Assim
explica Vera Facciollo, grã-mestra da Ordem Glada (Grande
Loja Arquitetos de Aquário), instância máxima
da maçonaria mista no Brasil, que administra 19 lojas em
todo o território nacional. Nos rituais dessa ordem, os homens
são poucos. Como as mulheres ainda não têm
muitas opções de lojas mistas, a maioria de nossos
irmãos é feminina, justifica Vera.
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Max
G. Pinto
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Facciollo e Vera (ao centro) conduzem rituais com maioria
feminina |
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Na
complexa hierarquia maçônica, os membros tratados
entre si por irmãos são divididos
em aprendizes, companheiros e mestres,
conforme o grau de iniciação. Para entrar na ordem
é preciso ser convidado. Dentro da categoria de mestre, dependendo
do rito seguido, pode haver sete ou 33 subdivisões. Todos
eles costumam se reunir uma vez por semana em templos chamados lojas,
onde são planejadas as atividades do grupo normalmente
assistenciais e onde se discutem temas filosóficos
cabeludos como a supremacia do espírito sobre a matéria.
Toda loja deve obediência a uma potência superior, como
a Glada. No Brasil, a maçonaria masculina está dividida
em três ordens, obedecendo a Grandes Lojas e Grandes Orientes,
e nenhuma reconhece a admissão de mulheres. O motivo apontado
é um dos artigos da Constituição maçônica
compilada em 1723 pelo escocês James Anderson, da Grande Loja
de Londres. O 18º landmark (marco), como é conhecido,
proíbe o ingresso na maçonaria de escravos, mulheres
e aleijados. Naquela época, as mulheres eram trocadas
como se fossem animais. Manter a mulher afastada da maçonaria
até hoje contradiz todos os ideais de liberdade, igualdade
e fraternidade, discursa Vera Facciollo. Seu marido, Antonio
Facciollo, grão-mestre adjunto da Glada, concorda com ela.
Seguir princípios datados de 1723 é um absurdo.
Mostra o atraso e o conservadorismo da instituição,
diz.
Até Arnaldo Faria, grão-mestre do Grande Oriente paulista,
superior de mais de 200 lojas no Estado, reconhece a proximidade
da mudança. Vamos ter de aceitar as mulheres como irmãs,
diz. No entanto, Faria prefere lojas separadas para homens e mulheres.
Lojas mistas, para ele, são inaceitáveis. Juntar
mulheres e homens resulta em confusão, acredita. Além
da manutenção dos antigos landmarks, outro
motivo permeia com frequência a justificativa de certos maçons
para impedir a admissão de mulheres. É contraditório
pertencer a uma ordem que cultua o direito à igualdade enquanto
impede a admissão de mulheres. Acredita-se, no entanto, que
elas seriam incapazes de manter segredos. Em um momento de aperto,
atitudes como a de Nicéa Pitta apareceriam, compara
Edgar Reis, companheiro da Loja Edmond Jafet, em São Paulo.
Quando fala em segredos, Reis faz referência às atividades
realizadas pela maçonaria. O mestre Newton Milhomens explica
que trabalhos assistenciais constituem as maiores tarefas do maçom.
Nosso lema é servir e ajudar. Muito foi feito pela
maçonaria e somente os maçons o sabem. Aí está
o segredo. O resto é folclore, e damos boas risadas com isso,
diz. 
| Sindicato
de pedreiro |
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O nome maçonaria, ou franco-maçonaria, deriva
do termo francês franc-maçonnerie, pedreiros
livres. Sua origem é localizada nas corporações
de ofício dos pedreiros da Idade Média, no final
do século XIV. Naquela época, não havia
escolas capazes de ensinar as técnicas da construção
em pedra, utilizadas principalmente em catedrais. Somente
nas corporações, também chamadas guildas,
aprendizes e mestres dividiam a ciência do talhe e se
reuniam após o expediente para discutir o andamento
das obras e defender sua profissão, como em um sindicato.
Levavam às reuniões os instrumentos de trabalho,
utilizados na composição dos projetos arquitetônicos
(esquadro e compasso) ou na atividade braçal (avental,
malho e cinzel). Assim surgia a maçonaria operativa,
preocupada com coisas práticas e restritas ao ofício.
Alguns estudiosos afirmam que a sociedade iniciática
é muito mais antiga, já que símbolos
utilizados em rituais maçônicos foram encontrados
em túmulos e pirâmides egípcias há
sete mil anos.
Somente após o Renascimento, com a fundação
das primeiras universidades européias, as reuniões
maçônicas tornaram-se mais refinadas, admitindo
discussões filosóficas e literárias.
Os primeiros arquitetos e engenheiros a deixar as salas de
aula encontravam um mercado de trabalho com todas as portas
fechadas. As guildas formavam uma espécie de cartel,
impedindo que profissionais de fora conseguissem emprego.
De tanto insistir, os acadêmicos foram aceitos paulatinamente
na maçonaria e levaram sua erudição aos
encontros. Desde então, a ordem propõe trabalhos
fraternos e coletivos para assegurar a evolução
espiritual dos seres humanos. Recebe o nome de maçonaria
especulativa ou filosófica.
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