Esporte
Cuidado: perigo
Acidentes frequentes com esportistas amadores indicam falta
de preparo, imprudência e desrespeito aos próprios limites
Chico
Silva e Rita Moraes
|
Caca
Monteiro/
Folha Imagem
|
 |
| Em
São Paulo, grupo se perde na mata. |
A onda
ecológica e a sede de adrenalina têm lançado
muita gente em aventuras nem sempre bem-sucedidas. Grande parte
dos esportistas tem pouco preparo e, em vez de músculos e
disposição, acabam ganhando gesso, pinos e dores.
A maioria começa fazendo trilhas como se estivesse passeando
no parque. O equívoco pode gerar tragédias. No domingo
20, no Pico do Jaraguá, em São Paulo, pai e filho
morreram ao cair de uma altura de 25 metros. No mesmo dia e local,
um grupo do Clube dos Desbravadores, movimento juvenil ligado à
Igreja Adventista do Sétimo Dia, se desviou da trilha e teve
de ser resgatado por bombeiros. No Rio de Janeiro, dois pilotos
de asa-delta e parapente colidiram no ar e, por sorte, sofreram
apenas ferimentos leves. Ainda no domingo, dois turistas franceses
se perderam na Floresta Amazônica.
O que se percebe é que as pessoas se arriscam confiando na
sorte. Segundo familiares, Milton Gomes de Toledo, 54 anos, e seu
filho, Gilberto Gomes, 14, mortos no acidente do Jaraguá,
visitavam sempre o Parque do Jaraguá. Portanto, conheciam
o local ou pensavam que conheciam, o que pode ter servido para baixar
a guarda. O excesso de auto-confiança é uma das maiores
causas de acidentes desse tipo. O mesmo pode ter acontecido com
o líder do grupo dos Desbravadores, que transformou um passeio
no parque em uma caminhada até o pico. Ele não
seguiu as normas, como conhecer previamente o local e planejar a
atividade, reconhece o pastor Raimundo Venefrides, coordenador
regional do movimento.
|
Domingos
Peixoto/Ag. O Globo
|
 |
| No
Rio, voadores colidem no ar. |
O sucesso
dessas empreitadas depende, acima de tudo, de treinamento e capacidade
de prever incidentes. Diminuem-se os riscos com planejamento
e conhecimento da área e da atividade, ensina James
Lynch, da Outward Bound Brasil, organização não-governamental
especialista em atividades ao ar livre com adolescentes. O mínimo
que se deve exigir de um guia são noções básicas
de orientação e primeiros-socorros. Tem gente
que não leva nem água, observa Lynch. Na Floresta
da Tijuca, no Rio, por exemplo, os guardas costumam barrar exploradores
de última hora. Trilha é uma atividade de risco.
Quem não tem experiência deve procurar um guia profissional,
recomenda o diretor do parque Pedro Cunha Menezes.
Se uma simples caminhada pela mata pode ser fatal, imagine o perigo
de esportes movidos a adrenalina. É cada vez mais comum encontrar
mochileiros de fim de semana que saem direto do escritório
ou da escola para descer corredeiras, se pendurar em montanhas,
saltar rampas ou mergulhar em mares desconhecidos. A publicitária
Cássia Garcia, 28 anos, primeiro mergulhou e depois fez um
curso. Só aí percebeu o quanto foi irresponsável.
Vi que não sabia nada. Mergulhei 18 metros logo de
primeira. Muitas precauções e cuidados ainda
são desconhecidos, como respeitar as próprias limitações,
não desafiar as condições climáticas,
checar o equipamento. Na dúvida, desista.
|
Hélcio
Nagamine
|
 |
| Cássia
mergulhou e depois fez o curso. Aprendeu que o treinamento pode
evitar tragédias |
Os
conselhos vêm de um especialista em fazer imensos picos parecerem
montes de areia: Waldemar Niclevicz, 34 anos, primeiro alpinista
brasileiro a atingir o topo do K2, a montanha mais perigosa do mundo,
no Paquistão. Ele se espanta com as imprudências que
vê por aí. Usam até corda de amarrar caminhão
para escalar E não aceitam conselhos, conta Niclevicz.
Como expert no assunto, o alpinista sabe a hora de parar. Ele já
desistiu do K2 em duas outras tentativas por causa do mau tempo.
Fez o mesmo na parede mais perigosa do Aconcágua, na Argentina.
A vida é mais importante que uma montanha, conclui
Niclevicz. Outro maluco por esportes alternativos é o instrutor
Auro Miragaia, 36 anos, 20 de aventuras. A experiência não
o livrou de um enorme susto. Certa vez, ele espatifou-se com a asa-delta
num coqueiro e ficou três dias sem memória. Tive
sorte, diz Miragaia.
É quase impossível achar algum aventureiro que nunca
tenha ao menos sofrido uma queda. Todos esses esportes são
chamados de radicais exatamente porque oferecem riscos. E é
isso que seduz profissionais e desportistas de ocasião. A
diferença entre eles é que os primeiros conhecem e
respeitam os riscos e têm como maior desafio anulá-los
e não se expor a eles. 
Colaboraram: Lia Bock (SP) e Letícia Helena (RJ)
|