Protesto
O
morro quer descer
Favelania
assusta polícia do Rio por pretender levar para o asfalto a
voz das favelas
Francisco
Alves Filho
|
Antonio Gauderio/Folha Imagem
|
 |
|
André (de bigode) e Rumba (de boina) à frente
de manifestação que juntará favela, MST,
sem-teto e estudantes contra a violência policial |
A expressão
movimento de favelania foi pronunciada pela primeira
vez pelo traficante carioca Márcio Amaro de Oliveira, o Marcinho
VP, preso em fevereiro. O traficante ficou famoso após a
divulgação da sua relação com o cineasta
João Salles, autor de Notícias de uma guerra particular,
filme que mostra o dia-a-dia do tráfico no Morro Dona Marta.
A proximidade de João, um dos herdeiros do Unibanco, com
VP pôs mais fermento na crise que implodiu a cúpula
da polícia carioca e culminou na demissão do coordenador
de Segurança Luís Eduardo Soares. Por trás
da idéia favelania estava o ex-estudante de Teologia
André Fernandes, 29 anos, que desde 1991 percorre favelas
do Rio. Ele disse a ISTOÉ que o seu objetivo é conscientizar
as comunidades a lutar por seus direitos. André é
um dos organizadores do ato que acontecerá terça-feira
29, na Candelária. Favelados, sem-teto, MST e estudantes
marcarão os sete anos da chacina de Vigário Geral
e protestarão contra a violência policial. Essas forças
se juntaram para formar a Frente de Luta Popular (FLP), outra idéia
de André. A mobilização assustou a Secretaria
de Segurança fluminense, que começou a investigar
a ligação dos líderes de favelas com os traficantes.
O governo divulgou uma gravação em que André
conversa com a mãe de Marcinho VP e também a trata
de mãe. O secretário Josias Quintal reclama
das bravatas de outro líder: Antônio Carlos Gabriel,
o Rumba, do Jacarezinho. Ele ameaçou juntar traficantes e
favelados para fazer reivindicações. André
é filho de uma advogada e de um médico. Quanto à
sua obstinação, assegura: Vou até onde
permitirem minhas forças, até à morte. Digo
isso porque posso estar numa favela, um policial me dar um tiro
e responsabilizar o tráfico. Mas não tenho medo da
morte.
ISTOÉ
Como você se define?
André Fernandes Sou um missionário,
luto por ideologia. Sou favelado por opção. O que
define essa luta é a frase de Che Guevara: A maior
ambição revolucionária é ver o povo
liberto da sua alienação. Quero levar consciência
ao povo para que se torne autor da sua própria cidadania.
Isso é a favelania.
ISTOÉ Quais as frentes de atuação?
André Favelas. Em setembro começam os cursos
de formação política. Falaremos sobre Manifesto
Comunista, conjuntura social, MST, Che e Malcom X.
ISTOÉ É possível ser líder
de uma favela sem ter contato com o tráfico?
André As lideranças conhecem o tráfico
e vice-e-versa. Nosso movimento não preocupa. A proposta
deles é mais tentadora. Enquanto um garoto ganha R$ 151 mensais
para trabalhar dez horas por dia, o que vende drogas recebe R$ 300
por semana. Mesmo que eu tire dois ou três, centenas vão
entrar no tráfico.
ISTOÉ O movimento favelania é
revolucionário?
André Sim, mas ninguém deve ter medo. Não
vamos pegar em armas. Proponho uma revolução de mentes.
Há o medo da violência, mas não haverá
isso. Organizei um passeio dos sem-teto e o das favelas ao shopping
Rio-Sul. Entramos em joalherias e nada aconteceu.
ISTOÉ Rumba, do Jacarezinho, disse que os traficantes
emprestariam armas para uma revolução socialista...
André Isso foi uma coisa dele. Não foi
tratado nem pela favelania nem pela FLP. Conversei com
ele e disse que não era por aí. Rumba concordou.
ISTOÉ Há líderes que colaboram
com o tráfico. Como você lida com isso?
André Temos de ter cuidado, a gente vive no fio
da navalha. Isso é usado pelo governo para nos desqualificar.
Mas é difícil estar numa favela e dizer para o cara
eu não quero falar com você, quando tem
um monte de fuzis do lado dele.
ISTOÉ Como garantir que atos como o do dia 29 não
sirvam aos traficantes?
André No dia em que o movimento tiver de abaixar
a cabeça para traficante, eu paro.
ISTOÉ Marcinho VP falou em movimento revolucionário
por favelania. Qual é sua influência sobre ele?
André O Márcio eu conheço desde
que eu fui para o morro. Várias vezes veio conversar comigo
e falei que o caminho era outro, não o tráfico. Ele
sempre dizia que se não estivesse devendo tantos anos de
cadeia gostaria de fazer o que eu faço. Dei vários
livros a ele para mostrar que tinha de sair do tráfico.
ISTOÉ Proximidade com o tráfico não
é perigoso?
André O movimento do qual participo não
é o da boca (de fumo) e sim político-social.
Se quiserem fazer comigo o que fizeram com tantos outros que lutaram
por um País melhor botar na cadeia, dizer que é
bandido que façam. Mas não saio dessa luta
por nada.
ISTOÉ Você critica a opressão do tráfico
nos morros...
André O tráfico é composto por gente
que está à margem da sociedade. Como vou fazer com
que tenham uma outra postura? Já questionei coisas erradas
como crianças vivendo o mundo das drogas.
ISTOÉ A principal reclamação das
favelas é a violência policial?
André É. O que aconteceu com Gabriel (6
anos, morador do morro de São Carlos, morto, segundo moradores,
por policiais) foi absurdo. O governo pegou armas oficiais dos que
participaram da operação, mas a balística não
comprovou nada. Todos eles usam uma pistola ilegal na cintura, normalmente
a PT 380. Foi uma dessas armas que matou o Gabriel. O comando da
polícia sabe disso.
ISTOÉ Você perdeu a eleição
para dirigir a associação do Dona Marta. É
legítimo falar pela comunidade?
André A comunidade acha que a associação
está desgastada. Numa favela com dez mil habitantes, houve
600 votos ao todo. Além disso, o outro candidato ganhou por
ter apoio da Igreja Universal, que é muito forte no morro.
|