Ação
Social
Doce
da Amazônia
Coca-Cola
usa açúcar da floresta e dá novo sabor à
vida de 22 mil pessoas
Letícia
Helena Presidente Figueiredo (AM)
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Carlos Magno
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Única usina de açúcar da Coca-Cola no mundo
gera dois mil empregos |
A Coca-Cola
que dois milhões de pessoas vão beber durante as Olimpíadas,
no outro lado do mundo, tem o gostinho da Amazônia. Uma usina
encravada na floresta, numa paisagem rodeada de igarapés,
produz o açúcar que adoça o refrigerante mais
vendido em todo o País e que sai daqui para a Austrália.
No caminho do território da onça-pintada à
terra dos cangurus, o produto da Usina Jayoro ajuda a dar um sabor
diferente à vida dos moradores da pequena Presidente Figueiredo,
a 107 quilômetros de Manaus. No município, de 22 mil
habitantes, dos quais apenas sete mil vivem na área urbana,
a produção de 16 mil toneladas de açúcar
por um ano, num canavial de 590 quilômetros quadrados, é
sinônimo de mais de dois mil empregos diretos e indiretos.
Em consequência, o distrito-sede tem todas as ruas asfaltadas
e sobram vagas nas escolas. A usina funciona como um programa
social para o município. Os empregos gerados por ela ajudaram
até a diminuir os índices de alcoolismo e de divórcios
entre a população, afirma o prefeito de Presidente
Figueiredo, Fernando Vieira. Além disso, o empreendimento
abre portas para que outras agroindústrias se instalem por
aqui.
A Jayoro nasceu em 1984, no rastro de financiamentos e incentivos
fiscais do Pró-Álcool. Levou quatro anos para começar
a produzir. A primeira colheita resultou em menos de 500 toneladas
de açúcar. Com a ajuda oficial minguando, fustigada
pelo clima implacável da região e cortada por uma
estrada de terra frequentemente interditada por causa das
chuvas , a usina entrou em processo de decadência. Em
1994, as máquinas pararam e restou apenas um pequeno engenho,
suficiente para dar conta da produção de 100 toneladas
por ano.
Uma doce coincidência tirou a Jayoro da lista interminável
de projetos agroindustriais fracassados na Amazônia. A Coca-Cola
precisava de açúcar para abastecer sua única
fábrica de concentrado, instalada na Zona Franca de Manaus.
Ela é uma das cinco maiores do mundo e abastece a 49 fábricas
no Brasil. Além da Austrália, exporta o concentrado
para o Paraguai, Colômbia e Venezuela. Levar o açúcar
do Sul ou do Centro-Oeste do País encareceria demais os custos.
O jeito era produzi-lo na região. A usina, embora funcionando
em condições precárias, tinha espaço
para ampliar a plantação e maquinário. O casamento
aconteceu em 1995. De lá para cá, a Coca-Cola já
investiu R$ 48 milhões na Jayoro. A área plantada
passou de 400 para 2.618 hectares a meta é chegar
a quatro mil hectares em 2003. A tecnologia da Jayoro nada
fica a dever à das maiores usinas do Sul do País,
diz o diretor de relações governamentais da Coca-Cola,
Jack Corrêa. É a única empresa de açúcar
da Coca-Cola no mundo, acrescenta ele.
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Carlos Magno
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A substituição dos homens na colheita da cana
será gradativa |
Energia
Para justificar o título, a Jayoro é um
show de tecnologia em plena selva. A usina produz toda a energia
que consome a partir do bagaço da cana. O bagaço do
bagaço vira adubo. Em viveiros, agrônomos testam as
espécies mais adaptáveis ao clima da região.
Em 1984, eram quatro. Hoje, são 26. A tarefa mais complicada
é treinar mão-de-obra, já que Presidente Figueiredo
não tem tradição agrícola. Para resolver
o problema, há dois anos, um grupo de lavradores do norte
de Minas Gerais foi convocado para ensinar os trabalhadores da usina
a colher cana. Quem aprendeu a tarefa desfruta agora de uma série
de benefícios. Aqui não tem bóia-fria.
Levamos as refeições em quentinhas para o pessoal
que está na lavoura, diz o diretor-presidente da Jayoro,
Francisco Magid. Também temos um compromisso de não
permitir a presença de crianças no campo, conta
o empresário.
Com o treinamento, a produtividade dos cortadores de cana passou
de 800 quilos/dia para cinco toneladas/dia. Mesmo assim, a empresa
vai investir na mecanização da lavoura. Em três
anos, 65% do trabalho será feito por máquinas. Dessa
maneira, será possível diminuir as queimadas no canavial,
uma prática nociva ao meio ambiente. Para facilitar o trabalho
dos lavradores e evitar a presença de cobras e outros
animais , a área de colheita manual é queimada
antes de o processo começar. A substituição
de homens por máquinas vai ser gradativa, porque não
podemos acabar com postos de trabalho de uma hora para outra,
diz o prefeito de Presidente Figueiredo. De qualquer modo,
também precisamos preservar a natureza, porque ela é
outra fonte de renda importante para a cidade, acrescenta
Fernando Vieira, de olho nos turistas atraídos pelo paraíso
ecológico de 38 cachoeiras e inúmeras corredeiras
catalogadas no município.
Na
trilha O número de turistas e ecoaventureiros
deverá amentar com o asfaltamento da BR-174, que corta Presidente
Figueiredo. E o açúcar levará menos de duas
horas para chegar da usina à fábrica do xarope, em
Manaus.Perdi a conta das vezes em que briguei com gente que
não acreditava que a terra daqui era boa para plantar cana.
O problema era a falta de condições. Quase não
havia mão-de-obra e a estrada era precária. Às
vezes, os caminhões ficavam atolados três dias na estrada,
lembra o supervisor agrícola da usina, Fabiano Romero, responsável
pelo plantio das primeiras mudas, em 1984. Quando começaram
a ocupar o Centro-Oeste do Brasil diziam que a terra não
prestava. Hoje, a região é um celeiro. Aqui vai ser
a mesma coisa. É muito gratificante ver o açúcar
saindo das bicas, saber que dezenas de famílias sobrevivem
da usina. Só tenho motivos para me orgulhar, afirma
Romero, desde 1974 trabalhando na Amazônia em projetos agroindustriais.

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