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Muito além da notícia - continuação

Luiz Carlos Santos/AG. O Globo/Max G Pinto
Revolta: Depois do enterro, Nilton Gomide, irmão de Sandra, disse não acreditar na tentativa de suicídio de Pimenta e ironizou a tese da defesa. Afirmou que o crime foi premeditado e cometido em estado de violenta frieza

Através do advogado, Pimenta combinou se entregar na manhã da quarta-feira 23. Às 19 horas do dia anterior, porém, Mainardi o levou para o Hospital Albert Einstein, em estado de coma. Ele encontrou o jornalista caído em seu apartamento, ao lado de três caixas vazias de Lexotan e Frontal. Segundo o boletim médico, Pimenta teria ingerido grande quantidade de tranquilizante. O jornalista passou a noite na UTI, com três policiais na porta e já na condição de prisioneiro. No dia seguinte, enquanto ele recebia a visita de duas irmãs e um cunhado já na unidade semi-intensiva, ISTOÉ tinha acesso a uma carta redigida por Pimenta e endereçada às suas filhas Andréa e Stephany, gêmeas de 28 anos, residentes com a mãe nos Estados Unidos. São 36 linhas manuscritas em duas folhas de papel sulfite, em que Pimenta se despede e pede perdão.

Na manhã da quinta-feira 24, Pimenta já tinha tomado banho e caminhava pelo quarto, esperando a chegada da ex-mulher e das filhas. Quando deixar o hospital, será levado para uma das celas do DHPP. Seus amigos asseguram que ele tentou o suicídio. A família de Sandra desconfia. “Isso não me convenceu. Queremos um laudo que comprove a quantidade de barbitúricos ingerida por ele”, diz o advogado Luiz Flávio Gomes, contratado pelos Gomide.

Na sexta-feira, Pimenta disse a um jornalista do Estadão que iria matar alguém

Obsessão – O desfecho trágico do romance entre o diretor de redação e a editora de economia parecia anunciado. Deprimido desde que demitiu a ex-namorada, Pimenta passou a frequentar a redação trajando roupas pretas e óculos escuros. Espalhou a notícia de que Sandra recebera propinas do empresário Wagner Canhedo, dono da Vasp, e que essa teria sido a causa da sua demissão. Ficou furioso ao saber que ao deixar o jornal, em conversa com a psicóloga da empresa, Sandra contou que perdera o emprego por ter terminado o namoro. Pimenta, então, reuniu os editores, leu o relatório da psicóloga e acusou a ex-namorada de incompetência. “Sempre que possível ele a difamava”, diz Nilton Gomide, irmão da jornalista.

“Pimenta não admitia a possibilidade de Sandra não depender dele para se empregar.” Quando saiu do Estadão, ela negociava uma vaga no Banco Opportunity. O ex-namorado descobriu e disse a pessoas influentes no banco que ela fora demitida por comportamento antiético.

A obsessão de Pimenta era tamanha que, fazendo valer a autoridade de diretor de redação, passou a censurar as notícias que direta ou indiretamente estivessem relacionadas a Sandra. Proibiu o colunista César Giobbi de publicar notas favoráveis às pessoas que mantinham alguma relação com a ex-editora de economia. Vetou reportagens sobre a Rede Globo, apenas porque uma das assessoras da emissora, Rosana Dias, era amiga de Sandra. Na última semana, trocou a reportagem de capa do caderno Telejornal, que trataria da minissérie global Aquarela do Brasil. Na quinta-feira 17, demitiu o repórter Carlos Franco, pois descobrira que o rapaz estava empenhado em ajudar a sua ex-namorada. A decisão surpreendeu a direção do jornal. Ruy Mesquita, um dos donos do Estadão, não entendia como Pimenta pôde demitir um funcionário a quem elogiava diariamente. No dia seguinte, o próprio Pimenta perguntou pelo repórter, como se não lembrasse do ato da véspera.

O jornalista estaria sob os cuidados de um terapeuta desde 28 de julho. Naquela ocasião, ele pediu demissão do jornal. Alegou não ter como trabalhar em razão de uma deficiência visual, stress por excesso de trabalho e do drama vivido por uma de suas filhas, que sofre de câncer. Os diretores do jornal não aceitaram o pedido e recomendaram o tratamento psicológico. Na sexta-feira 18, a demissão de Carlos Franco foi revista e Pimenta voltou a receber conselhos da cúpula da empresa. Sugeriram que ele se afastasse imediatamente. Mas não houve tempo.

Não à impunidade

Igreja Nossa Senhora Mãe do Salvador, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, deverá ser palco de um ato contra a impunidade no sábado, 26, às 10h. Durante a missa de sétimo dia de Sandra Gomide, amigos, parentes e colegas da jornalista pretendem divulgar um manifesto condenando o episódio e alertando para o “assassinato moral” da vítima. A intenção dos organizadores do ato, que contará com o apoio da ONG Sou da Paz, é não deixar que o caso seja abafado e termine na absolvição de Pimenta Neves.

Violência – No início deste mês, Pimenta já parecia ter perdido todos os freios. No sábado 5, Sandra chegou ao seu apartamento e encontrou o ex-namorado sentado diante do computador. Sobre a mesa havia um revólver e ele queria ler os e-mails dela, que havia trocado a senha dias antes. Houve uma discussão. Ele disse que iria matá-la ou se suicidaria caso o namoro não fosse reatado. Atracaram-se e foram batendo boca até que chegaram ao quarto. Lá, Pimenta mostrou que sobre a cama já estava seu pijama. “Vim para ficar com você para sempre”, gritou. Sandra disse não. O jornalista pegou um saco de lixo vazio e obrigou-a a devolver todas as jóias e roupas que ele havia lhe presenteado. Em seguida, com o dorso da mão, desferiu dois tapas no rosto dela. Sandra trancou Pimenta no quarto, correu até a sala e telefonou para o pai. Ao ouvir a conversa, o jornalista tomou-lhe o telefone e tentou tranquilizar o sogro: “Está tudo bem, só vim buscar as jóias”, disse. Quando Pimenta saiu, Sandra foi ao 36º Distrito Policial e registrou o Boletim de Ocorrência 003837/2000, denunciando a agressão. Naquela semana, ela dormiu na casa de um tio e contratou os serviços de um segurança.

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