Cosmologia
Além da imaginação
Descoberta
de planetas indica existência de outros sistemas solares, mas avanço
da teoria da evolução diminui a chance de vida inteligente fora da
Terra
Antonio
Luis Monteiro
Coelho da Costa
| Ag.
Contexto/ fotos divulgação |
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com civilização alienígena é tema recorrente na ficção, mas
extraterrestre inteligente parece improvável |
Os
últimos meses foram marcados pela descoberta de novos planetas
fora de nosso sistema solar. Uma das questões mais interessantes,
porém, continua sem resposta: afinal, há ou não
vida em outros planetas. À luz das novas tecnologias, já
é possível avaliar melhor essa probabilidade. A boa
notícia é que existem mais de 400 bilhões de
estrelas em nossa galáxia, muitas delas com planetas em sua
órbita. A má notícia é que, mesmo que
esses planetas tenham vida, a probabilidade de existir seres inteligentes
parece pequena.
Até recentemente, não se sabia se existiam planetas
fora do sistema solar. Uma teoria sugeria que os planetas só
se formariam através de uma quase-colisão de estrelas,
que arrancasse matéria suficiente de uma delas para se condensar
em planetas. Como tais colisões são raríssimas,
apostava-se que praticamente não haveria planetas orbitando
outras estrelas. Nos últimos meses, saltou de 30 para 50
o número de novos planetas fora do sistema solar, o que desmente
essa suposição. Ficamos sabendo que grande parte das
estrelas talvez quase todas têm planetas.
A mais recente descoberta foi um planeta que orbita a estrela Epsilon
Eridani nome familiar aos fãs de ficção
científica. Em Jornada nas Estrelas, é ao redor dessa
estrela que está o planeta Vulcano, pátria de senhor
Spock, o mais famoso alienígena do cinema. Epsilon Eridani
foi também a segunda estrela rastreada pelo projeto Seti,
que busca evidências de inteligência extraterrestre.
Seu primeiro rebate foi falso: um sinal supostamente originado da
estrela foi identificado como experimento militar secreto. Seu charme
está em ser a estrela mais próxima de nós com
as características que os mais exigentes julgam necessárias
para a presença de vida. Em termos humanos, a distância
é considerável sua luz leva dez anos e meio
para chegar a nós e as sondas atuais gastariam mais de 100
mil anos para alcançá-la. Em termos cósmicos,
Epsilon Eridani está em nosso quarteirão, se não
em nosso quintal. Há sete estrelas ainda mais próximas,
mas cinco são muito frias e apagadas para ter planetas habitáveis
e as outras duas (Alfa Centauri e Sírius) são múltiplas,
o que talvez inviabilize planetas com órbitas estáveis.
Para delícia dos fãs de Jornada nas Estrelas, o descobridor
do novo planeta se chama William Cochran, quase xará do cientista
Zefram Cochrane, que num dos filmes da série faz contato
com os vulcanos de Epsilon Eridani. O planeta descoberto é
semelhante a Júpiter, mas pode perfeitamente haver outros
mais parecidos com a Terra: os recursos disponíveis hoje
permitem detectar apenas planetas muito grandes.
Milagre
A espectrografia (análise da composição
química através da luz emitida) revela que a estrela
é jovem apenas um bilhão de anos de idade,
o que, mesmo aos otimistas, parece insuficiente para a evolução
de vida complexa. Alguns acreditam que a existência de vida
depende de condições praticamente idênticas
às da Terra: exata distância do Sol, mesma composição
química e atmosférica, órbita regular e uma
Lua grande o suficiente para estabilizar a rotação.
Um planeta assim só poderia existir por milagre.
Outros acreditam que a vida pode ser adaptável e existir
em condições insuportáveis, de forma que poderia
haver até mais de um planeta com vida em cada sistema. Novas
descobertas em biologia mostraram a existência de vida nas
condições mais difíceis e nos lugares mais
improváveis do planeta. Provar que a vida é capaz
de sobreviver num determinado planeta não é o mesmo
que dizer que ela pode surgir ali. O código genético,
mesmo dos organismos simples, é tão complexo que parece
difícil ter surgido por acaso o que favorece a tese
de que a vida seria um milagre restrito a nosso planeta. Mas existem
teorias recentes explicando como a vida poderia começar com
algo mais simples que o DNA. Há também a sugestão
de que ela surgiu no espaço interestelar e foi disseminada
através de cometas.
A prova dos noves seria a descoberta positiva de sinais de vida
em planetas diferentes da Terra. Até agora, possíveis
microfósseis num meteorito originado de Marte são
o único e duvidoso indício. Fruto de observações,
Marte e Europa, uma das luas de Júpiter, são os mais
prováveis reservatórios de água fora da Terra.
Talvez uma missão tripulada possa esclarecer a questão
nos próximos dez anos.
Evolução
casual Décadas atrás, havia a grosso modo
duas opiniões sobre o assunto: aqueles para quem a própria
vida, inteligente ou não, é um milagre, e os que viam
a inteligência humana como decorrência natural da evolução.
Bastaria adicionar bactérias a um planeta adequado para conseguir,
em alguns bilhões de anos, uma inteligência semelhante
à humana com a mesma certeza com que fermento num
vasilhame de leite dá iogurte. Uma terceira posição
ganhou força: talvez a vida seja comum, mas não siga
uma evolução linear. Cada vez mais, certos eventos-chave
da história parecem devidos a acidentes e não a uma
lógica inerente à evolução. Os dinossauros
eram mais inteligentes e ágeis do que se pensava. Não
foram superados por mamíferos mais evoluídos. Foram
destruídos por uma colisão cósmica casual.
O papel do acaso na evolução parece maior do que se
pensava.
Assim, mesmo em mundos idênticos ao nosso, a existência
de vida não resultaria necessariamente em seres inteligentes,
muito menos humanóides. A vida é provavelmente
abundante no cosmos, mas ETs inteligentes podem ser raros. Talvez
os astrônomos estejam na posição de quem perdeu
a chave num beco escuro e procurou debaixo do poste onde havia luz.
Talvez outras civilizações usem meios de comunicação
ou frequências desconhecidas.
A busca por vida inteligente continua: qualquer um pode ajudar a
detectar sinais de vida instalando um protetor
de tela para trabalhar dados captados pelo radiotelescópio
de Arecibo, em Porto Rico. Em 15 meses, milhares de PCs fizeram
o equivalente a 345 mil anos de cálculos. Quem sabe o tão
ansiosamente aguardado primeiro contato acontece bem em cima de
sua mesa. 
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