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Confissão: Antes de ingerir tranquilizantes e ir parar no hospital, Pimenta escreveu uma carta às filhas em que conta ter assassinado Sandra e pede perdão
Muito além da notícia

A história de obsessão e poder que levou o diretor de redação do Estadão a matar sua ex-namorada jornalista e virar manchete

Madi Rodrigues
Mário Simas Filho
e Sara Duarte

No início de junho, a jornalista Sandra Florentino Gomide, 32 anos, editora de Economia de O Estado de S.Paulo, recebeu em seu apartamento na zona sul de São Paulo o então namorado Antonio Marcos Pimenta Neves, 63 anos, diretor de redação do mesmo jornal. A conversa do casal, relatada a ISTOÉ por um amigo e confidente de Sandra, foi curta e tensa.

Pimenta, vou ser honesta com você. Precisamos terminar nosso relacionamento. Estou apaixonada por outro...
Não vou aceitar isso. Quem está virando tua cabeça?
Isso não vem ao caso.

“Sei do Jaime. Depois disso você pode voltar para sua vidinha de prostituta”
e-mail de Pimenta
para Sandra

Depois do rápido diálogo, Pimenta deixou o apartamento enfurecido. Sandra já esperava por isso. Às vésperas daquele encontro, a relação antes carinhosa se transformara em agressiva. Pimenta sabia que estava perdendo a namorada e conhecia o nome do rival: Jaime Mantilla, um dos proprietários do diário Hoy, o terceiro maior jornal do Equador. Um e-mail de Pimenta para Sandra, em 29 de maio, ilustra o ocaso de um namoro de quatro anos. “Eu sei do Jaime. Depois disso, você pode voltar para sua vidinha de prostituta”, escreveu o diretor de redação do Estadão. Sandra conheceu Jaime em maio, quando esteve no Equador fazendo uma reportagem sobre a Ecuatoriana de Aviación, empresa aérea de Wagner Canhedo. Conversaram três ou quatro vezes e quando ela voltou ao Brasil passaram a se corresponder pela internet.

Na primeira quinzena de julho, Pimenta e Sandra tiveram uma conversa ríspida, desta vez na redação do jornal.

Se você não é minha não será de ninguém. Eu te fiz e posso te desfazer.
Cheguei até aqui porque sou competente.
Não. Você está demitida.

Diário Hoy
Sandra conheceu Jaime Mantilla no Equador em maio e voltou apaixonada. Foi o final de uma relação de quatro anos com Pimenta, com quem compartilhou os mesmos hobbies e os mesmos locais de trabalho

Caçada – A partir desse instante, Pimenta começou a perseguir a ex-namorada de forma implacável. A caçada terminou no domingo 20, por volta das 14h30, no Haras Setti, em Ibiúna (SP), onde ambos mantinham cavalos manga-larga. Sandra estava na selaria quando foi surpreendida por Pimenta. O dono do haras, Delmar Setti, a poucos metros, preparava um churrasco. “Ouvi a Sandra gritar: ‘Não, Pimenta, não!’ Depois ouvi dois tiros. Corri para lá e encontrei o corpo de Sandra com um tiro nas costas e outro na cabeça. Pimenta manobrava seu carro para deixar o haras”, contou Setti ao delegado Marcelo Damas, do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).

Na segunda-feira 21, o juiz Maurício Valala decretou a prisão temporária de Pimenta por 30 dias. Dois dias depois, os primeiros resultados do exame necroscópico revelaram que Sandra morrera vítima de dois disparos. O primeiro lhe atingiu as costas e o segundo, dado à queima-roupa, a cabeça, pouco acima do ouvido esquerdo. O resultado do exame animou o promotor Marcelo Milani a carregar nas tintas contra Pimenta. “Vou tratar o caso como um homicídio qualificado – crime hediondo que prevê uma pena de 12 a 30 anos de reclusão”. “O assassino não ofereceu nenhuma chance de defesa à vítima”, diz. O advogado de Pimenta, Antônio Cláudio Mariz de Oliveira, entregou a arma do crime à polícia e relatou ao delegado Nathan Rosemblatt que seu cliente confessara o assassinato e não dificultaria as investigações. “Temos os componentes de um crime passional”, diz o criminalista.

Depois de atirar em Sandra, Pimenta dirigiu por cerca de três quilômetros e parou em uma estrada. “Ele estava em pânico. Disse que ficou ali por horas até ver um pardal que ficou olhando para ele. No seu desvario, pensou que fosse a alma de Sandra. Começou a chorar, dizendo: ‘Ela voltou para me perdoar’”, afirma o publicitário Enio Mainardi, amigo de Pimenta há mais de 30 anos e um dos primeiros a receber um telefonema dele após o crime. Da mesma estrada, o jornalista teria telefonado diversas vezes à redação do Estadão. Primeiro contou o que fez. Depois, quis saber dos repórteres de polícia se Sandra havia morrido e, por fim, perguntou qual seria a manchete do dia seguinte. No mesmo domingo, já na casa de um amigo, Pimenta recebeu o advogado Mariz, escolhido pelo jornal para defendê-lo. “Ficamos com medo de que ele cometesse uma loucura, pois estava com o revólver no bolso de trás”, recorda-se o criminalista. Mariz saiu dali com a arma do crime e a confissão do jornalista.

Guerra Judicial

Tão grande quanto a variação da pena por homicídio (de 6 a 30 anos de prisão) é o número de detalhes que a Justiça busca para chegar ao veredicto. As ameaças, o tiro pelas costas, a suposta tentativa de suicídio, tudo servirá de munição na hora de a Promotoria e a defesa apresentarem suas teses. O promotor fala em premeditação e homicídio qualificado – nome dado aos crimes praticados de modo cruel ou que dificultam a defesa da vítima –, também considerado hediondo. A pena vai de 12 a 30 anos. Já o advogado de Pimenta tentará convencer o juiz de que o jornalista estaria sob “forte emoção” no ato do disparo, uma das características do homicídio simples (de 6 a 20 anos de prisão), permitindo a redução da pena em até um terço. Uma condenação inferior a 8 anos possibilita até o regime semi-aberto (em colônias) e o bom comportamento diminui o tempo da reclusão em dois terços. Apesar da prisão temporária decretada, Pimenta poderá responder em liberdade caso consiga um habeas-corpus, pois não foi pego em flagrante.

 

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